DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – DOSSIER- DECRESCIMENTO – CRESCIMENTO, O PARADIGMA PERDIDO – por GIL MIHAELY

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Selecção, tradução e notas por Júlio Marques Mota

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DOSSIER- DECRESCIMENTO

2. Crescimento, o paradigma perdido

 

GIL MIHAELY, CROISSANCE, LE PARADIGME PERDU

Causeur nº 17, Outubro de 2014

 Parte II

(conclusão)

É a bomba humana um perfeito flop, um perfeito falhanço?

Lorenzi, que também é presidente do Cercle des Economistes (qualificados de economistas oficiais pelas correntes críticas[1]), está convencido de que o sistema tem os meios para se sair da crise actual: “a situação é grave, diz-nos, mas o mundo não entrará em colapso“. O título do seu mais recente livro (escrito com Mickaël Benson), Un monde de violences, 2015-2030 não é, no entanto, uma louca ingenuidade. Ele diz estar convencido de que se irão encontrar novos motores de um crescimento sustentável, ao mesmo tempo que se encontrará a forma de aliviar as tensões que caracterizam o período actual – tais como o desemprego ou a escassez de certos recursos. «Além disso, recorda, vivemos uma nova revolução de população: em 1980, os demógrafos previram que a Terra teria 30 mil milhões de pessoas em 2050, enquanto, de acordo com as previsões mais recentes, nós só seremos 9,5 mil milhões.» Nem mesmo 10 mil milhões… Excelente notícia, claro, embora não se saiba como se irão alimentar todas aquelas bocas.

Jean-Hervé Lorenzi também convida os seus colegas a serem cautelosos nas suas previsões, porque “os economistas nunca foram confrontados com tantas e grandes incertezas como agora”. Autor de Comment la mondialisation a tué l’écologie (2012), Aurélien Bernier não o contradiz sobre este ponto.

Sem surpresa, este antigo militante de Attac não acredita que o capitalismo seja o único e inegável horizonte da humanidade. Com um pouco de atraso sobre as previsões de Marx e dos seus múltiplos discípulos, Aurelien Bernier pensa que as contradições inerentes ao capitalismo estão em vias de acabarem. De acordo com este marxista do decrescimento, o que altera radicalmente os dados da situação é a dupla questão da dependência para com a energia fóssil e o ambiente. Bernier refere que há cada vez mais pobres, que não deixam de continuarem a empobrecerem-se e que, simetricamente, há cada vez menos ricos e que, em contrapartida, não deixam de continuar a enriquecerem‑se. Supondo que esta concentração da riqueza seja uma realidade (o debate sobre o livro de Thomas Piketty mostra que este diagnóstico não é unanimemente partilhado), Bernier reconhece que, contrariamente às previsões de Marx, ela não – ainda não? – levou o capitalismo ao seu fim. Em contrapartida, e ainda de acordo com Bernier, o capitalismo não tem nenhuma possibilidade de escapar ao perigo mortal da degradação do ambiente. A sua lógica profunda, na qual os interesses privados – “as águas enlameadas do cálculo egoísta”… – levam a melhor sobre o interesse geral, levá-lo-á à sua perda. Nos anos 1920, os principais fabricantes de lâmpadas tinham-se colocado de acordo para reduzir a duração de vida dos seus produtos de forma a poder vender mais: inventaram a obsolescência programada! Quase um século mais tarde, 60% das mercadorias consumidas aos Estados Unidos são produzidos na China por multinacionais americanas deslocalizadas. Retarda-se a poluição no Ocidente, mas à escala do planeta o seu aumento é dramático! Em suma, deslocou-se o problema. Ora, há-de chegar um momento onde não se possa mais deslocalizá-lo porque todo o planeta terá sido arrasado pela indústria.

