O CAOS É CRESCENTE – por PETER WHAL

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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O caos é crescente

Peter Whal

SOMO, 25 de Julho de 2014

Parte II

(conclusão)

Batalha sobre a orientação da gestão de crise

A mudança inconstitucional do  Parlamento Europeu levou  a uma luta pelo poder entre ambas as instituições e desencadeou-se uma  negociação política enorme pata lá das  portas fechadas. A maioria qualificada para Juncker só aparece com a condição de que os sociais-democratas obtenham um certo  afrouxamento, digamos um certo espaço de manobra,  em face  da rigidez actual  do pacto fiscal (ver boletim 16, de Dezembro de 2012) e que mais espaço de manobra seja então  concedido para a França, Itália e outros poderem cumprir as exigências do pacto. O chefe de governo italiano, Renzi, que é  o único social-democrata que obteve  ganhos substanciais nas eleições, assumiu a liderança nesta negociação  para ligar o apoio a Juncker a algumas mudanças na gestão da crise. Eles não estão a colocar  o pacto fiscal como um todo em questão, mas querem  uma flexibilização das suas condições e mais flexibilidade em termos de  tempo. Por exemplo, eles sugerem que os investimentos em reformas não são contabilizados  como parte da dívida pública. Em troca, eles prometem cumprir os objectivos finais do pacto fiscal.

Isto é obviamente um ataque contra o núcleo forte  da estratégia dominante na gestão de crise com a disciplina orçamental  e a austeridade e para poderem  inverter  algumas das suas medidas económicas e sociais mais duras.

O que aqui  é particularmente interessante  é que, pela primeira vez, estamos perante uma coligação  contra o domínio alemão

Esta coligação é feita abertamente. Para além de Renzi, Hollande, também o chanceler austríaco, Faymann e o chefe de governo dinamarquês, Thorning-Schmidt, assim como o vice-chanceler alemão da grande coligação, Sigmar Gabriel, também se  juntaram  à Aliança. Isto é um desafio ao campo  de Merkel por um lado, mas é também uma limitação dos objectivos da frente  contra os alemães. Porque Gabriel, claro, não poderá correr o risco de romper  a coligação estabelecida em Berlim. Assim, a revolta contra Merkel acaba por ficar condicionada – e é em suma – mais uma vez muito muito determinada pelos interesses alemães.

No entanto, se a manobra for bem sucedida, poderá servir como um modelo para novas tentativas de condicionar e reduzir o peso da  ortodoxia alemã, que também noutras frentes está a perder importância. Merkel tinha começado um debate na UE sobre um pacto de competitividade, depois de uma série de novos tratados sobre o orçamento e sobre a disciplina neoliberal a impor à  economia  (o ‘two-pack’, ‘Six-Pack’ e pacto fiscal) que falharam na sua abordagem do tratamento da crise.  Na verdade, os indicadores sociais estão ainda piores com a Espanha, por exemplo, atingindo-se  uma taxa de desemprego de 25,9% e uma taxa de  desemprego jovem  de 55,5 por cento no primeiro trimestre de 2014.

Apesar da ‘competitividade’  estar  no centro da estratégia de crescimento da UE, as discussões sobre um pacto de competitividade estagnaram. As proposições teriam como consequência a elaboração de contratos em que os  Estados-membros da UE, especialmente aqueles que estão com  problemas financeiros, acordariam  com a Comissão Europeia  particulares reformas, da mesma forma que  a Grécia e outros países teriam de aceitar socialmente e economicamente as dolorosas. condições impostas pela  Troika. A  assistência financeira, o assim-chamado mecanismo de solidariedade, ficaria  dependente do andamento das reformas. O problema poderá estar  novamente na ordem do dia, em Outubro de 2014.

Os “velhos” problemas não resolvidos

Um  outro recuo da ortodoxia alemã  deu-se no princípio de Junho de 2014 quando o BCE baixou a taxa de juro geral para o valor 0,15 por cento enquanto que  para depósitos bancários no BCE a taxa foi mesmo ajustada para  (-0,1) por cento. Ao mesmo tempo, o BCE disponibilizou  400 mil milhões  de euros em créditos de  longo prazo para os  bancos. Desta  vez, o Bundesbank alemão nem sequer protestou. Entretanto Draghi anunciou que o programa será  mantido até 2016, dado que  “a retomas da zona Euro era ainda fraca, desigual e vulnerável.”   Estas medidas  nada ortodoxas do BCE lembram-nos, de que que “os velhos problemas” ainda não desapareceram.

