INDEFESOS PERANTE O MEDO QUE NÃO LHES PERTENCE por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O medo entra na vida da criança por forma natural ou artificialmente, através de vidas quase invisíveis, só vividas por crianças e adolescentes que pensam que a vida em todas as casas é mesmo assim.

As crianças manifestam medo desde muito cedo: têm medo do escuro, têm medo da folha de uma árvore que “voa” para ela, medo de um som estranho, da cara de uma pessoa. Medo de ser abandonada pela mãe, medo de ver a mãe chorar, medo de ir para o infantário e para a escola…

A criança quando nasce já tem inscrito em si mesma o medo.

Todas as crianças passam por alguns destes medos e com ajuda dos pais são capazes de os ultrapassar.

Mas o medo que não é natural causa danos insuperáveis, e que se refletem ao longo da vida e, quantas vezes, quando adultas estas crianças não vão provocar o medo nos seus filhos criando-se uma cadeia difícil de romper

As crianças têm medo porque são maltratadas na família, na escola e na sociedade

A violência que ocorre dentro da família e da sociedade, como se fosse um fenómeno banal, é potencializadora da violência social.

Este problema não se resolve por si só, nem só pela escola, temos que chamar a esta causa os profissionais de saúde que actuam na assistência e na prevenção de casos de maus tratos. Os maus-tratos são a causa da falta de saúde mental de muitas crianças.

Ao longo da história da humanidade, a dificuldade de reconhecimento de que crianças e adolescentes eram maltratados por parte de adultos, reflecte a dificuldade de entendimento, dos adultos, de que o poder que possuem sobre os mais frágeis deve servir, apenas, para melhorar a sociedade futura, pelo presente digno de cada um e de todos no seu dia-a-dia.

Mas como é difícil quando o medo lidera os comportamentos!

As crianças vivem com os seus medos que se entrecruzam com os medos dos adultos que poderão ser uma extensão dos medos da criança. Quem não tem medo de ser abandonado, não pela mãe, mas pelos amigos, pelos companheiro/as, quem não tem medo, não do escuro, mas da solidão, quem não tem medo, não de ir para a escola, mas para o emprego e ser humilhado pelos superiores.

Quantas vezes os comportamentos disruptivos não são provocados pelo medo do medo. Quantos adultos se drogam ou embebedam para fugir da vida que têm, ou que não têm, porque têm medo de perder o pouco que têm.

Quantos adultos não prefeririam voltar ao ventre materno…sem o saberem.

Quantos adultos não têm medo de perder os filhos…

Todos os medos são importantes e devem ser olhados, não com “risota” e quase “desprezo” pelo outro, mas com compreensão. Compreensão não é fraqueza, é maturidade. Esse outro também tem medos.

Os meninos e as meninas de Gaza, de Hiroxima, da Síria, do Iraque, do Egipto, de África, da Ucrânia, para além destes medos que são universais, têm medo do barulho das bombas, têm medo de estar em casa, têm medo de estar na rua, têm medo de não encontrar os seus familiares, têm medo dos aviões, têm medo dos escombros…

Choram, sozinhas, pelas ruas à espera que alguém olhe para elas.

OLHEM PARA MIM, não nos jornais nem nas televisões, mas olhem para mim enquanto criança que tem direito a uma vida digna, tal como as crianças que se encontram, ao mesmo tempo, sentadas a jantar com a família.

Eu nunca mais vou ser um adulto sereno, quantos medos não estarão à minha espera?

 bia 9.8

Todas as crianças e adultos indefesos, perante o medo que não lhes pertence, merecem o nosso respeito, e não só, merecem que se faça algo por elas, basta vermo-nos, a todos, como seres humanos que buscam a felicidade.

Mas que conceito de felicidade tem cada um de nós?

 

 

 

 

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