Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(continuação)
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Neste cenário, um país é amplamente visto como o caso mais agudo de todos os casos de disfuncionamento na Europa. Desde a introdução da moeda única, a Itália apresentou o pior recorde económico de qualquer Estado-membro da União: vinte anos praticamente ininterruptos de estagnação com uma taxa de crescimento bem abaixo da verificada na Grécia ou em Espanha. A sua dívida pública é hoje de mais de 130 por cento do PIB. Ainda por cima não é um pequeno país nem sequer um país médio no conjunto dos países desde há pouco tempo considerados dserem a periferia da União. É um país membro fundador dos seis, com uma população comparável à da Grã-Bretanha e uma economia tão grande novamente como a de Espanha. Depois da Alemanha, a sua indústria transformadora é a segunda maior na Europa, onde é igualmente posicionada quanto á exportação de bens de capital. As suas emissões de dívida pública via Tesouro representam o terceiro maior mercado de títulos soberano no mundo. Quase metade da sua dívida pública é vendida no exterior: os dados similares do Japão estão abaixo dos 10 por cento. Combinando importância e fragilidade, a Itália é verdadeiramente o elo mais fraco na UE, um elo que teoricamente poderá quebrar.
Assim , é agora também , não por mero acaso, o único país onde a desilusão com o esvaziamento das formas democráticas, não gerou uma adormecida indiferença mas antes uma revolta activa que abalou as suas estruturas políticas desde a sua base ao topo do poder, transformando a paisagem política. Os movimentos de protesto de um ou outro tipo surgiram noutros Estados da União, mas até agora nenhum deles se aproxima à novidade ou ao sucesso do Movimento 5 Estrelas na Itália como uma rebelião travada nas urnas. Assim também, por sua vez, a Itália oferece o espectáculo mais familiar de todos os teatros sobre a corrupção do continente e a sua mais celebrada materialização é o multimilionário que tem governado o país durante quase metade da vida da Segunda República, sobre quem mais palavras tem sido escritas do que sobre todos os seus concorrentes em conjunto. As reflexões sobre a situação que a Itália atingiu começam inevitavelmente por falar de Silvio Berlusconi. Que ele se distingue e destaca bem entre todos os seus pares no que respeita às relações entre o dinheiro e o poder é inquestionável. Mas a forma como o tem feito pode ser obscurecida pelo empenho da imprensa estrangeira em criticá-lo, com estrondosas denúncias feitas sobretudo pela revista The Economist e pelo Financial Times.
Duas coisas fizeram de Berlusconi um caso à parte. A primeira é que ele inverteu o caminho típico a partir do poder , tendo lucrado e acumulado uma fortuna antes de alcançar o poder. Berlusconi serviu-se então não tanto para aumentar a sua fortuna mas sim para a proteger e para se proteger a si-mesmo das acusações penais múltiplas sobre os meios de que se serviu para a adquirir .
A segunda é que a principal, embora longe de ser única, fonte da sua riqueza é uma televisão e um Império publicitário que lhe possibilitou um aparato de poder independente do poder governamental e que, uma vez que ele entrou na arena eleitoral, pode ser convertido numa verdadeira e poderosa máquina de propaganda e um instrumento do governo. As ligações políticas – laços com o Partido Socialista, em Milão e com o seu chefe Craxi – foram cruciais para a sua ascensão económica e em particular para a construção de uma rede nacional para os seus canais de televisão. Mas enquanto ele desenvolveu consideráveis meandros do poder, essencialmente, ao nível da comunicação e da sua própria capacidade de manobra, como político, a visão que dele queria dar era primeiro e sobretudo a de um empresário, para quem poder significava segurança e glamour, mais do que uma acção governamental ou um projecto. Embora ele tenha expressado a sua admiração por Thatcher e assumindo-se como um campeão do mercado e da liberdade económica, o imobilismo das suas coligações de centro-direita nunca diferiram grandemente das coligações de centro-esquerda do mesmo período.
