CARTA DE LISBOA – O sapo barrosão – por Pedro Godinho

lisboa

Enrolado nas suas dobras, o nosso sapo pensou no seu futuro.

Já não estava propriamente a empubescer e começou a pensar que, afinal, talvez os ventos não soprassem do Leste que, até então, tanto venerara e ao qual se entregara de corpo e alma.

Estava na hora de crescer e ganhar juízo. Se assim pensou melhor o fez.

Afinal até os companheiros o viam como um homem de acção e as tarefas que lhe atribuíam eram as do combatente mais que as do ideólogo. Abandonou o nome de guerra e arrumou o livrinho vermelho que, esforçadamente, decorara e, sem hesitar, fez-se à, nova, vida.

Numa coisa ele era bom, o grau de dedicação com que se entregava, bastava concentrar essa energia na sua nova causa: ele próprio.

E assim começou a longa marcha para o poder.

Mudou de cores e de pele, ganhou novos aliados – amigos é diferente – e convergiu interesses com aqueles para quem podia ter utilidade e lhe poderiam vir, então ou mais tarde, a ser úteis.

Durão para quem não contava ou se lhe atravessasse no caminho, serventuário para os mais poderosos: bombas, chá, café e laranjada no atlântico.

Fez o que foi preciso para lá chegar, e chegou.

Aí, pareceu-lhe pouca compensação para tanto empenho e não deixou escapar a oportunidade. Abandonou o que fazia, tudo e todos, e partiu em busca de melhor sorte, lá fora – seguindo, afinal, a sina dos do seu país.

E conheceu as Europas, onde homme de ménage cuidou bem dos serviços encomendados über.

Passada a década, sai mais gordo e mais rico, mas continua o mesmo barrosão, sapo de charco.

 

 

 

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