Durante a campanha eleitoral os especialistas  em manipulação  tinham tentado dar a impressão de que a crise tinha já acabado. Mas também a avaliação do FMI sobre a situação na zona euro  chegou à conclusão em 20 de Junho de 2014 que apesar dos mercados financeiros estarem  calmos  no momento,  esta calmaria é a consequência das ‘recentes medidas do  BCE .’  Mesmo  Jens Weidemann, presidente do  Bundesbank alemão, fala de uma calma’ enganadora’ dos  mercados (Süddeutsche Zeitung, 24.6.2014, p. 2).

Por outras palavras, é o cinto de segurança do BCE e não a estabilidade auto‑sustentada  que impede que os mercados financeiros se afoguem  e especulem  contra os países da zona euro que estão com fortes défices orçamentais.

Será interessante ver como é que os resultados dos testes de stress de 124 grandes bancos na zona Euro, a realizar em Outubro de 2014, sob a orientação do BCE, como o novo órgão supervisor, irão  manter os mercados calmos. Um velho problema é que alguns dos bancos europeus ainda têm muita dívida por resolver e tornaram-se bancos de ‘zumbis’, que emprestam muito pouco para a economia.  A actividade económica real e o investimento ainda não alcançaram os níveis anteriores à crise e a “inflação é preocupantemente baixa, incluindo os países do núcleo central da zona euro”. Por outras palavras o fantasma da deflação e uma longa permanência com uma  estagnação económica tipo da ocorrida com o Japão não está ainda ultrapassada .

Novas reformas financeiras à espera

Embora o Comissário Michel Barnier que está de saída tenha considerado ter lançado  42 projectos de reforma nos últimos cinco anos, este número impressionante  não reflecte  nenhuma reforma  substancial  que efectivamente tenham enfrentado  a  mais profunda crise desde a grande depressão.

O lobby  da finança  conseguiu gerir a situação de tal modo que as propostas significativas ficassem na gaveta, que nunca vissem a luz do dia.  As reformas resultantes estão cheias de isenções, o que torna mais fácil contornar as medidas e as tornam em muitos casos completamente ineficientes e demasiado fragmentadas para lutar contra  o carácter sistémico da crise. Por  outras palavras, há ainda um enorme trabalho a fazer sobre as reformas que vai bem para  além do que já  está na  nova agenda de deputados ao Parlamento Europeu, conforme se explica na nossa  Newsletter  de  Maio passado, em  2014.

Ainda não está claro quem será  o sucessor de Michel Barnier e qual será  a  orientação que pretende imprimir quanto à  reforma financeira: se  reformista através de intervenção reguladora  como Barnier ou na base da confiança neoliberal na auto-regulação dos mercados, como o comissário antecessor de Barnier, Charlie McCreevy.

Com Juncker como presidente da Comissão, que também tem poder de decisão sobre as propostas de reforma do sistema financeiro, não pode haver um forte movimento no sentido de  uma mais rigorosa regulação. Juncker foi presidente dos Ministros das finanças no Eurogrupo de 2005 até ao fim de 2012, incluindo durante a primeira fase da crise do Euro, que foi tratada caoticamente no quadro de  um processo antidemocrático. Ele também foi o chefe do governo de Luxemburgo. Embora o país tenha uma população não superior a cidades como, Bradford, Duisburg ou Nabereschnyie Tschelny – é o mais importante paraíso fiscal e centro bancário da zona euro. Segundo  a UNCTAD,  2014 UNCTAD World Investment Report (WIR, Box Table I.1.1. (PDF: 9MB))  o país serve como um verdadeiro centro de passagem dos fluxos  financeiros para as Special Purpose Entities, ou seja para as  estruturas jurídicas (frequentemente denominadas entidades com fins específicos) das multinacionais. De cerca de 367 milhares de milhões de dólares entrados no país, apenas  8 por cento servem a economia real e cerca de e dos cerca de 364 mil milhões de dólares saídos apenas  6 por cento  têm a ver com a economia real.  Além disso, o Luxemburgo tem, juntamente com o Reino Unido, bloqueados muitas iniciativas de reforma, entre outras, a directiva relativa à tributação de poupança e ao imposto sobre as transacções financeiras.

Em forma de conclusão: Os próximos cinco anos não serão mais fáceis    do que os cinco últimos anos.  Os “velhos” problemas não estão resolvidos mas os novos estão já a estalar . Isto dá-nos a ideia de que vamos entrar numa situação em que o caos será cada vez maior.

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 Ver original em:

http://somo.nl/dossiers-en/sectors/financial/eu-financial-reforms/newsletter-items/issue-25-july-2014/the-mess-is-increasing

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Para ler a Parte I deste texto de Peter Whal, publicada ontem em A Viagem doa Argonautas, vá a:

O CAOS É CRESCENTE – por PETER WHAL

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