Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
6. França: Porquê sacrificar –te na crise global?
Jean Claude Werrebrouck, Pourquoi te sacrifier dans la crise planétaire?,
Blogue La Crise des Années 2010, 28 de Agosto de 2014
Elie Cohen escreveu num artigo publicado a 27 de Agosto, publicado no Le Monde que estava contente de ver uma esquerda gastadora “depensophile” e ruinosa para a nossa competitividade, finalmente afastada. Obviamente não está aqui em questão querer contestar a realidade dos desperdícios na despesa pública claramente identificados e de que cada um de nós poderia estabelecer uma lista impressionante. O problema está contudo algures e devemo-nos explicar bem.
Competitividade ou produtividade?
Dando apenas uma atenção moderada ao facto de que a zona euro está actualmente em crescimento zero e num banho de quase estagflação, a grande imprensa internacional congratula-se com o sucesso crescente dos países do Sul da Europa que restabelecem, por vezes, de forma espectacular a sua balança externa e, assim, contribuem para o levantamento das dúvidas sobre a possível sustentabilidade do euro.
Toda a zona euro estaria no caminho para uma nova competitividade. No entanto, deve notar-se que esta nova competitividade não é a produtividade física do trabalho. Não são os investimentos de modernização, que em Espanha, na Itália ou noutros lugares ainda, eliminam os desequilíbrios externos ou relançam os excedentes. É exactamente o inverso – desvalorização interna e as reformas estruturais amplamente utilizadas – a compressão da procura interna, que é responsável por isso mesmo: o aumento do IVA e dos impostos em geral, a redução dos salários e a flexibilidade salarial, estagnação ou redução de benefícios sociais (pensões, assistência médica, etc.). Esta compressão desenvolve 2 efeitos: um menor valor nas importações mesmo sem redução da propensão a importar e um aumento nas exportações reflectindo a diminuição do custo do trabalho.
A coerência do Estado-nação: o salário é também uma componente do mercado
Na época do estado-nação, logo, antes da globalização tal como ela se manifesta, uma tal estratégia era dificilmente concebível tanto quanto o mercado interno constituía o essencial do escoamento da produção e isto para a maioria dos produtores. Havia mesmo um Estado‑Providência que vigiava pelo bom desenvolvimento do mercado interno e até mesmo quase que garantia os mercados. Desta forma, a busca de competitividade através de cada um dos produtores e em cada um dos países, passava por um desenvolvimento da produtividade física do trabalho, e esta decorria de massivos investimentos de modernização e de inovação.
E os ganhos de produtividade regularmente gerados eram partilhados entre os principais actores a fim de regularizar e de colocar a procura interna ao longo de uma tendência crescente: as empresas sob a forma de lucros adicionais, os assalariados a beneficiarem de aumentos de salários e o Estado cujo Tesouro estava directamente ligado ao crescimento, beneficiava , a taxas constantes, de um maná de receitas crescentes.
A parte mais importante da procura interna, correspondia à massa salarial global, como custo total do trabalho (encargos sociais incluídos). Assim, na época do Estado-nação, a massa salarial total, um verdadeiro custo de produção, era simetricamente um presente dos céus do lado de quem queria escoar a produção: um mercado e, portanto, um escoamento para a produção. Daí a Grande Distribuição na sua configuração nacional.
A globalização mal pensada: o salário não é mais do que um custo
Na época da globalização, o mercado interno é substituído pelo mercado global. A massa salarial como uma saída, como um poder de compra para os mercados, já não é uma variável determinante. Ao contrário, esta permanece um custo que é necessário comparar aos outros custos salariais, aos custos salariais nos países parceiros na globalização.
Na época da globalização, o binómio custo/escoamento dos mercados desaparece gradualmente. Ao mesmo tempo, os custos de oportunidade dos investimento de inovação e de modernização sobem em razão das taxas de salários muito baixos que se encontram naqueles que vão ser, depois, chamados os países emergentes: é melhor fabricar na China, em vez de embarcar na robotização.
