A PROPÓSITO DO BRUTAL MASSACRE SOBRE CHARLIE HEBDO, MAIS UM TEXTO SOBRE A REALIDADE FRANCESA SELECCIONADO E TRADUZIDO POR JÚLIO MARQUES MOTA – OS ATENTADOS: ESTRATÉGIA DO CAOS, A ESTRATÉGIA DA TENSÃO Estratégia islamita ou estratégia mundialista? por MICHEL LHOMME

Caro editor de A Viagem dos Argonautas

Agora que se fala tanto em liberdade de imprensa, a propósito do brutal massacre sobre Charlie Hebdo, é bom não escondermos o Sol com uma peneira e que até nem tem rede. Nesse sentido perguntemos então onde é que está a liberdade de imprensa em França actualmente, sob o reino dos socialistas  dirigidos por François Hollande e capitaneados por  um “hacker” da Democracia, que se dá pelo nome de Manuel Valls? Os exemplos  de que abaixo se fala são exemplo do cinismo que cobre agora a ideia de liberdade de imprensa em França, cinismo  este que se desencadeou a partir da hedionda chacina  ocorrida em Paris, desencadeada por franceses de “souche”. Tratou-se de um crime, uma chacina, em que os seus autores devem ser julgados e severamente condenados, sem dúvida. Por outro ninguém estará em desacordo quando consideramos que a  liberdade de imprensa é um valor inalienável da  Democracia, é certo,  mas exactamente porque esta está em perigo neste país e muito antes disto,  não será então a Democracia que está perigo em França sob a política económica e social praticada por Hollande e orquestrada a partir de  Berlim? Se a Democracia está em perigo, amordaçada já diríamos mesmo,  necessariamente assim está também a liberdade de imprensa. Em perigo e sob o silêncio da imprensa que agora se diz ser livre? Tanto é assim que quem sobre esta política se atreva a opor-se publicamente é despedido. E despedidos então em nome da liberdade de imprensa, não mo digam!

Não é o que se passou agora um sinal disto mesmo, de uma profunda crise que atravessa a sociedade francesa e toda a Europa inclusive, não será que o que se passou pode também ser visto como imagem do que se está a passar actualmente na Alemanha de Frau Merkel?  Se os judeus não existissem tinham que ser inventados, terá dito o autor de Mein Kampf e não será uma outra imagem, mas equivalente, a que se está a tentar criar na Alemanha, a partir de Dresden,  a  propósito do Islão?

Face a isto, para além dos três  textos sobre a realidade francesa publicados ontem, envio mais um, tendo como introdução um acréscimo a esta nota, que vai já a seguir:

Já depois deste texto escrito, recebo uma série de artigos da Revista Metamag, entre os quais um bem específico e em que esta pequena introdução nossa bem poderia servir de introdução. Por isso, em vez de três textos apresentaremos quatro textos e o último será exactmente o da revista Metamag que  considero de leitura indispensável.

A gravidade da situação presenta na Europa leva a que peça ao nosso editor que aceite a seguir a esta série publicar alguns textos sobre os últimos e dramáticos dias da República de Weimar. Vale a pena recordar.

Júlio Marques Mota

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4. OS ATENTADOS: ESTRATÉGIA DO CAOS, A ESTRATÉGIA DA TENSÃO

Estratégia islamita ou estratégia mundialista?

Michel Lhomme,  LES ATTENTATS : STRATÉGIE DU CHAOS, STRATÉGIE DE LA TENSION, Stratégie islamiste ou stratégie mondialiste ?

Revista Metamag,  9 de Janeiro de 2015

 

No meio da indignação e da emoção face à chacina de Charlie Hebdo, os Franceses esquecem que François Hollande vendeu armas aos terroristas na Síria, que Nicolas Sarkozy abateu friamente o coronel Kadhafi e que na República centro-Africana por decisões operacionais irracionais, a França deixou o campo livre aos extremistas anti-católicos de Séléka.

