
I
Como aquela conversa começou não vos saberia eu explicar. Consolo-me pensando que, em Portugal, se é sempre difícil calcular no meio como uma conversa acabará, é quase absolutamente impossível determinar no fim como ela principiou. Nós, portugueses, pomos na mínima discussão tão pouca sequência de ideias, tantas incidências e repetições que quem se deite à cata do assunto que originou qualquer controvérsia melhor faria buscando uma agulha de bordar nos palheiros da Manutenção Militar.
Três horas batiam, cada uma por sua vez, no relógio da Estrela, que, coitado, a cair de sono, nem se podia defender, e eu estava cavaqueando em Santa Marta com o meu guarda-nocturno. Nessa altura falava-se de enguiços e superstições e isto a propósito do que sucedeu no Egipto àquele nosso velho amigo e correligionário lord Carnavon, que Deus tenha. Como sabem – e se não sabem é porque são analfabetos e não lêem as gazetas de grande circulação – lord Carnavon, que podia muito bem ter-se contentado em ser um inglês como outro qualquer, dera-se há muitos anos ao luxo de ser um egiptólogo muito distinto. Às pessoas que ignorem o que é um egiptólogo direi com a lealdade que me caracteriza que se trata de uma pessoa que se interessa pelo que se passa no Egipto. A quem não saiba o que é o Egipto e faça gosto em sabê-lo não tenho dúvida alguma em confessar que se trata duma região do nordeste de África, célebre pelas suas pirâmides do alto das quais quarenta séculos nos contemplam e pelo seu rio Nilo, cujas nascentes ainda não foram descobertas, o que faz com que seja considerado como um rio filho de pais incógnitos. O Egipto também dá nas vistas de que estude um mapa geográfico por ser banhado à direita pelo célebre mar Vermelho onde morreram afogados os exércitos que perseguiam os judeus no tempo da Bíblia. Mas, enfim, tudo isto são histórias que levariam muito tempo a contar. O caso é que lord Carnavon era egiptólogo inglês. Ora quando um inglês se interessa por qualquer coisa é sempre com a excelente intenção de tirar dela o maior proveito. Lord Carnavon e outros camaradas, tão egiptólogos como ele, partiram, pois, ultimamente para o Egipto em questão – em que estão os outros, visto que o Carnavon faleceu – e armados de variadíssimas picaretas e de reverendíssimas pás trataram de ir escavar o melhor possível nos mausoléus de vários Faraós e principalmente no do sempre chorado e estimado Tout-Ank-Amnon, que andou a reinar por aquelas paragens alguns milhares de anos antes de Cristo e cujas façanhas andam, na memória de nós todos, a par das de Keops, Kephren, Mikerinos e Ramsés Meiamum, mais conhecido pela sua alcunha de Sesostris. Estas histórias é que nos fazem velhos! Devo explicar ainda que, nessas eras remotas, era uso enterrar-se os mortos, com o que tinham de seu, com todas as suas riquezas, jóias e dinheiros.
Lord Carnavon e os seus doutos colegas pensavam que nos túmulos encontrariam preciosidades dignas de figurar nos museus de Inglaterra. Evidentemente, se egípcios anglólogos tivessem a fantasia de vir à abadia de Westminster meter o nariz nos túmulos dos reis de Inglaterra e nas jóias que estes levaram para o outro mundo, se pretendessem depois arrecadá-las para os museus do Egipto, os nossos velhos aliados enfiá-los-iam em Bedlam ou em qualquer outra sucursal britânica do hospitaleiro Rilhafóles, refúgio da nossa velhice. Mas, como os egípcios são boas pessoas e os ingleses meio donos daquilo tudo, lord Carnavon pôde desembarcar à vontade na pátria de Ramsés com o seu séquito científico e escavar tranquilamente nos mausoléus imperiais de cada um.
Dizem as gazetas – e eu acredito – que realmente foram encontradas verdadeiras obras de arte, pedrarias de alto valor, e tudo isto em quantidade tal que não chegavam para as transportar os camelos bípedes e quadrúpedes da caravana.
Mas, quando lord Carnavon impava de satisfação, eis que de súbito falece de morte misteriosa. Em vinte e quatro horas passou a ser um inglês defunto. Claro está que não era o primeiro súbdito de Sua Graciosa Majestade que morria tão depressa. Alguns há, mesmo, que têm morrido de repente para não perderem time, que is money, como sabeis. Mas aquela morte deu que falar. Diziam uns que o Faraó, cujo último sono ele fora perturbar, se vingara, como de resto estava anunciado, ao que parece, em inscrições encontradas nas paredes do túmulo. Outros porém, afirmavam que o lord falecera simplesmente vitimado pela dentada traiçoeira de certo mosquito venenoso que abunda na região.
(continua)
22 de Abril de 1923


1 Comment