A GALIZA COMO TAREFA – À força de navegar – por Ernesto V. Sousa

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O mundo, fomos sabendo a força de navegar, não termina no horizonte que enxergamos. Dá a volta e continua até o dia a seguir. E deste jeito constante, rotando sobre ele como pião, vai, aos poucos e com algum sobressalto, transladando os meses e os anos ao calendário.

As cousas mudam constante e imparavelmente, por vezes é evidente, mas outras acontece de jeito imperceptível e com tanto dissimulo que só com o concurso do tempo é que podemos, os humanos, adverti-lo.

bluteauA Galiza, a começos do século XIX – que em termos do tempo galego é dizer apenas ontem – aparecia ainda como a descrevera Bluteau um século antes no seu Vocabulario portuguez & latino: “Antigamente reino e hoje província da Espanha…”.

Apenas duas décadas depois, por obra da organização e definição do Reino da Espanha à moda centralista e jacobina de Paris, passava a perder um rico fragmento a Leste e a ser dividida em quatro províncias administrativas, para espanto dos ilustres patriotas que defendiam a unidade intrínseca da Província galega.

Passou o século e muita cousa, fomos, até os historiadores, esquecendo o Iberismo, reapareceu com pouca ajuda a literatura galega à par da Medieval, chegou a II República, debateu-se sobre os federalismos e formulou-se a questão autonómica para as antigas nacionalidades da Catalunha, Euzkadi e Galiza; depois de Golpe do Estado, guerra e genocídio, a Ditadura recuperou as regiões nominalmente e consagrou administrativamente as províncias. Porém, a meados dos anos 70 chegou a Democracia e o estado organizou-se outra volta, mas inteiro, num modelo de regiões e territórios autónomos.

Três séculos depois de Bluteau, é dizer no tempo em que nós andamos, a Galiza, após a articulação do estado espanhol como Monarquia Constitucional acontecida depois da morte do Ditador Franco e da transição à Democracia, é um Território autónomo do Reino da Espanha, com um parlamento próprio e um elevado número de competências (em sanidade, educação, economia, comunicações, administração) cedidas pelo Estado.

Ainda a má planificação, a exploração e a destruição constante da paisagem, do património e das suas riquezas naturais continua a ser um conjunto atlântico de ricas rias com bons portos e de viçosos vales que se sucedem em comarcas agrícolas, gandeiras e florestais, de grande potencialidade.

A Galiza já foi Reino na Europa quando os mais dos povos e tribos, as colónias e as velhas províncias ainda contemplavam o fim do Império Romano; foi ponto nas belas e decoradas cartografias medievais; e por simplificar a sua complexidade o Partido Galeguista, o Partido Nacional galego nos anos 30 do passado século, definiu-a como Célula de universalidade.

A Galiza é um mundo, dizia o genial Vicente Risco, e Ramon Otero Pedrayo, que se conservava moça e com todas as potências, no seu pacto com a morte. Há muitas Galizas, talvez tantas como galegos e galegas, não poucas delas emigrantes e mais ideias da Galiza. Tratar de defini-la é por tanto e simplesmente manifestarmos os sonhos, as aspirações, os preconceitos, as crenças e ideias que nós temos dela ou para ela.
Por isso eu, mais que arriscar-me a defini-la ou caracterizá-la como algo que é, prefiro plagiar do Valentim Paz-Andrade, a ideia com que intitulou um dos seus livros programa e projeto: a Galiza como tarefa. A nossa tarefa.

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