Fígados de Rinoceronte, conceituado selvagem papua, estava tomando o fresco à porta da sua casamata, quando compareceu um mensageiro do Olho de Avestruz, não menos considerado papua, que morava dali arredado cerca de duas léguas. Trazia debaixo do braço um pedaço de folha de palmeira, papel de carta muito usado na região. Era uma epístola de Olho de Avestruz, que dizia o seguinte:
Meu caro:
Tenho hoje uma pequena festa de família e peço-te o favor de vires jantar comigo. Preparo-te uma surpresa.
Teu
Olho de Avestruz
Oficial de Sant’Iago
– Está bem. – disse o convidado. – Diga lá ao amigo Olho que das seis para as sete do corrente lá estou e levo os dentes todos.
À hora combinada lá estava com efeito. Logo ao entrar lhe chegou às narinas um cheirinho agradável, destes que fazem crescer um oceano na boca de qualquer contribuinte.
– Então essa surpresa? – indagou o Fígados de Rinoceronte intrigado.
– Vais comer um petisquinho que nunca provaste,- replicou com um sorriso o Olho de Avestruz. – Imagina tu que fui ontem à caça e apanhei um sábio alemão.
– Oh! – exclamou com inveja o Fígados. – Tens uma sorte danada.
É preciso explicar que na Papuásia o sábio alemão é considerado como uma das mais raras e melhores peças de caça. Poucos papuas se gabam de o ter provado. É como o faisão para nós, indígenas da Paivipónia.
– Mandei-o rechear e fazer com molho de viroscas. Estava gordo que nem imaginas. Ficou de uma pessoa lamber os dedos até aos sovacos.
– Bem. Isto são horas. – declarou o Fígados de Rinoceronte. – Se fossemos para a mesa.
O Olho de Avestruz convidara vários amigos e parentes e o jantar correu muito bem, mostrando-se unicamente descontente um primo pobre do dono da casa a quem deram o pescoço e ficou danado. O mineralogista estava muito apetitoso e tinha apenas aquele gosto a cerveja peculiar das carnes alemãs.
No fim do banquete todos se retiraram bem dispostos e só o Fígados de Rinoceronte recolheu a casa empanturradíssimo e tão enjoado que, de noite, sua esposa, D. Suspiro de Pantera, teve que se levantar várias vezes e fazer-lhe chá de folhas de urodonal.
– É bem feito. – dizia ela ao marido. – Quem te manda comer comidas extravagantes? Sabes que padeces do estômago e não tens juízo…
– Tens razão. – concordou o Fígados. – Amanhã tomo um laxante e fico todo o dia a caldos.
No dia seguinte, ao tomar o primeiro caldo, o nosso selvagem achou-lhe um gosto esquisito a galinha choca.
– Este caldo é de quem? – perguntou ele?
– Deixa-me cá. – respondeu-lhe a D. Suspiro encanzinada. – Mandei logo de manhã à praça; não havia ninguém à venda: Não tive outro remédio senão fazer-te canja da tua sogra mais velha.
… Eu, que conheço aquela gente como os meus dedos, posso garantir-lhes que, por estes seis meses mais chegados, Fígados de Rinoceronte não torna a ir jantar fora.