SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – O DESASTRE ITALIANO , por PERRY ANDERSON

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O Desastre Italiano

mapa itália

Perry Anderson, The Italian Disaster*,

London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014

 Parte III

(continuação)

Neste cenário, um país é amplamente visto como o caso mais  agudo de  todos os casos de disfuncionamento na Europa.  Desde a introdução da moeda única, a Itália  apresentou  o pior recorde económico de qualquer Estado-membro  da União: vinte anos praticamente ininterruptos de estagnação com uma taxa de crescimento bem abaixo da verificada na Grécia ou em Espanha. A sua dívida pública  é hoje de  mais de 130 por cento do PIB. Ainda por cima  não é um pequeno país nem sequer um país médio  no conjunto dos países desde há  pouco tempo considerados dserem  a periferia   da União. É um país  membro fundador dos seis, com uma população comparável  à da Grã-Bretanha e uma economia tão grande novamente como a de Espanha. Depois da Alemanha, a sua indústria transformadora  é a segunda  maior na Europa, onde é igualmente posicionada quanto á exportação de bens de capital. As suas emissões de dívida pública  via Tesouro representam  o terceiro maior mercado de títulos soberano no mundo. Quase metade da sua dívida pública é vendida no  exterior: os dados  similares   do  Japão estão  abaixo dos 10 por cento.  Combinando importância e fragilidade, a Itália é verdadeiramente  o elo mais fraco  na UE, um elo  que  teoricamente poderá quebrar.

Assim , é agora também , não por mero acaso, o único país onde a desilusão com o  esvaziamento das formas democráticas, não gerou uma adormecida indiferença mas antes uma revolta activa que abalou as suas estruturas políticas desde a sua base ao topo do poder, transformando a paisagem política. Os movimentos de protesto de um ou outro  tipo  surgiram  noutros Estados da União, mas até agora nenhum deles se  aproxima  à  novidade ou ao sucesso do Movimento 5 Estrelas  na Itália como uma rebelião travada nas urnas. Assim também, por sua vez, a Itália oferece o espectáculo mais familiar de todos os  teatros sobre a corrupção do continente e a sua mais celebrada materialização é o multimilionário que tem governado o país durante  quase metade da vida da Segunda República, sobre quem mais palavras tem sido escritas  do que sobre todos os seus concorrentes em conjunto. As reflexões sobre a situação  que a Itália atingiu começam  inevitavelmente por falar de  Silvio Berlusconi. Que ele se distingue e destaca bem entre todos os seus pares no que respeita às relações entre o dinheiro e o poder é inquestionável. Mas a forma como o tem feito  pode ser obscurecida pelo empenho  da imprensa estrangeira em criticá-lo, com  estrondosas  denúncias feitas sobretudo pela revista  The  Economist e pelo  Financial Times.

Duas coisas fizeram de Berlusconi um caso à parte. A primeira é que ele inverteu o caminho típico a partir do poder , tendo   lucrado  e acumulado  uma fortuna antes de alcançar o poder. Berlusconi  serviu-se então  não tanto para aumentar a sua fortuna mas sim para a  proteger e para se proteger a si-mesmo  das acusações penais múltiplas  sobre os meios de que se serviu para a adquirir .

A segunda é que a principal, embora longe de ser única, fonte da sua riqueza é uma televisão e um Império publicitário  que lhe possibilitou  um aparato de poder independente do poder governamental  e que, uma vez que ele entrou na arena eleitoral,  pode  ser convertido numa verdadeira e poderosa  máquina de propaganda e um instrumento do governo. As ligações  políticas – laços com o Partido Socialista, em Milão e com o seu chefe Craxi – foram cruciais para a sua ascensão económica e em particular para a construção de uma rede nacional para os  seus canais de televisão. Mas enquanto ele desenvolveu consideráveis meandros do poder, essencialmente, ao nível da  comunicação e da sua própria capacidade de  manobra, como político, a visão que dele queria dar era primeiro e sobretudo a de  um empresário, para quem poder significava segurança e glamour, mais do que  uma acção governamental ou um  projecto. Embora ele tenha expressado a sua admiração por Thatcher e assumindo-se como um campeão do mercado e da liberdade económica, o imobilismo das  suas coligações de centro-direita nunca diferiram  grandemente das coligações de centro-esquerda do mesmo período.

