A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 9 – por Carmen Maria Serralta

PARTE III

 

7 – Vestígios de uma travessia

            Breves notas sobre alguns contos que de alguma forma aludem à nossa fronteira ou a evocam. Por ordem de publicação:

7.1 – Tlön, Uqbar, Orbis Tertius  (Sur-1940; El Jardín de senderos que se bifurcan -1941; Ficciones-1944).

  

            Tlön é um planeta ficcional, Uqbar é também um lugar ficcional, vagamente situado na Ásia Menor, Orbis Tertius vem do latim: orbis, o mundo e tertius, terceiro. O conto fala da descoberta de um planeta – “labirinto inofensivo, sem um Minotauro à espreita para nos devorar” (Bloom, 2001, p.54) – Hque irá substituir o nosso. Nesse conto ocorrem duas intrusões do mundo fantástico no mundo real. A segunda intrusão, vale notar, aparece na Coxilha Negra – nome de um lugar limítrofe da zona da campanha onde, na realidade, ele e Amorim pernoitaram à época em que atravessaram aquelas largas distâncias. Cito o trecho no qual Borges, aqui como personagem-narrador, fala daquela intrusão:

         Um acaso que me inquieta fez que também fosse testemunha da segunda. Aconteceu uns meses depois, na venda de um brasileiro, na Coxilha Negra. Amorim e eu regressávamos de Sant’Anna (sic). Uma enchente do rio Tacuarembó nos obrigou a provar (e a suportar) essa rudimentar hospitalidade. (…). Deitamo-nos, mas não nos deixou dormir até o amanhecer a bebedeira de um vizinho invisível que alternava ofensas inextricáveis com rajadas de milongas – ou melhor, com rajadas de uma única milonga. De madrugada, o homem estava morto no corredor. A aspereza da voz nos enganara: era um rapaz moço (…). Em seu delírio caíram-lhe do cinto algumas moedas e um cone reluzente, do diâmetro de um dado.  Em vão um menino tentou recolher o cone. Apenas um homem mal conseguiu levantá-lo. Peguei-o na palma da mão por alguns minutos: lembro-me de que seu peso era intolerável e que, depois de retirado o cone, persistiu a opressão. Também lembro do preciso círculo que me gravou a carne. Essa evidência de um objeto muito pequeno e ao mesmo tempo pesadíssimo deixava a impressão desagradável de asco e de medo. Um homem dali do lugar propôs que o jogassem à correnteza do rio; Amorim o adquiriu por alguns pesos. Ninguém sabia nada do morto, salvo que ‘vinha da fronteira’. Esses cones pequenos e muito pesados (feitos de um metal que não é deste mundo) são imagens da divindade, em certas religiões de Tlön.

            Aqui dou término à parte pessoal de meu relato. O resto está na memória (quando não na esperança ou no temor) de todos os meus leitores.

(Borges, 1968, p. 31/32)

Pulperia (1887)[1] situada em Masoller – Coxilha Negra – na rota dos viajantes e onde, ao que tudo indica, Borges e Amorim passaram a noite.

Borges - XIVa

 

 

Borges - XVI

 

            Não por acaso Borges escolheu como mensageiro de Tlön alguém que “vinha da fronteira”. E suponho, não por acaso, esse jovem mensageiro, encontrado morto de madrugada no corredor, havia alternado, durante toda a noite, incompreensíveis insultos com breves períodos de milongas. Lembremos apenas, de passagem, que ao inteligente, astucioso Hermes (afora ser o mensageiro de Zeus, como já se viu) os gregos atribuíram a invenção da lira.

            Sabe-se que Borges funda na ficção suas próprias regras de verossimilhança, usando muitas vezes como personagens e, é este o caso de Tlön, pessoas reais, tais como ele próprio, amigos e pessoas de seu convívio. Menciona nesse conto, entre muitos outros, a Bioy Casares e a Enrique Amorim; nomeia lugares por ele vividos e visitados. Borges, nesta obra-mestra literária, se apresenta como narrador e nessa condição lembra-se de uma conversa que tivera com outro personagem sobre o Rio Grande do Sul: “Falamos de vida pastoril, de capangas, da etimologia brasileira da palavra gaucho (que alguns antigos orientais ainda pronunciam gaúcho).” Essa é uma narrativa que se mostra bem topográfica. Nela, quase ao final, está escrito: 1940. Salto Oriental, referindo-se à cidade de Salto, e oriental à República Oriental do Uruguai. São essas algumas das ardilosas estratégias usadas pelo escritor para dissipar a linha divisória entre o mundo real e o da ficção. Borges elimina desse jeito os limites entre aqueles dois universos.

            Esse conto, um dos prediletos do crítico Harold Bloom, foi também o escolhido para integrar a coletânea Os melhores contos fantásticos[2] do premiadíssimo Flávio Moreira da Costa – um de nossos melhores escritores, notável antologista da língua portuguesa e, além disso, cidadão santanense honorário.

