MITO & REALIDADE – Morte e Terror em Lisboa – 25 – por José Brandão

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Capítulo V

A CAMINHO DO ARSENAL

BOTELHO DE VASCONCELOS

Por alguns momentos pensou-se que a fatídica camioneta tinha terminado a sua obra.

Mas morto o comandante Freitas da Silva surge na Praça do Município, frente ao Arsenal, nova escolta de marinheiros. Desta feita, vem comandada por um sargento da Guarda Republicana, que traz para o sacrifício mais um desventurado.

Sempre de pistola em punho, o sargento Heitor Gilman encaminha para a morte um velho militar, que vem impecavelmente fardado, de espada sobre o uniforme e impermeável negro de campanha.

– Quem é o gajo? – Pergunta um revolucionário civil ao chefe da escolta.

– É o que no tempo do Sidónio mandou beber água aos marinheiros, no Rato, e que me interrogou quando estive preso, no Dezembrismo.

Carlos Alexandre Botelho de Vasconcelos, coronel de Cavalaria, que lutou por Sidónio Pais na Rotunda e a quem se atribuía a frase depreciativa para os marinheiros, está a poucos minutos de ser assassinado.

– Rapazes. Quero dizer-vos duas palavras.

A voz calma do velho militar não esconde o espectro da morte que já domina o local.

– Depressa! Temos pressa!

Serenamente, Botelho de Vasconcelos tira do bolso a cigarreira de prata. Oferece-a a um dos da escolta:

– Aceita esta recordação. Contém o meu testamento.

– Mete-a no cu. – rejeita o contemplado.

O sargento Heitor está fulo:

– Queres armar ao pingarelho? Pois reza o ato de contrição e encomenda a alma do Diabo! – e, sempre de pistola em punho, ordena:

– Volta-te para aquele portão – aponta-lhe o portão do Arsenal.

Com extraordinária calma o idoso coronel volta-se:

– Fogo!

O experiente oficial de cavalaria tinha ele próprio dado a voz de fogo aos que acabavam de o fuzilar.

O corpo possante do velho coronel tombara de bruços. Ainda respira. Da boca jorram golfadas de sangue. Os oficiais de serviço ao Arsenal ordenam a remoção do ferido para o hospital.

Aparece um side-car com a bandeira da Cruz Vermelha. Um marinheiro corpulento arremessa o corpo inerte para dentro do pequeno transporte. Botelho de Vasconcelos geme de dor. O sargento Gilman aproveita para disparar um segundo tiro sobre o moribundo. Dois outros marinheiros aprontam-se igualmente para descarregar as armas sobre o corpo em agonia. Os maqueiros do side-car intervêm, cobrindo o ferido com a bandeira da instituição:

– Está sob proteção da Cruz Vermelha! – Reclamam.

Eram quatro horas da madrugada e o corpo do coronel Botelho de Vasconcelos dava entrada no Hospital de S. José. Ainda Vive. Morrerá poucos dias depois no meio de grande sofrimento.

Ainda durante o ano de 1921, a revista ABC, dirigida por Rocha Martins e Carlos Ferrão, respetivamente diretor e editor, descreve como foi capturado o velho coronel.

No número referente a 3 de novembro, os pormenores da investida assassina são apresentados do seguinte modo:

Era na noite de 19 de outubro, pelas duas horas.

No segundo andar do prédio que tem o número quarenta e quatro, na Rua de Gonçalves Crespo, o malogrado coronel Botelho de Vasconcelos escrevia ainda, alumiado pela luz do candeeiro a petróleo, que a custo cortava as trevas do seu pequeno gabinete de trabalho.

Tudo estava mergulhado no silêncio e Botelho de Vasconcelos escrevia tranquilo, sem suspeitar que a morte o espreitava de bem perto…

Lá fora, na rua, onde por acaso moram também os Srs. Cortês dos Santos e Serrão Machado, da Junta Revolucionária, alguns indivíduos indagam do guarda-noturno a morada do coronel Vasconcelos.

São dois marinheiros, ou antes, dois indivíduos fardados de marinheiros, como já é hábito dizer-se, um indivíduo fardado de carteiro e outro de polícia. Uma patrulha da Guarda Republicana vigia…

Todos vêm armados de espingardas e o guarda-noturno, aterrorizado, depressa lhes indica a casa do pobre oficial.