Mais radical ainda, de certa forma, Gaël Giraud, matemático, economista e membro da Companhia de Jesus, contesta a base materialista destas análises com uma questão tão aparentemente simples como aquela que foi colocada muito antes pelo abade Syèves: o que é o crescimento? Para ele, o PIB (produto interno bruto), que permite medi-lo, é um muito mau índice. Desenvolvido na década de 1930 – graças a um importante contributo francês – este indicador foi então projectado para medir a capacidade das Nações – especialmente da Alemanha – para fazer a guerra. É por esta razão que não inclui o trabalho doméstico das mulheres: este não permite fazer a guerra (embora nós possamos discutir isto !). Além disso, o PIB ignora as perturbações e os desastres ambientais. Se alguém polui um rio, poder-se-á aumentar duas vezes o PIB: primeiramente ao colocar os rios em mau estado, o que aumenta a actividade no sector da saúde, depois, através do financiamento dos trabalhos de despoluição. Em vez deste instrumento de medida bem ultrapassado, Giraud propõe medir a qualidade do vínculo social, que é, segundo ele, um bem melhor indicador de desenvolvimento e da prosperidade. Como o diz o popular ditado, “o dinheiro não faz a felicidade”. Sem dúvida, mas isso não impede que a maioria dos seres humanos queiram ter sempre e sempre mais dinheiro. O trabalho de Giraud infelizmente não é de uma grande ajuda para entender e talvez combater este universal antropológico.

Entretanto, se as nossas cidades não foram invadidas pelo esterco no início do século XX, quem é que nos diz que não teremos todos nós piscinas no final do dia 21? Sem negar as qualidades científicas do trabalho desses estimáveis investigadores, a resposta a esta pergunta baseia-se, em última instância, num núcleo duro inextrincável – logo, sobre um acto de fé. Há, de facto, uma incógnita que, até então, nunca deu razão a Malthus. Para sair de uma situação inextrincável, o teatro italiano do renascimento inventou o deus ex-machina. Durante três séculos, no Ocidente, a função do deus ex-machina é atribuída à inovação tecnológica. Da máquina a motor ao telefone inteligente (mais que nós?), passando pelo motor de combustão, pelas ciências da computação e do nuclear, múltiplas invenções permitiram ao homem libertar-se de muitos dos constrangimentos que o cercavam.

Considerando-se que é a inovação que torna o crescimento possível, permanece sem resposta uma questão de primordial importância que divide os investigadores: resulta ela, a inovação, do azar ou da necessidade? Pode-se provocá-la ou basta apenas invocá-la? Para Jean-Hervé Lorenzi, não há nenhum mistério: a inovação é uma questão de dinheiro. Investe-se, ganha-se. Se, hoje, “apesar das aparências, a inovação está em baixa”, é devido à falta de financiamento, ele mesmo sendo imputável ao envelhecimento das nossas sociedades. “Temos cada vez mais “rentiers” e cada vez menos investidores, prossegue Lorenzi. Ora, o progresso técnico depende do investimento, ou seja da possibilidade de assumir riscos. Aos 50 ou 60 anos, um indivíduo procura proteger a poupança para assegurar a sua reforma e prefere a colocação das suas poupanças em aplicações pouco arriscadas. ” Para resolver este problema, é necessário formas inovadoras de financiamento que garantam o nível de vida dos reformados e que drenem ao mesmo tempo a sua poupança para os investimentos de elevado risco aptos a incentivar as rupturas tecnológicas portadoras de crescimento. Fácil de dizer, dir-se-ia. Salvo que, até agora, ninguém encontrou o meio de poder apostar a poupança de honestos reformados na roleta do progresso sem estar a arriscar ver transformarem-se estes mesmos meios de financiamento em fumo – ou antes em vapor na explosão de memoráveis “bolhas”.

Gaël Giraud é mais céptico: para o nosso jesuíta, a inovação depende do milagre. Não se sabe de onde é que vem. São os banqueiros que nos querem fazer adormecer, contando-nos que é suficiente injectar dinheiro na máquina para fabricar o progresso. E, depois, ao esvaziarem-se os oceanos dos seus peixes, ao levar a que as abelhas desapareçam, o facto de poder rolar 1000 quilómetros consumindo um copo de água será de uma fraca consolação. A imagem é talvez um pouco fácil. De qualquer modo, Giraud pensa que o peso da inovação no crescimento está largamente sobrestimado. A imagem é um pouco fácil. De qualquer modo, Giraud pensa que o peso da inovação no crescimento está largamente sobrestimado. É necessário, na sua opinião, inverter as proporções: dois terços do crescimento dependem da energia, e um terço apenas depende das inovações. Desde o século XVIII, a expansão económica assenta sobre a exploração crescente de energias fósseis. Ora, tratando-se do petróleo, antes mesmo do esgotamento das reservas, o consumo mundial aproxima da capacidade máxima de extracção: 90 milhões de barris por dia. O petróleo e o gás de xisto constituem o milagre energético que permitiria escapar à esta equação implacável? Hoje, não se aconselhará a ninguém que apostem a sua reforma sobre este tapete.