 

7.2 – La forma de la espada  (Ficciones – Artificios, 1944)

            O narrador conta a história de Vincent Moon, um desprezível e covarde delator na guerra da independência irlandesa, e atribui a este uma série de crimes. Ao final, porém, o narrador confessa ser ele o próprio Vincent Moon. Pincei algumas referências que possam nos interessar: “Seu nome verdadeiro não importa; todos em Tacuarembó o chamavam de o Inglês de La Colorada”. “O Inglês vinha da fronteira do Rio Grande do Sul; não faltou quem dissesse que no Brasil tinha sido contrabandista”. “Não se dava com ninguém; é verdade que seu espanhol era rudimentar, abrasileirado”. “Saímos, depois de comer, a olhar o céu. Havia desanuviado, mas por trás das coxilhas do sul, sulcado e riscado de relâmpagos, armava-se outra tormenta”. Moon “cobrou os dinheiros de Judas e fugiu para o Brasil”. “Esta é a história que contou, alternando o inglês com o espanhol, e ainda com o português”.[3]

            Percebem-se nesta narrativa cruel, violenta, indícios do cenário fronteiriço, ao mesmo tempo, inquietante, misterioso e ilimitado. O efeito final desse conto é direto e incisivo, atingindo o leitor como a lâmina afiada de uma faca ou punhal.

Borges - XVII

  1. 3 – El Muerto (El Aleph, 1949)

            Sobre El Muerto reproduzo o que Borges respondeu (com o fino humor dos muito inteligentes) à revista Latitud nº.1, de Buenos Aires, em fevereiro de 1945, a respeito do que estava preparando naquele momento: “para o remoto e problemático futuro, uma longa narrativa ou novela breve (…). Para o futuro imediato (…) um conto de contrabandistas que acontecerá em 1890, perto de Arapey”, nome de um rio, afluente do rio Tacuarembó, e de uma região percorrida por nosso escritor-viajante. Além disso, transcrevo o comentário, quase uma confidência, feito a Roberto Alifano[4]: “Prefiro que este conto seja lido como uma espécie de aventura. Acho um exagero tomá-lo como uma alegoria deliberada da vida humana. A alegoria, talvez esteja dada apesar de mim; todos, tal como o pobre Otálora, recebemos as coisas para que no momento de morrer nos sejam arrebatadas”.

            Otálora é um compadrito[5], de um subúrbio de Buenos Aires que vai para Montevidéu e de lá segue com Azevedo Bandeira, chefe dos contrabandistas, rumo ao norte do país. O protagonista “resolve suplantar” a Bandeira. No momento em que consegue alcançar tudo o que mais deseja, isto é, o poder do chefe, dormir com sua mulher, montar seu cavalo e usar os seus arreios, é traído e morto pelos companheiros. Ao final, como acontece em outros contos borgianos, o personagem tem a revelação de seu destino – assim como numa tragédia grega. “Otálora compreende, antes de morrer, que desde o princípio o traíram, que foi condenado à morte, que lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo, porque já o davam por morto, porque para Bandeira já estava morto”.[6]

            O conto está parcialmente ambientado em nossa fronteira. Escolho algumas das muitas menções feitas à citada região: “Que um homem do subúrbio de Buenos Aires, que um triste compadrito sem outra virtude que a da enfatuação da coragem, se interne nos desertos equestres da fronteira do Brasil e chegue a capitão de contrabandistas parece de antemão impossível”. “[Otálora] morreu na sua lei, de um balaço, nos confins do Rio Grande do Sul”. Ele é morto pelo capanga do chefe. “Fala muito pouco e de uma maneira abrasileirada. Otálora não sabe se atribui sua reserva à hostilidade, ao desdém ou à mera barbárie”. A respeito do chefe dos contrabandistas, alguém no conto comenta: “Bandeira nasceu do outro lado do Cuareim[7] no Rio Grande do Sul; e isso, que deveria rebaixá-lo, obscuramente o enriquece de selvas populosas, de banhados, de inextricáveis e quase infinitas distâncias”.[8] “Ocorre em campos de Tacuarembó um tiroteio com gente rio-grandense”.

                O conto traça de modo contundente e esquemático a paisagem humana e geográfica do espaço da fronteira visitada, ainda que a história, e isso pouco importa, esteja situada entre 1891 e 1894.

Borges - XVIII

(continua)

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[1] Venda e hospedagem na área rural do Uruguai, Rio Grande do Sul e Argentina.

[2] Costa, 2006, p. 553.

[3] Borges, 1968, p. 123, p. 124, p.129.

[4] Alifano, 1988, p.164.

[5] Argentina e Uruguai: tipo popular, vulgar, provocador e presunçoso.

[6] Borges, 1969, p.38/39.

[7] Denominação uruguaia para o rio Quaraí.

[8] Borges, 1969, p.31, p.36, p.34, p.37.

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