A concorrência tornada mundial conduz, desta forma, gradualmente à ideia da produtividade pela única dimensão agora pensável, a da competitividade pelos custos. A escala planetária, a produção pode aumentar, mas a procura interna de cada nação devem ser comprimidas para se manterem à tona de água no oceano da concorrência.
A procura global, não pode crescer ao ritmo da oferta mundial e, portanto, entramos, desde o início da globalização, numa potencial crise de superprodução. Esta última não é imediatamente visível: os velhos Estados com menos receitas fiscais endividar-se-ão junto dos mais jovens, a viverem sob a lei de bronze dos salários; os assalariados desses Estados verão o seu poder de compra mantido, primeiramente pela baixa do preço dos bens importados, importação esta sob controlo da Grande Distribuição globalizada, e depois também pela utilização do endividamento.
A finança alimenta-se da incoerência da globalização
Simplesmente este endividamento público e privado será tomado pelo que ele não é: uma festa à qual mais cedo ou mais tarde se deveria impor um fim, porque como nos diz um velho ditado popular, ninguém pode viver duradouramente para além dos seus meios. A finança que fez do endividamento a colmeia com o seu mel, torna-se ela mesma sua própria vítima e a crise financeira anunciaria que é necessário apitar para declarar que está terminado o recreio.
Este “erro de leitura” é precisamente o que acelera a corrida frenética para aumentar a competitividade e o suicídio colectivo. Face ao incêndio que não existe, mas no qual toda a gente acredita , todos se querem apressar num movimento mimético em direcção à mesma saída: a porta que se chama competitividade. Os mais hábeis talvez se venha a sair melhor do que os outros (Alemanha? China? A França amanhã com um novo governo? ). Mas o desastre da globalização será uma duríssima realidade colectiva.
Hoje é feita muita pressão sobre a França, sempre muito lenta, diz-se, nas reformas estruturais sobre as quais não se diz facilmente que elas são, no essencial, uma redução do custo do trabalho. A França era assim – antes do seu novo governo – ainda mais suicidária do que os outros países , eles que tentam a sua sorte na luta para alcançar a porta de saída e não morrer no incêndio.
A França – insuficientemente rápida – corre o risco de morrer na embalagem da corrida e na precipitação mimética em direcção à porta de saída, a “porta chamada competitividade”. Mas a França também é o país habitado por alguns maus espíritos capazes de colocar questões tão importantes quanto ingénuas.
Reformas estruturais: espíritos malignos podem levantar questões tão importantes quanto ingénuas
Continuando a ser simples – e sem introduzir um multiplicador orçamental muito complicado para quem não é economista – o que é que vai acontecer, por exemplo, se a “festa” da despesa extravagante realmente acabasse à escala mundial?
O que vai acontecer se o orçamento federal dos EUA ficasse repentinamente equilibrado, gastando-se muito menos como o desejam então os republicanos no Congresso?
Como viveriam os fornecedores de produtos alimentares (wall-Mart nos EUA) que ganham com “os foods stamps” distribuídos a 47 milhões de pessoas?
Como viveria o complexo militar-industrial americano, as suas milhares de empresas e os seus milhões de trabalhadores? O que aconteceria com a Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, General Dynamics, Raytheon, United Technologies, etc.?
Que se faria de medicamentos que já não se podem produzir em França ou noutros lugares, por culpa do défice da Segurança Social ou da supressão americana de “medicaid” e de “medicare” ? O que é que neste caso iria acontecer com a Pfizer, Roche, Novartis, Sanofi, Bayer, etc.?
No que é que se tornariam os grandes grupos como Generale de Santé, Vitalia, Médi-partenaires, etc, cujo volume de negócios é, em França, constituído em 90 por cento dos pagamentos feitos pela Segurança Social aos seus beneficiários e em que está fortemente deficitária?
O que aconteceria com estes actores essenciais nos cuidados aos idosos como Orpéa, Korian ou Medica cujo volume de negócios é composto por pagamentos de caixas de pensões em grande parte insolventes?
Como viverão os médicos franceses em que cada nova consulta gera uma nova dívida de 2,5 euros?
Como é que a Grande Distribuição Francesa viveria esta queda de rendimentos de substituição pagos sobre a dívida pública e que nalguns casos representa o maior volume de despesa em certas grandes superfícies ?