Esta é a principal queixa que contra ele e na opinião neoliberal dos anglo-saxónicos pode ser vista a partir do seu tratamento que esta imprensa faz dos dois emblemas simétricos da corrupção, a dos chefes de Estado a ocidente e a dos chefes de Estado a leste da Itália. Durante anos, Erdoğan – um amigo próximo de Berlusconi – tem sido o destinatário de bajuladoras entrevistas, de perfis e de relatórios publicados pelo Financial Times e noutros media, apresentando-o como o arquitecto clarividente de uma nova democracia turca e como sendo igualmente uma ponte vital entre a Europa e Ásia, a ser bem vindo e com a rapidez possível à União Europeia. Ao contrário de Berlusconi, no entanto, cuja regra é anódina em matéria de liberdades civis, Erdoğan foi e é uma ameaça a estas liberdades. Ainda com um boom a descolar na Turquia cheio de privatizações, há a assinalar a prisão dos jornalistas, a morte de manifestantes, a truncagem de processos jurídicos, a intimidação brutal da oposição – para não falar de peculato e por grosso – o seu regime conta por pouco. Mesmo quando a extensão de sua selvageria e corrupção já não pode ser ignorada, os detalhes dos escândalos em que se envolveu foram mantidos geralmente a um mínimo e a culpa é rapidamente deslocada para a UE por ter falhado em estender-lhe uma mão redentora e com suficiente rapidez . Depois das gravações de Erdoğan, the Frankfurter Allgemeine observou que, em qualquer democracia e qualquer que ela seja, desde que que funcione normalmente, haveria provas suficientes dez vezes mais que o suficiente para obrigar o governo e Eerdogan a cairem. Nem um sussurro sequer disto é alguma vez referido no Financial Times. Muito do mesmo tipo de comentário poderia ser feita sobre Rajoy e seus parceiros em Espanha, onde a arma do crime é mais evidente do que no labirinto das vigarices de Berlusconi. Mas Rajoy, ao contrário de Berlusconi, é um confiável servidor do regime neoliberal: nenhuma suplemento especial em The Economist para vender ao grande público as suas ideias neoliberais a este respeito, tendo o cuidado de dizer o mínimo possível sobre Rajoy, tal como o fazem Bruxelas e Berlim. Os lideres europeus e os seus altos funcionários têm estado extraordinariamente silenciosos sobre o escândalo, dado a importância da Espanha para a zona euro,’ comenta Gavin Hewitt, editor de Europa da BBC. « A Chanceler alemã Angela Merkel e outros tem colocado muita fé no primeiro-ministro Rajoy, que é considerado como um seguro par de mãos para aplicar as reformas dolorosas que visam revitalizar a economia da Espanha.» Berlusconi pagaria pela falta de uma tal confiança.
Na hora do triunfo de Berlusconi na Primavera de 2008, quando ele venceu a sua terceira e mais decisiva vitória eleitoral, as opiniões muito pobres que a seu respeito circulavam no exterior eram-lhe pouco importantes. A coligação de centro-direita que tinha organizado e reorganizada desde 1994 – agora composta pelo Povo da Liberdade- uma fusão do seu anterior partido com o de seu aliado de longa data, o antiga fascista, Gianfranco Fini, mais a Liga do Norte de Umberto Bossi, que manteve separada a sua base e a sua identidade – obteve uma maioria absoluta nas duas Câmaras no Parlamento. Nos seus primeiros meses de governo foi dado um passo ao longo das linhas de trabalho de Thatcher/Blair, a primeira fase de um conjunto de mudanças, começando com as escolas primárias e terminando nas universidades, em que cortou nas despesas do sistema de ensino em cerca de 8 mil milhões, em nome dos interesses da economia e da concorrência: reduzindo o número de professores, imposição de contratos a curto prazo, impondo a formação de novas administrações empresariais, quantificando e medindo as avaliações na investigação. Mas isso foi a extensão do zelo reformista do governo. O máximo na sua agenda política constituía a legislação ad personam para proteger o próprio Berlusconi das acusações de comportamentos passiveis de serem tomados como crimes em processos pendentes contra ele – muitos tinham sido anulados pelos estatutos da imunidade, outros pela sua própria descriminalização devido a legislação por ele publicada. Em 2003, o seu governo aprovou uma lei em que concedia imunidade face à lei a cinco gabinetes ministeriais; rejeitada esta lei, Berlusconi voltou ao ataque com uma lei apresentada pelo seu braço direito no Ministério da Justiça, o advogado siciliano Angelino Alfano, suspendendo os processos levantados a quatro dos ministros anteriores.
(continua)
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