CONTOS & CRÓNICAS – A DESCONHECIDA DO METROPOLITANO – por Manuel Simões

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 Já a tinha notado várias vezes noutras viagens, e um dia houve em que nos sentámos lado a lado, ou melhor, em que escolheu o lugar vazio à minha esquerda, como se, por instinto, tivesse adivinhado a íntima solidariedade. Entrava sempre ali, na estação do Saldanha, vinha eu de Entre-Campos. O dia fora certamente longo, já passava das oito da tarde, procurava sempre lugar nos bancos laterais para se concentrar melhor e, presumo, para ficar menos exposta à curiosidade alheia.

Vestia com modéstia mas, talvez por isso, apresentava um ar de digniddade, de pessoa com coragem para enfrentar situações, o quotidiano avulso. Fosse o que fosse, irradiava a simpatia que habitualmente atrai a empatia imediata ou até o olhar de incitamento de quem, por acaso, era apenas companheiro de viagem.

Porque havia reparado naquela figura, o que a distinguia dos rostos cansados que o metropolitano expunha cruelmente aos olhos mais atentos do percurso? Porque, mal se sentava, sem olhar os companheiros fortuitos de viagem, sem se intimidar ou hesitar sequer perante um ambiente de hostilidade para o que se propunha fazer, exibia sobre os joelhos um maço de papéis, folhas com linhas ou totalmente brancas, preenchidas em geral numa caligrafia incerta, nervosa e azul. Eram exercícios escolares mal disfarçados – ou tal me pareceram -, que subtraía de um envelope branco, não sei se timbrado, para os dispor numa ordem codificada, ao que suponho.

Pensei que devia ser professora, talvez não completamente, quem sabe se não fazia apenas umas horas num colégio ou numa escola nocturna. De qualquer modo, devia ter o tempo muito ocupado, devia ter necessidade de aproveitar todos os momentos para realizar aquele xis que lhe permitiria o adiamento do cansaço. Ou então, o mais provável, esperavam-na em casa os afazeres domésticos, filhos a cuidar, família a quem servir o jantar e coisas assim.

Expunha as provas sobre os joelhos, como disse. E rapidamente, como se retomasse um trabalho recém-interrompido, a esferográfica percorria as páginas de exercício, uma esferográfica branca que riscava a vermelho, algumas vezes com impaciência sobre um papel que mal suportava a violência do traço.

(Maio de 1969)

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