A GALIZA COMO TAREFA – Outonia – por Ernesto V. Sousa

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Chama a evocar o Outono, estendendo seu manto de castanhos, verdes e dourados, infinito de matizes e irisações, sobre as fragas e as abas dos outeiros. A Galiza é para caminhá-la, em camaradagem atenta, nesta época do ano.

A. D. R. Castelao: O Castinheiro do Val (ca. 1926)

Vai já passando a parte primeira, o ciclo da vindima à castanheira; e com ela, nos primeiros frios do serão e noite, prestam os brancos e tintos do ano que começam a ser trasfegados, enchendo as cuncas com os seus brilhos dourados e festeiros ou com as tintas escarlates e afrutadas convocadoras da conversa.

Por São Miguel, no equinócio invernal, os figos enchem a boca de saudades, o delicado e forte sabor dos cogumelos delicia os paladares; e o recendo variado das maçãs, na mesa ou como antigamente nas uchas e armários, entre as roupas brancas, enche as cozinhas.

Por Santos a castanha estoura nas lareiras e esparege no ar pelos montes e vales esse cheiro de bons madeiros queimados. Fumegam familiares as chaminés, declarando que por toda a parte há gente e hospitaleiras casas. Cairá logo o velho São Martinho, com a sua exaltação do porco e depois virá ainda, fechando as sementeiras, o céltico Santo André, que já anuncia nos caminhos o Natal.

Ainda regem, na Galiza, os velhos ciclos agrícolas do tempo. Um passado vivo, proeminente e ainda pleno de energias e futuro. É momento perfeito para ler ou reler os velhos livros queridos e sentar-se aos poucos a escrever. Misturam-se na mesa e nas prateleiras como fartura de frutos os livros portugueses, galegos, brasileiros, africanos. O computador manda eloquentemente e chama-nos a consciência de um presente afortunado.

O horizonte histórico, contemplado da janela e nas páginas dos pequenos livros retrocede e amplia-se. Ainda ultrapassa a Idade do Ferro e já anuncia no ecrã instigantes mundos novos.

 

* Para a Concha, Suso e a Nerea, como se estivesse a contemplar o Outono, desde a sua quinta aberta ao mundo.

1 Comment

  1. Obrigada, Ernesto, por este manto de palavras, por esta capa dourada que me protege de tantos invernos, que bom que teus olhos copiaram outonos com tanta poesia, que bom que tua alma, boa e generosa, continue sempre menina… Saudades de ti e das conversas aqui no Quintal, onde há um Milhadoiro novo de Pedras Velhas (as dos telhados) Protectoras e Sacras… Abraços por triplicado !!

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