SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA ITÁLIA, FALEMOS ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – O DESASTRE ITALIANO , por PERRY ANDERSON

 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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O Desastre Italiano

mapa itália

Perry Anderson, The Italian Disaster*,

London Review of Books, Volume 36, Nº 10, 22 de Maio de 2014

 Parte VI

(continuação)

Este foi, no entanto, o último favor que Napolitano concederia. Ele estava  a  preparar-se  para tomar o assunto nas  suas próprias mãos. Na Primavera de 2011, o governo anunciou que não se estava a juntar ao ataque americano sobre a Líbia, ao qual a Liga do Norte se tinha categoricamente afirmado contra,  ameaçando derrubá-lo se o fizesse. Napolitano sabia melhor: as expectativas sobre Washington eram mais importantes do que as subtilezas da Constituição. Sem qualquer votação no Parlamento, ou mesmo sem nenhum  debate sobre o assunto, lançou a  Itália na guerra tendo obtido  o apoio dos  ex-comunistas para o envio de uma  expedição da sua força aérea para bombardear um vizinho com o qual  tinha assinado um Tratado de Amizade, Cooperação e Aliança Militar, ratificada por uma maioria esmagadora na Câmara – incluindo os ex-comunistas – apenas dois anos antes.

No Verão, encorajado pelo aumento da bajulação sobre si-mesmo nos media como sendo a rocha onde se apoia  a  República e com o apoio  de Berlim, Bruxelas e Frankfurt, Napolitano decidiu então correr com  Berlusconi. A chave para o fazer e sem  problemas foi encontrar um substituto que fosse aceite pelos parceiros citados  e o mundo dos negócios de  Itália. Felizmente, a figura ideal para todos eles estava ali mesmo à mão  : Mario Monti, ex-comissário da UE, membro do Grupo Bilderberg e da Comissão Trilateral, um assessor de  Goldman Sachs e agora presidente da Universidade Bocconi. Monti estava ansioso desde há  algum tempo pela situação que se acabava   de lhe ser apresentada . ‘O governo italiano pode tomar decisões difíceis “,  confidenciou a The Economist em 2005,” se estiverem reunidas duas condições: deve   haver  uma clara situação de  emergência e uma forte pressão do exterior “Na época, lamentou ele ,” um tal momento de verdade está a faltar. ” Esse momento chegou.

Logo em Junho ou Julho, em completo sigilo, Napolitano preparou  Monti para assumir o governo. No mesmo período, encomendou à direcção do  maior grupo bancário do Itália, Corrado Passera, a elaboração de um plano económico  confidencial para o país. Passera foi um ex-assessor de Berlusconi, um  arqui-inimigo político e rival de negócios de  Carlo De Benedetti, proprietário do La Repubblica e L’Espresso, que estava a par dos movimentos de  Napolitano. Em itálico urgente, o documento de 196 páginas de Passera propôs uma terapia de choque: € 100 mil milhões como sendo o valor  das privatizações a alcançar, impostos sobre a habitação, impostos,  sobre o  capital, um aumento do IVA. Napolitano, telefonou a Merkel e, sem dúvida, a Draghi, tinha agora o homem e o plano para colocar  Berlusconi na rua. Monti nunca tinha sido proposto em nenhuma eleição,  e embora um lugar  no Parlamento não fosse necessário  para a investidura  como primeiro-ministro, ter um assento poderia ajudá-lo.

Não havia tempo a perder: em 9 de Novembro, abandona  Bocconi, e Napolitano nomeia  Monti como senador vitalício, com  o aplauso da imprensa do  mundo financeiro. Sob a ameaça de destruição pelos mercados obrigacionistas se resistisse,  Berlusconi capitulou e no espaço de uma semana  Monti foi empossado como o novo governante do país, à frente de um gabinete não eleito composto por  banqueiros, empresários e tecnocratas. A operação que tinha sido realizada   é bem uma ilustração expressiva do que os  procedimentos ditos “democráticos”  e do  Estado de direito podem significar na Europa de hoje. Isto foi  totalmente inconstitucional. O presidente italiano é suposto   ser o guardião imparcial de uma ordem parlamentar, que não interfere com as suas decisões de a salvar quando se está perante uma  violação da constituição – situação em que ele claramente  falhou. Ele não tem poderes para conspirar, por detrás  das costas de um primeiro-ministro eleito, com indivíduos da  sua escolha, nem mesmo no Parlamento, para formar um governo a seu gosto. A corrupção dos negócios, a burocracia e a política na Itália é agora  agravada pela corrupção da Constituição.