Realmente, não temos escolha: devemos aprender a viver num mundo com os recursos limitados. Que este diagnóstico tenha consenso para além das profundas divergências de análise, tudo isto mostra bem que estamos a entrar, no mínimo, numa nova idade do crescimento.

Neste ambiente próximo da ruptura, a alocação dos recursos raros será necessariamente mais autoritária, é por isso que deverá ser confiada exclusivamente aos actores públicos. Também se observa uma convergência política bastante surpreendente dos nossos três pensadores: as nossas instituições não estão à altura das escolhas com as quais nos confrontamos hoje. Como é que a democracia liberal aguentará ela o choque se a avaria do crescimento se continuar a manter por tempo indeterminado ou, pior ainda, se entrarmos num período de decrescimento que, além de múltiplas dificuldades, exigirá uma revisão radical dos nossos quadros de pensamento? Tranquilizemo-nos: nenhum dos nossos interlocutores propõe que se renuncie ao sufrágio universal e às nossas liberdades. Acontece porém que deveremos reinventar – e talvez aceitar –poderes fortes.

NO FUTURO, A AFECTAÇÃO DE RECURSOS RAROS SERÁ NECESSARIAMENTE MAIS AUTORITÁRIA, É POR ISSO QUE DEVERIA SER CONFIADA EXCLUSIVAMENTE AOS ACTORES PÚBLICOS.

O mercado dos trouxas do crescimento: já, no neolítico

Aurélien Bernier é – sem surpresa – o mais radical destes especialistas. Para ele, o sistema actual anda em círculo, porque o imperativo de rentabilidade proíbe a aplicação de qualquer solução – tecnológica ou política. O culpado, é o comércio livre, que põe em concorrência todas as economias do planeta e cria as condições de uma chantagem permanente à deslocalização. Cada vez que um governo tenta colocar constrangimentos sociais e ambientais, as empresas americanas e europeias ameaçam ir produzir – e contratar – noutros lugares. A única solução é por conseguinte nacionalizar as empresas e os bancos. Quando se lhe objecta que quem diz “nacionalização” diz “nação”, convém que a esquerda pague ao preço forte o seu erro de análise sobre o Estado-nação: não se pode lutar contra o sistema actual senão ao nível planetário, o que é hoje um puro fantasma, ou ao nível dos nossos velhos e queridos países. Se quisermos retomar os comandos políticos às forças económicas, é necessário sair da União europeia e impôr uma política proteccionista em fronteiras claramente definidas e reconhecidas – resumidamente, agir à escala da França.

Ao ouvi-lo, questionamo-nos sobre o que permanecerá das nossas liberdades individuais de povos ricos. Teremos nós a escolha entre o Sol verde e 1984? Bernier afirma: por pouco que se admita que a posse de um carro de grande cilindrada ou de um saco Louis Vuitton não faz parte dos direitos inalienáveis do homem, a política que ele ardorosamente defende é, assegura, perfeitamente democrática. É legítimo obrigar a indústria automóvel a reorientar-se para o transporte público, ou a explorar o “knowhow” excepcional da indústria do luxo para produzir bens úteis e duradouros destinados à todos e não somente aos mais ricos. Assim poder-se-á fazer a revolução ecológica e social num só um país – antes de a estender a toda a humanidade.

Para Gaël Giraud, a necessária mudança da situação política passa em primeiro lugar por uma conversão colectiva “à economia da circularidade”, que assenta sobre a reutilização da energia perdida no processo de produção. Os grandes produtores de gases de efeito de estufa, os transportadores aéreos, mas também os gigantescos data centers informáticos estão na origem de enormes perdas de calor. Cedo ou tarde, será necessário obrigar Google, Facebook e os outros a reciclar este calor e não será o mercado que o irá impor!

Giraud vai mais longe e preconiza uma ruptura quase antropológica que permita reconsiderar a propriedade fora do par binário “público-privado”, por exemplo, desenvolvendo os bens comuns para os quais não é a propriedade que importa mas sim o direito de utilização – é o modelo Vélib’. A acreditar em Giraud, o sucesso de empresas como BlaBlaCar mostra que muitos jovens estão prontos para esta revolução. É necessário então esperar que esta saiba aclimatizar a democracia liberal. Gaël Giraud quer acreditar nisso.