Ainda na França, em que é se transformariam as indústrias da defesa como a MBDA, Thales, Dassault industries, SAFRAN, Nexter System, DCNS, etc para não falar das 4000 PME seus parceiros, se uma nova lei de planeamento militar adicionasse a sua pedra na proibição dos défices orçamentais?
Como é que num universo agora tão deprimido, poderia a indústria alemã continuar a gerar mais de 6 pontos do PIB no excedente externo ? O que aconteceria com a BMW, Daimler, Volkswagen, Bosch, Siemens, Basf, etc.?
A lista poderia ir ao infinito. Mas é possível ir mais longe a ingenuidade?
Como não se espantar que no velho continente, as infra-estruturas de base (pontes, estradas, vias férreas, etc.) beneficiem de um investimento líquido negativo, ou seja, em que as despesas de manutenção não cobrem a depreciação necessária (Alemanha, EUA, França, Grã-Bretanha, etc.) mesmo que os meios materiais para as manter sejam abundantes e abundantemente não utilizados ( cadernos de encomendas desguarnecidos, subemprego, etc.), ou mesmo sujeitos a planos sociais (siderurgia)?
É pois verdade, que a dívida pública e privada serve para manter a produção (crescimento perto de zero), mas que é necessário que ela seja bem muito mais importante, para garantir o investimento portador do crescimento.
Sim, a dívida tornada insuportável, seja para os credores seja para os devedores, é no entanto muito insuficiente para garantir o crescimento. E esta dívida não é senão o produto da globalização que transforma toda e qualquer procura interna em simples redução de custos.
E se o raciocínio é verdadeiro, sempre muito ingenuamente, somos todos levados a ter que levantar a questão do futuro dos países emergentes, eles também na concorrência globalizada, e que deverão eles próprios rapidamente travar a sua procura interna antes mesmo de poderem atingir a situação de pico. A China está- se a tornar um país muito caro do ponto de vista das nossas importações. Enquanto a China também se apoiou na sua própria máquina de fabricar dívida para manter uma actividade que se choca contra o universo deprimido do Ocidente. Que dizer dos BRICS cujo crescimento se evapora? Que dizer dos Estados africanos, cujo crescimento rápido, diz-se, assenta também sobre uma dívida pública que explode e só marginalmente apoia o investimento?
É por isto que somos menos entusiastas com o futuro do crescimento milagroso dos países emergentes.
E, no final da simples evocação destas poucas questões tão importantes quanto ingénuas, pode-se dizer que a festa continua linda graças a dívida e ao seu lindo crescimento, e poder-se-ia talvez dizer que a festa continuaria ainda mais linda se o seu crescimento fosse ainda mais rápido, se a máquina para fabricar a dívida fosse ainda mais poderosa.
Infelizmente, a esta última falta combustível devido à falta de credores suficientemente ousados. Então vai ser necessário acabar com a forma que assumiu esta nossa globalização.
Infelizmente, parafraseando Einstein, pensamos muito provavelmente e de maneira colectiva como um martelo, e todos os problemas, neste contexto, assumem a forma de um prego. Aqui, estranho software que faz aparecer uma produção excedentária , como despesa demasiado importante.
Porquê continuar a pensar às avessas?
A França, com o seu novo governo, tem talvez – pelo menos teoricamente – outra coisa a fazer que não a de se precipitar em direcção à porta de saída chamada de competitividade ” em frente da qual se estão continuamente a amontarem cadáveres sobre cadáveres..
E novamente aqui, poder-se-ia levantar questões tão importantes quanto ingénuas àqueles que querem – à semelhança dos defensores da proposta de orçamento 2015 – comprimir mais ainda a procura interna da França : no que é que se tornaria as novas – e tão deslumbrantes – exportações espanholas, irlandesas, italianas, gregas, portuguesas, etc? Sim, é possível construir um outro mundo, mas como sairmos de uma globalização fonte de tantos males à escala planetária?
Jean Claude Werrebrouck, FRANCE : Pourquoi te sacrifier dans la crise planétaire?, 28 de Agosto de 2014.
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