Esta é a principal  queixa  que contra ele e  na opinião neoliberal  dos anglo-saxónicos  pode ser vista a partir do  seu tratamento que esta imprensa faz dos dois emblemas simétricos da corrupção, a dos  chefes de Estado  a ocidente  e a dos chefes de Estado a leste da Itália. Durante anos, Erdoğan – um amigo próximo de Berlusconi – tem sido o destinatário de bajuladoras entrevistas, de perfis e de relatórios publicados pelo Financial Times e noutros media, apresentando-o como o arquitecto clarividente de uma nova democracia turca e como sendo igualmente uma ponte vital entre a Europa e Ásia, a ser bem vindo e com a rapidez possível à  União Europeia. Ao contrário de Berlusconi, no entanto, cuja regra é  anódina em matéria de liberdades civis, Erdoğan foi e é uma ameaça a estas liberdades. Ainda com  um boom a descolar na Turquia cheio de  privatizações,  há a assinalar a  prisão dos  jornalistas, a morte  de manifestantes, a truncagem   de processos jurídicos, a intimidação brutal da oposição – para não falar de peculato e por grosso – o seu regime conta  por pouco. Mesmo quando a extensão de sua selvageria e corrupção já não pode ser ignorada, os detalhes dos escândalos em que se envolveu foram mantidos geralmente a um mínimo  e a culpa é rapidamente deslocada para a  UE por ter falhado em estender-lhe  uma mão redentora e com suficiente rapidez .  Depois das gravações de Erdoğan, the Frankfurter Allgemeine observou que, em qualquer democracia e qualquer que ela seja, desde que que funcione normalmente, haveria provas suficientes dez vezes mais que o suficiente para obrigar o governo e Eerdogan a cairem. Nem um sussurro sequer  disto é alguma vez referido no Financial Times.  Muito do mesmo tipo de comentário  poderia ser feita sobre  Rajoy e seus parceiros  em Espanha, onde a arma do crime é mais evidente do que no  labirinto das vigarices de  Berlusconi. Mas Rajoy, ao contrário de Berlusconi, é um confiável servidor do regime neoliberal: nenhuma suplemento especial em The Economist  para vender ao grande público as suas ideias neoliberais a este respeito, tendo o cuidado de dizer o mínimo possível sobre Rajoy, tal como  o fazem  Bruxelas e Berlim. Os lideres europeus e os seus altos funcionários têm estado  extraordinariamente silenciosos sobre o escândalo, dado a importância da Espanha para a zona euro,’ comenta Gavin Hewitt, editor de Europa da BBC. « A Chanceler alemã Angela Merkel e outros tem colocado muita fé no primeiro-ministro  Rajoy, que é considerado  como um seguro par de mãos para aplicar as reformas dolorosas que visam revitalizar a economia da Espanha.» Berlusconi pagaria pela  falta de uma  tal confiança.

Na hora do triunfo de Berlusconi na Primavera de 2008, quando ele venceu a  sua terceira e mais decisiva vitória eleitoral, as opiniões muito pobres que a seu respeito  circulavam no exterior eram-lhe pouco importantes. A coligação de  centro-direita que tinha organizado e reorganizada desde 1994 –  agora composta pelo  Povo da Liberdade- uma fusão do seu anterior partido  com o de seu aliado de longa data, o antiga fascista, Gianfranco Fini, mais a Liga do Norte de Umberto Bossi, que manteve separada a sua base e a sua identidade –  obteve uma maioria absoluta  nas duas Câmaras no  Parlamento.  Nos seus  primeiros meses de governo  foi dado um passo ao longo das linhas de trabalho de Thatcher/Blair, a primeira fase  de um conjunto de mudanças, começando com as escolas primárias e terminando nas universidades,  em que cortou nas  despesas do sistema de ensino em cerca de  8 mil milhões,   em nome dos interesses da economia e da concorrência: reduzindo o  número de professores, imposição de contratos a curto prazo, impondo a formação de novas administrações empresariais, quantificando e medindo as avaliações na investigação.  Mas isso foi a extensão do zelo reformista do governo. O máximo  na sua agenda política constituía a  legislação ad personam para proteger o próprio Berlusconi das acusações de comportamentos passiveis de serem tomados como crimes em processos  pendentes contra ele – muitos tinham sido anulados pelos  estatutos da imunidade, outros pela sua própria descriminalização devido a legislação por  ele publicada. Em 2003, o seu governo aprovou  uma lei em que concedia  imunidade face à lei a cinco gabinetes ministeriais;   rejeitada esta lei,  Berlusconi  voltou ao ataque com uma lei apresentada pelo  seu braço direito no Ministério da Justiça, o advogado siciliano Angelino Alfano, suspendendo os processos levantados a quatro dos ministros anteriores.

(continua)

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*Ver o original em:

http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster

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