A França escolheu também o seu campo na Ucrânia e ter-se-á notado, de passagem, o silêncio dos meios de comunicação social à volta das reacções da Federação da Rússia e do seu Presidente Vladimir Putin que, contudo, exprimiu os seus vivos pêsames ao povo francês na sequência do ataque terrorista contra o jornal satírico. Nem uma só palavra enquanto que a Rússia sempre esteve presente, a em especial na Tchetchénia na luta contra o terrorismo islâmico. A República islâmica do Irão condenou firmemente o atentado pela voz do seu porta-voz do Ministério dos Negócios estrangeiros, Marzie Afjam. Também descreveu como “inaceitável” qualquer forma de abuso da liberdade de expressão e denunciou o radicalismo intelectual e de qualquer que seja o sitio de onde venha, pois o Irão, acrescentou, considera  que se pode falar na luta contra o terrorismo “de dois pesos e duas medidas, “de dupla linguagem”, da política americana sem estar a nomear directamente o seu mais fiel aliado: a França.

Há já alguns meses numa entrevista ao jornal francês Vingt Minutes, François Hollande gabava-se de ter entregue um carregamento de armas aos rebeldes integristas da Síria que ele considerava então como combatentes revolucionários. Ora, por um tal apoio logístico, a França violava a Resolução 2170 do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a luta contra o terrorismo. Todos o sabem agora: grupos islamitas rivais são armados e generosamente financiados pelos Estados Unidos, pela França e pelos seus partidários contraditórios (Reino Unido, Arábia Saudita, Quatar, Turquia, Israel).

A operação de Charlie Hebdo é uma operação militar de profissionais. Esta visa inegavelmente desestabilizar a França, o elo mais fraco do quadro europeu actual. A França reúne as condições da guerra civil pela desorganização dos seus serviços públicos, em especial de segurança, desorganização esta planificada e organizada desde há meses por uma hábil política de austeridade e de redução dos efectivos desencadeada por Nicolas Sarkozy, pela segmentação da vida política em França, pela intolerância dos seus debates intelectuais a que se junta à ultrapassagem dos limiares demográficos toleráveis na composição dos seus bairros. Esta operação comando visa por conseguinte claramente incentivar o início de uma tal guerra civil. Bernard-Henri Lévy bem insistiu ontem “a União Nacional é o contrário da França aos Franceses”. Seria pois isso?

Trata-se muito claramente de transpor um conflito internacional para o plano interno e de escavar um fosso entre os muçulmanos franceses e os Franceses não-muçulmanos. Devemos portanto considerar o acontecimento não como uma ameaça contra a liberdade da imprensa mas como o primeiro episódio de um processo em cursos de criação de uma situação de guerra civil e neste sentido como Michel Onfray, pode-se com efeito falar no sentido forte do termo “de um onze de Setembro francês”, mas no sentido certamente de que a versão oficial do 11 de Setembro de 2011 é falsa e manipulada.

É consequentemente necessário lembrarmo-nos de algumas de estratégias actuais ou passadas como:

– a estratégia do caos e da tensão da operação da NATO chamada Gladio.

– a estratégia definida pelos Irmãos Muçulmanos.

– a estratégia “do choque das civilizações”.

Não voltaremos detalhadamente sobre as duas primeiras estratégias. Precisemos apenas que para os Irmãos Muçulmanos, não se trata de nenhuma maneira de pregar ou provocar uma guerra civil no Ocidente, mas, pelo contrário, de desencadear uma guerra civil a Oriente.

Pelo contrário, para Bernard Lewis, o pensador da estratégia “do choque das civilizações”, a fractura deve ser levada adentro das fronteiras ocidentais ou sobre estes territórios fortificados. Esta estratégia foi vulgarizada seguidamente por Samuel Huntington, apresentando-a não como uma estratégia de conquista mas como uma política de defesa, de vitimização ocidental que se poderia produzir  para consolidar o Estado de excepção. O objectivo é, certamente, o de convencer as populações dos países-membros da NATO de que uma confrontação civilizacional é inevitável para assentar definitivamente o modelo neoliberal e o sistema anglo-saxónico “da paz democrática”. Antes da grande confrontação, importa justificar pelo caos e pela desestabilização interna o carácter preventivo das medidas de excepção libertárias e de governança mundial económica absolutamente necessárias para levar a cabo o poder mundial como os Patriot Act.