Sobem a escada e, às pancadas repetidas na porta de sua casa, Botelho de Vasconcelos, sem suspeitas de nada, tranquilo, porque quem não deve não teme, franqueou-lhes a entrada.

Estupefacto, ouve com assombro os marinheiros, que lhe dão, sem mais delongas, ordem de prisão. Porquê? O distinto oficial não tenta, sequer, indagar. Vai à parte traseira da casa, bate as palmas, e avisa os sobrinhos, que moram no prédio contíguo, do que se passava.

Em seguida pede licença aos captores para envergar a farda que sempre honrara, e momentos depois ei-lo pronto para caminhar para a morte…

Quantas e quantas vezes o malogrado oficial dissera, sorrindo com tristeza:

– É a farda, a farda que nunca um mau ato, uma cobardia manchou que há de no derradeiro momento servir-me de mortalha!?

Os marinheiros, impacientes com a demora, bateram no sobrado com as coronhas das armas…

– Um momento – suplicou o coronel. – O tempo de encher a cigarreira…

– Não vale a pena – diz num sorriso feroz um dos marujos. – O senhor não tem tempo de fumar… e, se fumar, fuma o seu último cigarro!…

Pobre Vasconcelos! Não compreendeu ou não quis compreender a terrível ameaça que o comentário encerrava.

Momentos depois descia as escadas e vinha postar-se no meio da patrulha dos guardas-republicanos a cavalo.

Mas um dos marujos, o que parecia comandar a «empresa», afastou a patrulha da Guarda dizendo-lhe que já ali não era precisa, e só, no meio do polícia, dos marinheiros e do carteiro, o coronel Botelho de Vasconcelos lá marchou a caminho do Arsenal, a pé, em busca da terrível morte que esperava…

Foi assim que a sua prisão nos foi relatada pelo sobrinho do infeliz, que, com lágrimas nos olhos inchados de tanto chorar, terminou num soluço de dor:

– Mataram-no! Pobre velho! Que mal lhes tinha feito?…

E a revista de Rocha Martins prosseguia no relato dos acontecimentos referentes ao assassínio do velho militar:

Ouçamos agora o que nos diz o Sr. Henrique Alberto Teixeira, enfermeiro da Cruz Vermelha, que foi quem conduziu num side-car o corpo do infeliz coronel Botelho de Vasconcelos: «Eu e mais dois colegas vínhamos do Rossio em direção do Arsenal da Marinha onde constava ter havido algumas mortes, quando, perto do Ministério do Interior, um numeroso grupo de marinheiros nos fez parar a motocicleta.

Apenas nos identificaram, os marinheiros perguntaram-me se nós tínhamos próximo qualquer camioneta ou automóvel para levar à morgue o cadáver de um homem…

– A side-car pode transportá-lo – respondi eu.

– Bom, então pode seguir – diz um dos marinheiros e logo várias vozes gritam que nos deixem passar…

– São da Cruz Vermelha!…

Chegados em frente do Arsenal de Marinha, outro numeroso grupo de marinheiros e civis armados fez-nos parar novamente e indicando-nos o cadáver dum indivíduo, ordenam-nos que o transportemos para a morgue.

O corpo era o do coronel Botelho de Vasconcelos. O infeliz estava atravessado a meio do portão do Arsenal, a parte do tronco ainda dentro do edifício. Envergava a sua farda de coronel e por cima um impermeável negro, onde nas mangas brilhavam os galões manchados pelo sangue que escorria das suas feridas.

Ajudado pelos meus colegas, depressa verifiquei que o infeliz vivia ainda, e assim o declarei àqueles que nos rodeavam.

Antes o não dissera!

Aqueles homens, sedentos de sangue e cegos pelo ódio, agrediram ainda o quase cadáver do oficial e foi necessário que puséssemos por cima dele a bandeira da Cruz para o livrarmos de ali mesmo ser despedaçado.

Um marinheiro possante pegou no corpo do coronel Vasconcelos e, num esforço hercúleo, atirou com ele para dentro do side-car, as pernas saindo para fora do carro.

Um marinheiro, homem honesto, entrega-me a corrente e o relógio do infeliz para que os déssemos à família, mas alguém, também da Marinha, arrebata-me tudo das mãos dizendo que só a ele competia tomar entrega desses objetos.

E, até hoje, nunca mais foram vistos o relógio e a corrente do infeliz coronel.»

E continuando, o Sr. Henrique Teixeira conclui:

– O resto já os senhores o sabem…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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