DIA DE ÉVORA – A CIDADE E AS PEDRAS – por Manuel Simões

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                                                           Mas já cos esquadrões da gente armada

                                                                              os Eborenses campos vão coalhados.

                                                                                   Camões, Os Lusíadas, III, 107

 

1

Museu de estilos,

o respirar

duma cidade

impressa/o

nos seus templos.

A pedra

feita história,

testemunho latente

de seus antigos

filhos.

A pedra

trabalhada,

tão inocente e neutra

revelando

as origens,

o modo da conquista,

o coro de protestos

sob as duras

espadas.

2

Leio assim

a cidade:

ruas brancas

de tédio,

a solidão escrita

na caliça,

esta geometria

de cal

neutra

alagando o corpo

nítido

do homem

causticado

que respira.

3

As pedras lavram

o pranto e as trevas

duma idade.

São marcos, são

arestas que sitiam

a memória,

são troféus

desamados

armando a própria

história.

São nomes, são

crónicas sem notícia

dos despojos

– são sinais.

( de Crónica Segunda, 1976)

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