Jean-Hervé Lorenzi não acredita, por seu lado, que a saída possa vir das nacionalizações. O papel do Estado, lembra Lorenzi, é o de criar as condições para a inovação, assumindo então uma parte dos riscos. Para este efeito, é necessário pensar e impor um modo de regulação que volte a ligar o sector financeiro à economia real.

Esta rápida incursão na fábrica das ideias contemporâneas mostra que, enquanto os nossos governantes continuarem a recitar o mesmo cântico do crescimento, os intelectuais questionam a dimensão das mudanças atuais, na incapacidade de tornarem legível o mundo que aí vem. Não bastar deitar abaixo os ídolos de ontem para se fazer com que venham novos deuses.

Na sequência destas três conversas apaixonantes, à conclusão que se impõe é a de que não sabemos nada, ou pelo menos não sabemos muito, sobre o que nos acontece. As velhas cartas correspondem cada vez menos aos territórios que se estendem sob os nossos olhos, e os comandos já não respondem. O que fazer? Acreditar na voz reconfortante do piloto? Exigir uma mudança de direcção? Agarrar num pára-quedas e correr para a saída – mas onde é que ela está ? Em vez de responder a estas perguntas vertiginosas, gostaríamos de continuar a assistir ao desenrolar do filme até à aterragem.

Para concluir esta reflexão sobre o presente, temos de voltar ao momento em que colocámos o dedo nesta engrenagem do crescimento. A nossa espécie terá ela ultrapassado este marco decisivo há dez ou quinze mil anos, quando os nossos antepassados caçadores-coletores se tornaram agricultores?

O primeiro capítulo da Génese conserva talvez um eco remoto desse passado no qual os homens habituados a caçar e a colher frutos cultivados por Deus tiveram que se adaptar à penosa existência de lavradores e de pastores, marcada pela inveja e pela violência mortífera. De acordo com os arqueólogos, os nossos primeiros antepassados sedentários trabalhavam mais, sofriam de muitas mais patologias e usufruíam de um regime alimentar menos variado que os últimos caçadores-colectores sem, no entanto, beneficiarem de mais segurança face à violência e à fome. A razão é simples: a humanidade tinha caído na armadilha demográfica. O encadeamento é conhecido: o rendimento da agricultura melhora; muito rapidamente, um pequeno vale é capaz de acolher várias dezenas de caçadores-colectores que vêem a sua população aumentar, e as novas bocas a alimentar absorvem o excedente inicialmente criado, o que impõe um novo aumento da produção. É assim que, nesta corrida sem fim entre a população e os recursos, o homem se tornou escravo das técnicas que eram supostas estarem ao serviço da sua libertação, sem ter nunca a possibilidade de um voltar atrás – para reencontrar o equilíbrio perdido dos caçadores-colectores teria sido necessário matar nove em cada dez pessoas…

É esta passagem a uma economia de excedente (por conseguinte, ao próprio princípio do crescimento) que deu nascimento à política, ou seja ao conjunto de princípios, regras e usos que permitem fazer a gestão das comunidades humanas sedentárias cada vez mais complexas. Isso o significa que, longe de ser um dado técnico, o paradigma do crescimento impregna as nossas representações e os nossos modos de vida. Durante muito tempo pode-se acreditar, em todo caso no Ocidente pelo menos, que a abundância de recursos tenha libertado a humanidade do espectro da penúria e do imperativo da divisão. Mas hoje, não nos podemos mais subtrair às escolhas fundamentais. Apesar das nossas impressionantes capacidades, pela primeira vez da história, somos obrigados a responder à questão: “para onde queremos nós ir? [2]”.

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[1] Nota de Tradução: nas quais nos situamos face a este grupo de economistas.

[2] Nota de Tradução: Por ironia, para onde queres ir é a pergunta feita a Alice no país das maravilhas

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Para ler a Parte I deste trabalho de Gil Mihaely, publicada ontem em  A Viagem dos Argonautas, vá a:

DOS COMPROMISSOS DA ESQUERDA DE ONTEM AOS FALHANÇOS TRÁGICOS DA ESQUERDA DE HOJE: QUESTÕES À VOLTA DE UMA SÉRIE DE CAPITULAÇÕES. – DOSSIER- DECRESCIMENTO – CRESCIMENTO, O PARADIGMA PERDIDO – por GIL MIHAELY

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