DE BRUXELAS, ONDE REINAM A IGNORÂNCIA E A MALDADE, À REALIDADE DOS PAÍSES EM IMPLOSÃO – 6. FRANÇA: PORQUÊ SACRIFICAR-TE NA CRISE GLOBAL? – por JEAN CLAUDE WERREBROUCK

Falareconomia1 Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

europe_pol_19936. França: Porquê  sacrificar –te  na crise global?

 Jean Claude Werrebrouck,  Pourquoi te sacrifier dans la crise planétaire?, 

Blogue La Crise des Années 2010, 28 de Agosto de 2014

Elie Cohen  escreveu num artigo publicado a   27 de Agosto, publicado no Le Monde que estava contente  de ver uma esquerda  gastadora “depensophile” e ruinosa para a nossa competitividade, finalmente afastada. Obviamente não está aqui em questão  querer  contestar  a realidade dos desperdícios na despesa  pública claramente identificados e de que cada um de nós  poderia estabelecer  uma lista impressionante. O problema está contudo algures e devemo-nos explicar bem.

Competitividade ou produtividade?

Dando apenas uma atenção  moderada ao facto de que  a zona euro está actualmente  em  crescimento zero e num  banho de quase estagflação, a grande imprensa internacional congratula-se com o sucesso crescente dos países do Sul da Europa que restabelecem, por vezes,  de forma espectacular  a  sua balança externa   e, assim, contribuem  para o levantamento das dúvidas sobre a possível sustentabilidade do euro.

Toda a zona euro  estaria  no  caminho para uma nova competitividade. No entanto, deve notar-se que esta nova competitividade não é a produtividade física do trabalho. Não são  os investimentos de modernização, que em Espanha, na  Itália ou noutros lugares ainda,  eliminam  os desequilíbrios externos ou relançam  os excedentes. É exactamente o inverso  – desvalorização interna e as reformas estruturais amplamente utilizadas – a compressão da procura  interna, que é responsável por isso mesmo:  o aumento do IVA  e dos impostos  em geral,  a redução dos salários e a flexibilidade salarial, estagnação ou redução de benefícios sociais (pensões, assistência médica, etc.). Esta compressão desenvolve 2 efeitos: um menor valor nas importações mesmo sem redução da propensão a importar e um aumento nas exportações reflectindo a diminuição do custo do trabalho.

A coerência  do Estado-nação: o salário é também uma componente do mercado

Na época do estado-nação, logo, antes da globalização tal como ela se manifesta, uma  tal estratégia era dificilmente  concebível tanto quanto o mercado interno constituía  o essencial do escoamento da produção e isto para a maioria   dos produtores. Havia mesmo um Estado‑Providência  que vigiava pelo  bom desenvolvimento do mercado interno e até mesmo quase que  garantia os mercados. Desta forma, a busca de competitividade através de cada um dos produtores e em cada um dos países, passava  por um desenvolvimento da produtividade  física do trabalho, e esta decorria  de massivos  investimentos de modernização e de inovação.

E os ganhos de produtividade regularmente gerados eram partilhados entre os principais actores  a fim de  regularizar e de colocar  a procura  interna  ao longo de uma tendência crescente: as empresas sob a forma de lucros adicionais, os assalariados a beneficiarem  de aumentos de  salários e o Estado cujo Tesouro   estava directamente ligado ao  crescimento, beneficiava , a taxas constantes,  de um maná de receitas   crescentes.

A parte mais importante da procura interna, correspondia à massa salarial global, como  custo total do trabalho (encargos sociais incluídos). Assim, na época do Estado-nação, a  massa salarial total, um  verdadeiro custo de produção, era simetricamente um presente dos céus do lado de quem queria escoar a produção: um mercado e, portanto, um escoamento para a produção. Daí a Grande Distribuição na sua configuração nacional.

A globalização mal pensada: o salário não é mais do que um custo

Na época da globalização, o mercado interno é substituído pelo mercado global. A massa salarial  como uma saída, como um poder de compra para os mercados,  já não é uma variável determinante. Ao contrário, esta permanece um custo que é necessário comparar aos outros custos salariais, aos custos  salariais nos  países parceiros na globalização.

Na época da globalização, o binómio   custo/escoamento dos mercados desaparece gradualmente. Ao mesmo tempo, os custos de oportunidade dos investimento de  inovação e de  modernização sobem em razão  das taxas de salários muito baixos  que se encontram naqueles que vão ser, depois, chamados os países emergentes: é melhor fabricar na  China, em vez de embarcar na robotização.