No momento, o que  se terá passado  nesse  Verão  por debaixo da protecção  presidencial permaneceu  no segredo dos Deuses. Isto veio somente à luz do dia este ano e  pela boca do próprio Mario Monti, um naif em tais assuntos, com os desmentidos agressivos  de Napolitano.4 Entretanto, a reacção do estalishment  para com o novo governo variou entre o alívio e a euforia. Aqui, finalmente – na opinião generalizada de comentadores nacionais e estrangeiros  – foi uma segunda chance para a Itália virar a página que teria  sido perdida depois da  queda da primeira República. Finalmente, um governo honesto e competente  está ao leme do país,  não apenas empenhado em sérias reformas do muito do que está errado na  Itália – rigidez dos mercados de trabalho, pensões exorbitantes, nepotismo das Universidades , restrições corporativas sobre os serviços, a falta de concorrência industrial, insuficiente privatização de empresas e serviços, um bloqueio da justiça, a  evasão fiscal – mas capaz de dominar as tempestades financeiras que  agora nos estão a atingir. Uma nova segunda República, o que é importante,  poderia agora surgir depois de vinte anos de andarmos a assistir a um baile de máscaras. Profundos cortes nas despesas públicas, duras medidas fiscais e o início de mudanças na legislação laboral desastrosa da década de 1970 seriam as primeiras  etapas bem-vindas para restaurar a confiança no país.

Visto de outro ângulo, havia de facto semelhanças entre a conjuntura do início dos anos 1990, quando Ciampi, então governador do Banco de Itália, foi convocado para ser o  forte primeiro-ministro no auge da crise Tangentopoli. Mas estas semelhanças  não são  tranquilizadoras. A administração Monti assemelhava-se na  composição e na intenção à de Ciampi. Mas muito tinha mudado neste intervalo de tempo,  sobretudo  sobre o meio de  que as novas figuras eminentes da nova ordem – Monti e o seu fiador em Frankfurt, Draghi – vieram, [ou seja, vieram  de Goldman Sachs].  Em 1994, Berlusconi apresentou-se  como um inovador  vindo de uma base empresarial  cuja vitória poderia levar a que fosse  enterrada a corrupção e  a desordem da classe política da Primeira República, quando na realidade ele devia a sua fortuna esmagadoramente a isso mesmo. Em 2011, a crise que aflige Itália e a zona euro tinha sido desencadeada por uma enorme onda de especulação financeira e pela   manipulação sobre os mercados de derivados nos dois lados do Atlântico. Não há nenhum  operador que tenha sido tão notoriamente importante nessa deriva financeira como  a  própria empresa em cujo folha de pagamento  tinham figurado ambos,  Monti e Draghi. Goldman Sachs, claramente merecedor do alcunha que lhe foi dado além-Atlântico  “de lula-vampiro ‘, tinha organizado  a falsificação das contas públicas gregas, e foi acusado de fraude pela Securities and Exchange Commission,  pagando meio milhar de milhões  para resolver o caso fora dos tribunais. Esperar  por  uma ruptura com o passado nos  seus  funcionários  teria sido apenas um pouco mais realista  do que acreditar que o patrocínio de Craxi não iria deixar nenhuma marca em  Berlusconi.

