CONTOS & CRÓNICAS – MAURÍCIO VILAR VAI AO CAFÉ – por João Machado

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Espero que esteja bem, e que a sua paciência aguente com que o que lhe vou contar a seguir. Agradeço-lhe mais uma vez a sua atenção. Escrevo-lhe para tentar pôr os meus pensamentos em ordem. E a ver se vejo saída para os meus problemas. Hoje é sábado, a minha colega Maria da Luz foi passar uns dias com os pais (ela é da Beira Baixa), nem telefonar-lhe posso, e, como de costume, passo o fim de semana em casa, a fazer companhia à minha mãe. Voltámos há pouco do café, a minha mãe está a ver a sua telenovela da tarde, e assim aproveito para lhe escrever.

De manhã fui com a minha mãe ao mercado. Fizemos muitas compras, e a minha mãe gastou imenso dinheiro. Voltámos a casa ajoujados com o peso da carne, peixe, hortaliças, eu sei lá que mais. Confesso que penso muito pouco no que é preciso comprar para trazer uma casa bem abastecida. O que senti mais foi o peso que tive de carregar, rua de Santo Ambrósio acima, desde a praça das Caldas. Ainda gemi um bocado, o que me valeu um olhar preocupado da Heloísa. Mas isso foi o menos.

À tarde, logo a seguir ao almoço, como é nosso hábito ao sábado (a Heloísa vai lá todos os dias), fomos ao café. A Esplendorosa estava meio vazia, como é normal nesta altura do ano. Não sei como é que as pessoas ainda arranjam dinheiro para irem passear, ou passar férias na praia, ou no campo, mas o facto é que o nosso bairro fica quase sem ninguém no Verão. Sentámo-nos no interior, pois tinham o ar condicionado ligado. Estava realmente muito calor. O Serafim trouxe os cafés, e também um duchesse para a minha mãe, que não perdoa o seu doce a seguir ao almoço. Tanto mais ao sábado, que para ela é um dia muito atarefado.

Estávamos muito tranquilos, eu a pensar que a seguir iria dormir uma soneca, até para me retemperar das emoções que ultimamente tenho tido, quando, zás, entram Esplendorosa adentro, a D. Henriqueta, a Maria Antónia e a D. Josefa da mercearia. Fiquei logo à defesa. Claro que vieram direitas à nossa mesa. Nem perguntaram se se podiam sentar. Vá lá que a Toninha se deixou ficar do outro lado da mesa. Desde a noite em a D. Henriqueta teve o ataque de sonambulismo que não lhe punha a vista em cima. Devo dizer que tinha um ar cada vez mais fresco e bem disposto.

– Boa tarde, vizinhos – disse a Henriqueta, logo secundada pelas outras duas. Ficou sentada ao meu lado esquerdo. Apesar da idade avançada, que ela é uns anos mais velha que a minha mãe, não parecia muito afectada pelas excursões nocturnas à procura do defunto Norberto. – Bem dispostos? Ui, que calor que está.

– Então, vizinhas, como têm passado?- perguntou a minha mãe, por sua vez. Para ela, a seguir à telenovela, o prazer máxima é uma sessão de cavaqueira no café. Preparei-me para aguentar um bocado. A Maria António arvorava um sorriso rasgado.

– A nossa vida habitual. Imaginem que hoje fomos à praça. Gastei um dinheirão. Aqui o Mauricinho teve de carregar bastante.- enfronharam-se numa troca de impressões sobre a má qualidade dos pimentos, couves e vegetais. A seguir atacaram o peixe.

– Vi um goraz que, coitado, deve ter nadado imenso, desde o meio do Atlântico, até ao Caldas. E a vinte euros o quilo. Coitado, ficou lá a aguardar quem o queira. – contava a minha mãe.

– Sempre é um peixe do alto. Dourada já só há de viveiro – replicava a Josefa, com o ar entendido de quem entende da compra e venda de comestíveis.

– Maria Antónia, guardaste o resto do arroz no frigorífico? – era a vez da viúva do Norberto intervir.

– Sim, D. Henriqueta. Na caixa de vidro, como disse. – rematava a Maria Antónia.

A conversa a seguir derivou para a telenovela Telhados de Vidro, que, segundo as amigas da Heloísa, anda a fazer um sucesso enorme no canal 9. Sentia-me adormecer. Encostei-me na cadeira o melhor que possível. Não me atrevia a arranjar um pretexto, pedir licença e ir para casa. Reparei que a Toninha me observava com um ar divertido.

A páginas tantas, levantei-me e fui à casa de banho. Consegui fazê-lo sem interromper a intrincada argumentação à volta dos Telhados de Vidro. Sem prejudicar as análises aprofundadas à volta do carácter de duas megeras, moradoras num bairro chique, em vivendas de grande espavento, que, em vez de gozarem tranquilamente a vida, passavam o dia tentando destruir a vida uma à outra, esgueirei-me para satisfazer uma urgente e indelegável necessidade. Tarde me apercebi do erro que acabava de cometer.

Saio do sacrossanto pavilhão das necessidades e dou de caras com a Maria António, encostada ao balcão, olhando-me com um ar irónico. Antes que eu conseguisse avançar, agarrou-me com mão forte por um ponto estratégico, e disse-me baixinho:

– Esta noite, às dez e meia, tal como no outro dia. Nada de fitas, ouviste, Mauricinho?

Agarrou num queque (acho que era um queque) que o Serafim tinha posto num pires sobre o balcão, e foi levá-lo à patroa Henriqueta. Voltei para o meu lugar mudo e quedo.

Já viu a minha vida? São agora sete e meia da tarde. Que hei de fazer?

 

4 de Agosto de 2014

 

 

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