A concorrência tornada mundial conduz, desta forma, gradualmente à ideia da  produtividade pela única dimensão agora pensável,  a da competitividade pelos custos. A escala planetária, a produção pode aumentar, mas a procura interna  de cada nação devem ser comprimidas   para se manterem à tona de água no oceano da concorrência.

A procura  global, não pode crescer ao ritmo da oferta   mundial  e, portanto, entramos, desde o início da globalização, numa potencial crise de superprodução. Esta última não é imediatamente visível: os velhos  Estados com menos receitas fiscais endividar-se-ão junto dos  mais jovens, a viverem sob a lei de bronze dos salários; os assalariados desses Estados verão o seu  poder de compra mantido, primeiramente pela baixa do  preço dos bens importados, importação esta sob controlo da Grande Distribuição  globalizada, e depois também pela utilização do endividamento.

A finança   alimenta-se da   incoerência  da globalização

Simplesmente este endividamento  público  e privado  será  tomado pelo que ele não é:  uma festa à qual mais cedo ou mais tarde se deveria impor um fim,  porque como nos diz um velho ditado popular, ninguém pode viver duradouramente  para além  dos seus  meios. A finança  que fez do endividamento a colmeia com o seu mel, torna-se  ela mesma sua própria vítima  e a crise financeira   anunciaria que é necessário apitar para declarar que está  terminado o recreio.

Este “erro de leitura” é precisamente o que acelera a corrida  frenética para  aumentar a  competitividade e o suicídio colectivo.  Face ao incêndio  que não existe, mas no qual toda a gente acredita , todos se querem apressar num   movimento mimético em direcção à  mesma saída: a porta que se chama competitividade. Os  mais hábeis  talvez se venha a sair   melhor do que os outros (Alemanha? China? A França amanhã com um  novo governo? ). Mas o desastre da globalização será uma duríssima realidade colectiva.

Hoje é feita muita pressão sobre a França, sempre muito lenta, diz-se,   nas reformas  estruturais  sobre as quais não se diz  facilmente que elas são, no essencial,  uma redução do custo do trabalho. A França era  assim – antes do  seu novo governo – ainda mais suicidária do que os outros países , eles que  tentam  a sua sorte na luta para alcançar a porta de saída e não morrer  no incêndio.

A França – insuficientemente rápida –  corre o risco  de morrer na embalagem da corrida e na  precipitação mimética em direcção à porta de saída, a “porta chamada competitividade”.  Mas a França também é o país habitado por alguns maus espíritos capazes  de colocar  questões tão importantes  quanto ingénuas.

Reformas estruturais: espíritos malignos podem levantar questões tão importantes  quanto ingénuas

Continuando a ser simples – e sem introduzir um  multiplicador orçamental  muito complicado para quem  não é economista – o que é que vai acontecer, por exemplo, se a “festa”  da despesa extravagante realmente acabasse à escala mundial?

O que vai acontecer se o orçamento federal dos EUA ficasse repentinamente  equilibrado, gastando-se muito menos como o desejam  então os republicanos no Congresso?

Como viveriam os fornecedores de produtos alimentares (wall-Mart nos EUA) que ganham com “os foods stamps”   distribuídos a 47 milhões de pessoas?

Como viveria  o complexo militar-industrial americano, as suas milhares de empresas e os seus milhões de trabalhadores? O que aconteceria com a Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, General Dynamics, Raytheon, United Technologies, etc.?

Que se faria de medicamentos que já não se  podem  produzir em França ou noutros  lugares, por culpa do défice da Segurança Social ou da supressão americana  de “medicaid” e de  “medicare” ? O que é que neste caso iria acontecer com a Pfizer, Roche, Novartis, Sanofi, Bayer, etc.?

No que é que se tornariam os grandes grupos como Generale de Santé,  Vitalia, Médi-partenaires, etc, cujo volume de negócios é, em França, constituído em 90 por cento dos pagamentos feitos pela Segurança Social aos seus beneficiários e em que está fortemente deficitária?

O que aconteceria  com estes actores  essenciais nos cuidados aos idosos como Orpéa, Korian ou  Medica cujo volume de negócios é composto por pagamentos de caixas de pensões  em grande parte insolventes?

Como viverão os médicos franceses em que cada nova consulta gera uma nova dívida de 2,5 euros?

