Enrolado nas suas dobras, o nosso sapo pensou no seu futuro.
Já não estava propriamente a empubescer e começou a pensar que, afinal, talvez os ventos não soprassem do Leste que, até então, tanto venerara e ao qual se entregara de corpo e alma.
Estava na hora de crescer e ganhar juízo. Se assim pensou melhor o fez.
Afinal até os companheiros o viam como um homem de acção e as tarefas que lhe atribuíam eram as do combatente mais que as do ideólogo. Abandonou o nome de guerra e arrumou o livrinho vermelho que, esforçadamente, decorara e, sem hesitar, fez-se à, nova, vida.
Numa coisa ele era bom, o grau de dedicação com que se entregava, bastava concentrar essa energia na sua nova causa: ele próprio.
E assim começou a longa marcha para o poder.
Mudou de cores e de pele, ganhou novos aliados – amigos é diferente – e convergiu interesses com aqueles para quem podia ter utilidade e lhe poderiam vir, então ou mais tarde, a ser úteis.
Durão para quem não contava ou se lhe atravessasse no caminho, serventuário para os mais poderosos: bombas, chá, café e laranjada no atlântico.
Fez o que foi preciso para lá chegar, e chegou.
Aí, pareceu-lhe pouca compensação para tanto empenho e não deixou escapar a oportunidade. Abandonou o que fazia, tudo e todos, e partiu em busca de melhor sorte, lá fora – seguindo, afinal, a sina dos do seu país.
E conheceu as Europas, onde homme de ménage cuidou bem dos serviços encomendados über.
Passada a década, sai mais gordo e mais rico, mas continua o mesmo barrosão, sapo de charco.


Durão, um tigre de papel
http://aviagemdosargonautas.net/2014/10/24/carta-de-lisboa-por-pedro-godinho-2/