É a retórica “da guerra justa” “da guerra contra o terrorismo”, em que a guerra contra o terrorismo é, na realidade, sobretudo uma guerra contra a Tradição seja esta muçulmana ou ortodoxa, a guerra contra as culturas enraizadas. Há hoje uma abundante literatura sobre esta estratégia que corresponde aproximadamente à posição dos conservadores americanos em Washington, dos militantes sionistas em Israel, dos novos falcões socialo-liberais na Europa (Holanda, Sarkozy, Juppé).

O que é pois o islamismo ou o terrorismo islamita?

Primeiro e sobretudo é uma arma de guerra psicológica que o hiperimpério americano utiliza desde o 11 de Setembro para desencadear geralmente novos cenários de conflito: seja a invasão de países, seja o derrube de governos nos países árabes-muçulmanos (casos por exemplo da Líbia e da Síria, certos países africanos como a Somália ou a Nigéria). A esse respeito, veja-se por exemplo o que se passou na quinta-feira na Nigéria com Boko Haram. Ou seja também, e pode ser bem o caso para o nosso país, para estabelecer internamente medidas autoritárias e liberticidas de controlo da população.

A síntese de todas estas estratégias constitui o que se pode chamar de um termo vago porque demasiado geral de “a guerra anti-terrorista” à escala mundial, a mundialização da guerra mas a sua verdadeira denominação será antes: a guerra do mundialismo, a guerra da globalização, a guerra do ocidentalismo. Começou em 1914, há cem anos e comporta trinta e nove degraus. Esta  guerra subterrânea mas ideológica também alimenta largamente a economia mundial por uma indústria do armamento multimilionária que nunca, nestes difíceis tempos, esteve financeiramente tão bem e de que se fala muito pouco, obviamente. É o famoso complexo militaro-industrial americano, o pilar central das operações secretas externas decididas na esfera mais elevada da Administração americana. Mas neste mercado militar, a Rússia assim como a França puxam também certos cordões lucrativos.

O que é certo, é que “a luta anti-terrorista” tem para os Estados Unidos, desde Sarkozy um aliado fiel que precede e ultrapassa mesmo nas instâncias internacionais as propostas israelitas. Este aliado, este soldado de infantaria de excepção, é a França.

A operação comando que acaba agora de atingir a França entra completamente na lógica de um tal quadro de análise. A França, pela degradação da sua segurança interna e pelos seus malogros económicos encontra-se hoje como a Itália dos anos 70, o país europeu melhor preparado para desenvolver uma psicose interna que permitirá à sua classe política de deliberar rapidamente e votar de um lado a protecção americana absoluta e, do outro lado, ratificar um tratado transatlântico que a vinculará para sempre à finança internacional. Num tal contexto de caos, mesmo Marine Le Pen poderia em teoria governar mas trata-se, ao contrário, de a destituir moralmente. Marine Le Pen apesar de todos os seus esforços não é e nunca será uma Charlie.

Sabe-se que a França na política anti-russa imposta à Europa nestes últimos meses na Ucrânia manifestou um zelo bem especial e contrário aos interesses dos seus empresários mas ainda mais nas negociações relativas ao futuro da energia nuclear iraniana, onde a posição francesa de Laurent Fabius se fez particularmente notar por uma intransigência excepcional, na mesma altura em que o grupo dos negociadores, entre os quais os Estados Unidos estavam já a visar posições mais conciliadoras. A França era aqui directamente o megafone de Telavive que deseja fazer dos Iranianos, inimigos irreconciliáveis. Quais as razões?

Coloquemos aqui a pergunta que incomoda: quem salva os mercados desde há alguns meses da falência da economia francesa? Quem enche discretamente os cofres na sala subterrânea dos mercados de Bercy? A Arábia Saudita e o Quatar, novos aliados também de Jerusalém.

Não se trata, pois, na questão Charlie Hebdo de nos levantarmos perante uma fictícia liberdade da imprensa, liberdade de uma imprensa ela própria liberticida no que se refere a Charlie Hebdo, Libération, ou Le Monde mas de nos levantarmos contra a nova servidão francesa, a escravidão real à qual nos conduzem os nossos actuais dirigentes, da mesma maneira que os Muçulmanos se devem levantar politicamente contra os ímpios de Meca.

