CRÓNICA DE DOMINGO: A Nave dos Loucos – rumo ao caos – por Carlos Loures

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Há anos atrás, na blogue Aventar, publiquei um texto a que chamei A Nave dos Loucos, título de um “poema de moralidade, escrito por Sebastian Brant (1457-1521), um jurista alsaciano de língua alemã, formado na universidade de Basileia e que, em 1494, escreveu Das Narrenschiff ou, em latim Stultifera navis – «nave dos loucos», em português. Esse livro, obra considerada menor, influenciou artistas como Bosch (em baixo, reproduzo o quadro a que deu o título do poema), e Dürer, entre muitos outros por essa Europa fora. Cautelosamente, pode pôr-se a hipótese de o nosso Gil Vicente se ter nele inspirado para alguns dos seus autos. Reli o texto, escrito durante o segundo mandato de José Sócrates e pareceu-me perfeitamente actual, pois o executivo de Passos Coelho justifica redobradamente cada uma das palavras. Nestes dias em que todos os erros, desvios, defeitos estruturais do conceito de democracia, se tornam tão evidentes, mais do que nunca, temos razão para nos sentirmos à deriva, nas mãos de timoneiros enlouquecidos pelo poder e pela corrupção. Assim, como diria Tomás da Fonseca, peguei nesse artigo, escovei-o e tentei «despiorá-lo». E aqui está.

 

Sebastian Brant metia na Sultifera navis 112 tipos de loucos, representando clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices. A cada louco, dedicava um capítulo e não se esqueceu de si mesmo – O Louco dos Livros e Dos Livros Inúteis, que, como ele, amavam a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhes oferecia, transformando-se em coleccionadores de livros, mas, nem por isso, em pessoas sábias. Portanto, em cada capítulo retratava um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predominava a figura de Frau Venere (Vénus). É um poema moralista, abundando as sentenças bíblicas e os aforismos portadores da sabedoria conceptual da Idade Média. Representava-se ali uma viva angústia pela situação da Igreja, onde sopravam já ventos de uma Reforma religiosa e da iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado na época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos era a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», resultantes do Renascimento. Quase cinco séculos depois de ter ssido publicado, o poema de Brant inspirou o romance Ship of fools de Katherine Anne Porter e baseado nesse livro, um filme de Stanley Kramer – num paquete de luxo, em 1933, pessoas de diversos estratos sociais, viajavam do México para a Alemanha – durante a viagem, a situação mudou na Alemanha, Hitler subiu ao poder. Alguns passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto.

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A actual política partidária portuguesa é repugnante. Não se compreende como se podem as pessoas preocupar com os políticos do governo e da oposição, quando quem os manipula são grandes empresários, grandes multinacionais, organizações internacionais –  numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota. Mas vamos elegendo como capitães os servos de poderes afastados da ribalta. Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca.

Uma nave de loucos conduzida por crápulas.

 Somos governados não pelos poderes constitucionais, mas por entidades ocultas, servidas por jornalistas sem escrúpulos. A nave dos loucos com uma chusma de corruptos aos remos e com crápulas (os do costume e outros) a dar-lhes ordens. Os povos parecem gostar de ser conduzidos por loucos e por crápulas. Este mundo, esta civilização global, está a globalizar a corrupção, a droga, a miséria, o crime. Portugal está a transformar-se num país violento, onde é perigoso sair à noite nas ruas das nossas cidades. No regime democrático, os marginais aterrorizando os cidadãos pacatos e cumpridores, substituem os agentes da polícia política. Aos centros de poder, eleita por nós, vão chegando marginais de outro tipo que não nos assaltam junto ao multibanco de seringa em punho, mas nos retiram o dinheiro dos bolsos pela chamada «via legal». A Igreja contempla esta realidade, contribuindo com os seus marginais, pedófilos e quejandos, para a abençoar. Pobre gente que somos! Nas próximas eleições lá iremos ordeiramente eleger os timoneiros da nave.

E a nave dos loucos continuará a sua viagem rumo ao caos.

 

 

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