Como é que a Grande Distribuição Francesa viveria  esta queda de  rendimentos de  substituição pagos sobre a dívida pública e que nalguns casos representa o maior volume de despesa em certas  grandes superfícies ?

Ainda na França, em que é se transformariam as indústrias da defesa  como a MBDA, Thales, Dassault industries, SAFRAN, Nexter System, DCNS, etc para não falar das 4000 PME  seus parceiros, se uma nova lei de planeamento militar adicionasse a sua pedra na proibição dos défices orçamentais?

Como é que num universo agora tão deprimido, poderia a indústria alemã continuar a gerar mais de 6 pontos do PIB no excedente externo ? O que aconteceria com a BMW, Daimler, Volkswagen, Bosch, Siemens, Basf, etc.?

A lista poderia ir ao infinito. Mas é possível ir mais longe a ingenuidade?

Como não se espantar  que no velho continente, as  infra-estruturas de base  (pontes, estradas, vias férreas, etc.) beneficiem de um investimento líquido negativo, ou seja, em que as despesas de manutenção não cobrem  a depreciação necessária (Alemanha, EUA, França, Grã-Bretanha, etc.) mesmo que os meios materiais para as  manter sejam  abundantes e abundantemente  não utilizados ( cadernos de encomendas desguarnecidos, subemprego, etc.), ou mesmo sujeitos a planos sociais  (siderurgia)?

É pois verdade, que a dívida pública e privada serve para manter a produção (crescimento perto de zero), mas que é necessário que ela seja bem muito mais importante, para garantir o investimento portador do crescimento.

Sim, a dívida tornada insuportável, seja  para os credores seja para os devedores, é no entanto muito insuficiente para garantir o crescimento. E esta dívida não é senão  o produto da globalização que transforma toda e qualquer procura interna  em simples redução de custos.

E se o raciocínio é verdadeiro, sempre muito ingenuamente, somos todos levados a ter  que levantar a questão   do futuro dos países  emergentes,  eles também  na concorrência globalizada,  e que deverão eles próprios  rapidamente travar  a sua procura interna  antes mesmo de poderem atingir a situação de pico. A China está- se a tornar  um país muito caro do ponto de vista das nossas importações. Enquanto a China também se apoiou na  sua própria máquina de fabricar  dívida para manter uma actividade que se choca contra  o universo deprimido do Ocidente. Que dizer dos BRICS cujo crescimento se evapora? Que dizer dos Estados africanos, cujo crescimento rápido, diz-se,  assenta  também sobre uma   dívida pública que explode e só marginalmente apoia o  investimento?

É por isto que somos menos entusiastas com o futuro do crescimento milagroso dos países emergentes.

E, no final da simples  evocação destas poucas questões tão importantes quanto ingénuas,  pode-se dizer que a festa continua linda graças a dívida e ao seu lindo crescimento, e poder-se-ia talvez dizer que a festa continuaria ainda mais linda  se o seu crescimento fosse ainda mais rápido, se a máquina para fabricar  a dívida fosse  ainda mais poderosa.

Infelizmente, a esta última  falta  combustível devido à falta de credores suficientemente ousados. Então vai ser necessário acabar com a forma que assumiu esta nossa globalização.

Infelizmente, parafraseando Einstein, pensamos muito  provavelmente e de maneira colectiva  como um martelo, e todos os problemas, neste contexto, assumem a forma de um prego. Aqui, estranho software que faz aparecer uma produção  excedentária , como despesa demasiado importante.

Porquê continuar a pensar às avessas?

A França, com o seu novo governo, tem talvez – pelo  menos teoricamente – outra coisa a fazer  que não a de se precipitar em direcção à porta de saída  chamada de competitividade ” em frente da qual se estão continuamente a amontarem cadáveres sobre cadáveres..

E novamente aqui, poder-se-ia levantar questões tão importantes quanto ingénuas  àqueles que querem –  à semelhança dos defensores da proposta  de orçamento 2015 – comprimir mais ainda a procura interna da França : no que é que se  tornaria as novas  – e tão  deslumbrantes  – exportações  espanholas, irlandesas, italianas, gregas, portuguesas, etc? Sim, é possível construir um outro mundo, mas como sairmos de uma globalização fonte de tantos males à escala planetária?

Jean Claude Werrebrouck,   FRANCE : Pourquoi te sacrifier dans la crise planétaire?, 28 de Agosto de 2014.

Texto disponível em:

http://www.lacrisedesannees2010.com/2014/08/france-pourquoi-te-sacrifier-dans-la-crise-planetaire.html

 

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