Os prejuízos do islamismo radical realmente são utilizados para lançar cada vez mais os Europeus nos braços do eixo ocidentalista de Washington-Tel Aviv onde os loucos de Allah são apenas aliados objectivos, idiotas úteis no sentido onde foram instrumentalizados e mesmo recrutados como mercenários na Síria e no Iraque. Devemos por conseguinte manter a cabeça fria e não nos entregarmos ao jogo, um jogo doentio e truncado desde a partida. Pondo à frente um argumento de uma grande simplicidade (a tese houellebecquienne em suma), o argumento maquiavélico e maquiaveliano de que não haveria outras escolhas que não sejam entre Islamismo e o Ocidente, colocando na linha da frente o verdadeiro terror, o terror ocidental ele-próprio que se afirma desde Thatcher com “there is no alternative” ou que num salto de lógica gigantesco os leva também a dizer que recusar o terror islamita, é também recusar Putin!

Michel Lhomme, LES ATTENTATS : STRATÉGIE DU CHAOS, STRATÉGIE DE LA TENSION -Stratégie islamiste ou stratégie mondialiste?, Revista Metamag, 9 de Janeiro de 2015. Texto disponível em :

http://metamag.fr/metamag-2556-LES-ATTENTATS—STRAT%C3%89GIE-DU-CHAOS–STRAT%C3%89GIE-DE-LA-TENSION-Strategie-islamiste-ou-strategie-mondialiste–.html