Outras lembranças  do passado não terão sido menos impressionante. No Verão de 2012, verificou-se que Napolitano  interveio  para bloquear um possível  interrogatório de Nicola Mancino, Ministro democrata cristão do interior em 1992, quando o magistrado Palermo Paolo Borsellino foi assassinado pela máfia. Mancino foi um dos quatro ministros do interior – Scalfaro tinha sido um outro – a receber mensalmente  dinheiro enlameado dado pelos   serviços secretos, SISDE. Mancino negou que tinha recentemente encontrado  Borsellino, um  pouco antes da  sua morte, apesar de evidências em contrário, negação esta que nunca tinha sido esclarecida. Um  novo inquérito oficial sobre as ligações entre o Estado e a máfia estava em andamento em que Mancino estava sob a ameaça de ser  confrontado  com dois outros Ministros do período em que assenta a sua mentira . Em grande agitação, ele telefonou para o Quirinale e suplicou ao braço direito de  Napolitano em assuntos jurídicos, Loris D’Ambrosio, a sua  protecção. Longe de ser rejeitada, foi-lhe dito  que o presidente estava muito preocupado com o assunto. Em tempo útil,  Napolitano telefonou a  Mancino, sem saber que o seu telefone estava sob escuta  como parte da investigação.

Quando as transcrições dos telefonemas  entre Mancino e D’Ambrosio foram publicadas na imprensa, juntamente com a notícia de que as fitas da conversa do próprio  Presidente com Mancino estavam na posse do juiz de instrução, Napolitano invocou a  total imunidade para o seu gabinete  e, ao estilo de Nixon, exigia que as fitas fossem  destruídas. O irmão do Borsellino Salvatore  apelou ao seu impeachment; uma vez que estava em causa  uma obstrução à  Justiça, nos Estados Unidos teria havido motivos para isso. Na Itália, esse resultado era impensável. A classe política e os media  cerraram  fileiras imediatamente em torno do Presidente, como haviam feito quando Scalfaro utilizou o seu mordomo para abafar o escândalo do SISDE. O assessor de Napolitano, o Ehrlichman do caso, morreu vítima de  um ataque cardíaco na altura do escândalo. Como tantas outras vezes, Marco Travaglio, indiscutivelmente um dos maiores  jornalistas  da Europa, foi o único a ligar os factos pelos  nomes; no  seu livro Viva il Re!, publicado   no ano passado, em que  elaborou um extenso registo acusatório  do registo de Napolitano no poder,  através de seiscentas páginas de documentação  altamente condenatória. Noutros  lugares, em face do perigo de sua posição, o coro de bajulação em torno do Presidente – cujo volume tinha desde há algum tempo aumentado – atingiu um crescendo quase histérico

Enquanto isso, Monti – saudado com entusiasmo desde o início, o Financial Times até o apelidou  de  ‘Super Mario’ – estava a mostrar ser  uma decepção. Instalado no poder com o consentimento relutante do centro-direita e igualmente do centro-esquerda , o seu espaço de iniciativa  era limitado, dado  que  nenhum bloco explicitamente o apoiava  e a base de cada um deles estava inquieta com a solução encontrada- a nomeação de Monti.  Mas logo ficou claro que os remédios aplicados  não trariam nenhuma retoma económica. Sob o que um crítico italiano teria apelidado de regime  ‘austeritariano’: tratava-se de  uma combinação de impostos mais altos de Monti e de um mais baixo valor da despesa pública para poder  reduzir o défice e reduzir drasticamente os spreads entre a dívida pública alemã e italiana,  mas o que daqui resultou foi a  intensificação da  recessão. O consumo caiu, o desemprego da juventude  aumentou. As reformas estruturais, como a Comissão Europeia e BCE as entendem foram  um fiasco total. Em 2012, o PIB diminuiu  em 2.4 por cento. Politicamente, havia pouco a ganhar ao continuar a sustentar o que se tinha tornado um governo completamente impopular. No final do ano o centro-direita retirou o apoio   e Napolitano foi relutantemente forçado a dissolver o Parlamento, mantendo Monti  em funções  de gestão  até que as eleições foram realizadas.

(continua)

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*Ver o original em:

http://www.lrb.co.uk/v36/n10/perry-anderson/the-italian-disaster

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