E FOI ASSIM… por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

A Dóris deu as suas gargalhadas quando nos viu entrar, uns com flores, outros só com a saudade.

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As flores são o ritual do costume, o recolhimento ao seu lado, silencioso, com a cabeça sem nada pensar e com a alma cheia de dúvidas, mas  conformada porque cada um é livre de fazer da  sua vida o que quiser, parece que nos anestesia e nos leva a pensar “eu nunca o faria”, pois, mas não digas que desta água não beberás.

Reconhecer este direito dói porque nos ultrapassa, porque não percebemos porque se exerce esse direito quando tantas vezes lutamos pela nossa própria vida; talvez porque nessas alturas não somos nós que estamos a dominar o nosso corpo.

Não sei se é desespero, se é coragem ou se é a alma que já não consegue mais vencer tanta amargura que a vida nos dá.

É assim porque sim.

Eu não quero saber as razões, quero que não tenha sofrido quando ia mergulhando no que imaginou ser a paz que queria.

Foi feita a sua vontade.

Durante a vida, nunca pensamos que todos os momentos que já vivemos pertencem à morte, nunca pensamos que o primeiro futuro da vida é quando nascemos, é o primeiro passo para a morte e, esses são tempos, felizes ou não. E o que é a Felicidade? Não é igual para todos nós, depende do que exigimos da vida… ou do que a vida nos exige.

Estou, obviamente, a pensar na pessoa como um indivíduo único, dono do seu destino.

Todos os dias, morrem milhares de pessoas que não queriam morrer, mas que outro alguém assim o decidiu por causa do poder, seja ele qual for, desde a vingança ao poder de exterminação de povos.

Mas não era em nada disso que eu estava a pensar, enquanto partilhava com a Dóris o silêncio total, pensava e via as lágrimas de um irmão, de um sobrinho, de um familiar que não conhecia, mas para quem as lágrimas teriam o mesmo pesar; via o ar triste e admirado dos amigos “nunca imaginei vir ver a Dóris assim”.

Desta vez o meu corpo não fraquejou, mas a minha consciência sim, foi partilhada com o sobrinho que disse ” nada poderíamos ter feito”.

 Não tenho a certeza e é essa uma das exigências que fazemos à vida e que a vida nos faz.

A Dóris não nos deixou, deixousse-se e nós deixamo-la ir…

Não sei o que é a morte, e saberei o que é a vida?

Não há só uma vida, há tantas quantas os seres humanos.Sei, no entanto, a luta que travei para continuar a viver a minha vida e a vida dos outros.

A vida da Dóris cruzou-se com a minha, enriqueceu-me e deu-me ainda mais força para ser fiel à Liberdade.

Obrigada Dóris.

A última dádiva da Dóris

 “Meu coração doe-me como um corpo extranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto, (…) Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do átrio, na órbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som da vida nas lages limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.”

Fernando Pessoa (B. S.) 1939, L do D

 

 

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