SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS – DA FRANÇA, FALEMOS ENTÃO DA POLÍTICA DE HOLLANDE. – CRISE: O ESTADO VENDE AS JÓIAS DA FAMÍLIA, de CORALIE DELAUME

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 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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12. Crise: o Estado vende as jóias da família 

Leopardo - XXVI

Crise: o Estado vende as jóias da família

 Coralie Delaume,  Crise: l’Etat vend les bijoux de famille

Blogue L’Arène Nue, 12 de Maio de 2013

Leopardo - XXV

Não há pequenos ganhos, sobretudo quando se trata de alcançar objectivos muito pequenos.

Assim, para quem não tem outra intenção que não seja a de “reduzir os défices” e “atingir o equilíbrio”, para quem sonha comparecer perante o tribunal da história, adornado com o glorioso título de “bom gestor da coisa pública”, que considera que a ‘boa governança’ tem direito de Majestade, não há que ter nenhuma hesitação. É preciso vender tudo.

Vender-se-á tudo o que pode ser vendido . Tudo o que tem o mau gosto de ter um interesse para além do seu estrito valor de uso. O que é bonito, o que é elegante, o que é delicado não tem agora pertencia nenhum lugar que não seja o de Mont de Piété, o da casa de penhores. É o “realismo económico” que o exige.

É, portanto, ao “realismo económico” que se deve esta bela ideia: no final de Abril, fomos todos informados de que ia ser colocado em venda pelo Palácio do Eliseu, uma parte da sua adega. E é a AFP que nos vem dizer: “algumas garrafas, cerca de mil e duzentas garrafas serão leiloadas (…)”. garrafas de Petrus 1990 estimadas em dois mil e duzentos euros cada, mas também vinhos mais modestos de 15 euros serão incluídos no lote”.

Eis pois a solução para a restauração das contas públicas do Estado francês: vender garrafas de vinho a 15 euros cada. Bem, de repente, questionamo-nos sobre a razão que leva a que estas garrafas tenham que ser vendidas “no hotel Drouot, em Paris”. Vai levar tempo e vai provocar uma grande agitação, saber a resposta. Sem dúvida uma venda on-line e em Leboncoin.fr chegaria. Teria sido “mais eficiente”, como diz os RGPPistes de serviço.

Mas isso não é tudo. Escutando apenas a sua fria razão de “mandarins da sociedade burguesa” (Jacques Mandrin), os enarcas do Tribunal de contas tiveram uma ideia ainda bem melhor: empobrecer fortemente a guarda republicana.

Luta sem tréguas contra o desperdício! Os membros da venerável instituição decidiram finalmente enfrentar o cerne do problema francês: a protecção dos palácios nacionais e cerca de 280 milhões de euros que isso representa. Uau, que susto! Se relacionamos isto com os cerca de 375 mil milhões de euros que o estado planeia gastar em 2013, compreende-se imediatamente o âmbito histórico da questão.

E seguidamente, a Guarda republicana, é um corpo militar que não serve para nada. Isto responde apenas “a objectivos de prestígio”. É dizer se é has been. De resto, sobre este criteriosa e justa ideia, que se poderia aproveitar para estabelecer um preço por grosso sobre o Palais Bourbon e sobre o do Luxemburgo, e para enviar os nossos eleitos anacrónicos sentarem-se num pré-fabricado construído para esse fim nas margens da porta Pantin?

De maneira premonitória, Régis Debray alarmava-se, há já algum tempo, do perigo que corria a Guarda republicana, este “nó estratégico para a salvaguarda do impalpável face ao utilitário”, esta “última trincheira em face das lógicas das empresas”. Seguidamente acrescentava: “o dinheiro não tem necessidade de nenhum sabre à claridade, a política, essa sim. Uma estética é-lhe indispensável”.

A política? Que horror! Esta gera paixões, e às vezes mesmo, faz mortes.

A política: aí está por conseguinte aqueles que tentam, basicamente, despedir os pequenos telegrafistas numa atitude de zelo “da boa governança”. Atacando-se com cuidado a tudo o que possa conter um pouco de alma, a tudo o que tenha, mesmo que ligeiramente, um pouco de sabor, a tudo o que tenha a ver com a elegância – julgada obsoleta – e do penacho – tudo isto está fora de qualquer interesse. Porque esperam que ocorra cedo este fim da História onde, por último, verão reconhecidos pelo seu justo valor, quer a sua racionalidade contabilística quer as suas aptidões de vendedores de quiosques, estas duas faculdades próprias das mentalidades mesquinhas, de gente cheia de podres, de gente sem coração.

L’arène nue, Le blog de Coralie Delaume, Crise: l’Etat vend les bijoux de famille.

Texto disponível em :

http://l-arene-nue.blogspot.pt/2013/05/crise-letat-vend-les-bijoux-de-famille.html

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