1 Comment

  1. António Avelãs Nunes solicitou-nos, sobre este tema, a publicação do comentário seguinte:

    Meu Caro Júlio Mota

    Como analfabeto informático, não sei mover-me no meio dos blogues. Mas, graças à tua disponibilidade, vou acompanhando, de há uns tempos a esta parte, alguns dos textos e dos temas que passam pelo blogue a que estás ligado.
    E vi agora estes comentários sobre o massacre na França. Também eu penso que se trata de um massacre, algo que a civilização não pode comportar. Mas também penso, como alguns (não sei se muitos) outros, que o essencial a discutir, para preservar a liberdade e a civilização, não é propriamente a história trágica dos assassinos e dos assassinados.
    Creio que é necessário recordar que foi o terrorismo que, em 1948, expulsou milhões de palestinianos das suas casas e das suas terras. E lembrar que os crimes por terrorismo não prescrevem. E lembrar que um dos mais célebres terroristas desse tempo (Menahem Begin) foi anos depois Primeiro-Ministro de Israel e condecorado com o Prémio Nobel da Paz (como, entre outros, Kissinger, Obama e a UE). É preciso não esquecer que, desde 1967, Israel ocupa ilegitimamente, território palestiniano e que ninguém, na dita ‘comunidade internacional’, se lembrou de invadir Israel e matar o ‘ditador’, como fizeram com o Iraque. É preciso recordar que esta situação (com a construção ilegal dos colonatos, a construção do ‘muro da vergonha’ e muitas outras vergonhas toleradas (estimuladas e pagas) pelo ‘mundo livre’) constitui uma humilhação para os palestinianos e para o mundo árabe. É preciso não esquecer que a Carta da ONU reconhece aos povos ocupados o direito de resistir à potência ocupante por todos os meios, incluindo a luta armada. Ninguém (entre os democratas) condena as forças da Resistência pelos atos de ‘terrorismo’ praticados contra o ocupante nazi; os salazarentos chamavam terroristas aos combatentes dos movimentos de libertação que Paulo VI recebeu no Vaticano; o ‘mundo livre’ (vá lá…, uma boa parte dele) chamou terrorista a Nelson Mandela e achou muito bem que ele estivesse preso por não renunciar à luta armada, até chegar à conclusão de que, afinal, aquele ‘terrorista’ era uma referência moral do mundo inteiro.
    Talvez o ato mais importante (oxalá decisivo) contra o terrorismo islamita fosse obrigar Israel a cumprir as múltiplas decisões da AG da ONU no sentido de entregar aos palestinianos o território que lhes pertence (e já se deixa de lado o território pilhado pelas ações terroristas de 1948 e antes). Após a constituição do estado da Palestina (com a capital em Jerusalém), então poderia exigir-se a este e ao povo palestiniano que respeitasse a soberania e a segurança do estado de Israel.
    Parece-me uma enorme hipocrisia aceitar (como estão a dizer as televisões) que Nethaniau (que comete atos inaceitáveis de terrorismo de estado, muito mais grave do que o terrorismo dos ‘fanáticos’) desfile ao lado dos que protestam contra o terrorismo. Como classificar os bombardeamentos de Israel sobre territórios palestinianos, sacrificando milhares de inocentes? Como classificar os atos do estado de Israel que, recorrentemente, destrói as casas de família dos familiares dos palestinianos que cometem atos de terrorismo contra cidadãos israelitas? Em nenhuma civilização os crimes de uns podem incriminar outros, só porque são familiares do criminoso. E se a vendetta é repugnante quando praticada pela máfia, é muito mais repugnante quando praticada por estados que se querem civilizados. Como seria bom que, depois da barbárie nazi de Guernica e de Oradour crimes destes não se repetissem…
    O que eu penso é que este massacre dos jornalistas franceses é mais um episódio desgraçado de uma guerra global feita pelo e em nome dos interesses do famoso complexo militar-industrial, que não deixou Eisenhower governar segundo a sua vontade, que impôs ao mundo a guerra fria e todas as guerras quentes que fizeram do século XX um inferno e que continuam a marcar o séc. XXI. Em nome desses interesses é que o ‘mundo civilizado’, defensor da liberdade de imprensa, da tolerância e de todas as virtudes republicanas, criou, doutrinou, treinou, armou e pagou (e paga) os bandos terroristas islamitas inventados para expulsar os soviéticos do Afeganistão e depois replicados em várias outras situações.
    Foi em nome da tolerância laica e republicana que todas as franças do ‘mundo civilizado’ inventaram o Kosovo (um ‘país’ que dá cobertura a uma base americana, entregue a bandos de terroristas e traficantes de mulheres, de armas, de droga e de tudo o que dê dinheiro) e o entregaram a extremistas islamitas? Foi em nome de quaisquer valores dignos do Homem que se fez a guerra contra o Iraque, contra a Líbia, contra a Síria e agora também contra alguns dos povos da Ucrânia (entregue a bandos fascistas e facínoras, depois de um processo de luta que não seria tolerado em nenhuma capital europeia, nem mesmo em Lisboa: quem se esquece do gravíssimo atentado à democracia cometido pelos polícias que subiram umas quantas escadas que dão acesso ao edifício da AR?). O massacre cometido na Casa dos Sindicatos de Odessa não foi um ato terrorista? Quantos milhões de pessoas se manifestaram contra ele? Os jornalistas assassinados merecem todo o respeito e toda a solidariedade do mundo. Mas os sindicalistas não merecem pelo menos idêntico respeito e solidariedade?
    Quantos milhões de pessoas foram (e continuam a ser) barbaramente assassinados e torturados no Iraque, na Líbia e na Líbia? Essas ações não foram atos de terrorismo? Quem criou e armou o bando dos “Amigos da Síria”? Estes ‘amigos’ não serão agora os ‘amigos do “estado islâmico”? Como em tantas outras situações da vida, o feitiço parece voltar-se agora contra o feiticeiro… Dramaticamente, talvez os ‘terroristas islamitas’, criados, doutrinados e pagos pelo ‘império’ atuem, sem se dar conta disso, por conta desse mesmo ‘império’, em todos os ‘estados islâmicos’ do mundo, em todas os ataques contra todos os Charlies em qualquer parte do mundo (no Mali, na Nigéria, na República Centro-Africana…).
    Quero deixar claro que, a meu ver, um ato de terrorismo não legitima (não torna lícito moralmente) outro ato de terrorismo. O terrorismo não pode justificar-se à luz da civilização. Mas talvez ajude a compreendê-lo (o sono da razão gera monstros!). O que é certo é que nenhum dos ‘terroristas’ comprometidos com os massacres no Iraque, na Líbia e na Síria vão ser chamados ao TPI, criado para ‘julgar’ os que são de antemão considerados os maus. E os crimes cometidos pelos que estão do lado dos bons não são crimes, são atos de heroísmo praticados em defesa da democracia.
    Esta ‘Europa civilizada’, que nos brindou (a nós e aos espanhóis) com trinta anos suplementares de fascismo, deu cobertura às prisões clandestinas semeadas pelos EUA em território europeu, verdadeiros Guantanamos onde muitas pessoas (quantas?) estão presas e são torturadas, anos a fio, sem culpa formada, sem acesso a advogado, sem contacto com a família, só porque os serviços secretos americanos decidem que assim seja (para combater o ‘terrorismo internacional’, é claro). Estes são crimes que deveriam envergonhar todos os defensores da liberdade, incluindo da liberdade de imprensa, em nome da qual, penso eu, os grandes órgãos da comunicação social silenciam estes e outros atos de terrorismo, as políticas sistemáticas e continuadas de terrorismo levadas a cabo por todos os Bush, por todos os Obama, por todos os Hollande-Sarkozys do mundo.
    Por alturas do ataque às torres gémeas, o jornalista Francisco Sarsfield Cabral escreveu (no Público, creio) uma nota em que concluía mais ou menos deste modo: dizem agora que o mundo vai dar combate ao terrorismo internacional; pois bem: eu fico à espera para ver o que vai acontecer aos paraísos fiscais, por onde passa todo o tráfico de armas, drogas, mulheres, etc., e por onde passam as operações de financiamento do terrorismo internacional; se nada lhes acontecer, terei de concluir que o mundo, afinal, não quer combater o terrorismo internacional. Pois bem. O que aconteceu aos paraísos fiscais? O negócio corre de vento em poupa, cada vez mais próspero.
    Olhando para a nossa Europa. Queremos maior atentado contra a democracia, contra a inteligência e contra a decência do que o desgraçado slogan tatcheriano NÃO HÁ ALTERNATIVA (TINA)? Querem maior obscurantismo do que isto? Isto não é uma nova Inquisição? Não é em nome deste dogma que se estigmatizam todos os que não concordam com ele e persistem em proclamar a sua fé na liberdade de pensamento dos homens? Não é em nome deste dogma que se vêm aplicando as políticas de austeridade salvadora, humilhando povos inteiros, num retrocesso civilizacional perigosíssimo? Não são estes dogmas que impõem os tratados orçamentais, com todas as suas ‘regras de ouro’ e outras de metais menos nobres, que matam a soberania dos povos da Europa e reduzem os ‘povos do sul’ a um indisfarçável estatuto colonial? Não são estes dogmas que, matando a soberania nacional, estão a liquidar o único quadro dentro do qual pode lutar-se pela democracia, pela liberdade, pela civilização? Estas ‘políticas terroristas’ não justificarão muito mais a unidade de todas as franças da Europa e do mundo contra aqueles que friamente as aplicam todos os dias e não apenas no desgraçado dia do massacre dos cartonistas do Charlie Hebdo? Não são estes os dogmas que todos os dias amordaçam a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa? Se metermos bem a mão na consciência, teremos de responder que sim: estes são os dogmas do pensamento único.
    Para não remar contra a maré, eu sou Charlie. Estou do lado dos que foram assassinados, não estou do lado dos assassinos. Mas estou também do lado de Mona Chollet, a jornalista do Charlie Hebdo que foi sumariamente despedida em 2000 por protestar contra um artigo do editor da revista (Phillipe Val) que chamava “não civilizados” aos palestinianos: então, a ‘liberdade de imprensa’ foi invocada para despedir uma jornalista, tendo-se conservado no seu posto o editor, substituído apenas em 2009 por Stéphane Charbonier, agora assassinado. E estou igualmente (que bom se estivéssemos todos…) do lado dos 34 estudantes que foram barbaramente sequestrados, torturados e assassinados pelas ‘autoridades’ mexicanas por quererem manifestar publicamente as suas opiniões. E estou do lado dos sindicalistas massacrados em Odessa. E estou do lado das vítimas do terrorismo praticado em todos os ‘civilizados’ guantanamos do mundo. E estou do lado de todas as vítimas do terrorismo, desde as vítimas do terrorismo de estado (“danos colaterais” de bombardeamentos ou vítimas de drones criminosos) às vítimas do fanatismo de todas as religiões e às vítimas do sectarismo classista das políticas praticadas em nome do argumento TINA, que vêm empobrecendo e humilhando povos inteiros nesta nossa europa do euro.
    Uma coisa é certa, para mim: ao contrário do que dia o nosso primeiro, em todas estas ‘guerras terroristas’ quem se lixa é mexilhão! Mexilhões de todo o mundo, uni-vos!

    António Avelãs Nunes

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