
II
(conclusão)
Tudo isto eu relatara ao meu guarda-nocturno e este, que é um filósofo, não acreditava na vingança do Faraó.
– Cá por mim, – dizia-me ele, – antes vou pelo mosquito e já agora tenho pena de não poder mandar a minha patroa a banhos para o Egipto, que, pelos modos, é terra para a gente se livrar duma carraça. Os mosquitos de cá deixam muito a desejar. Nem com a colaboração das pulgas e percevejos conseguem tornar viúvo um homem de bem.
– Mas então você não acredita que o Faraó morto se vingasse? – insisti eu.
– Eu não.
– Você não é supersticioso?…
– Nem por isso. Os mortos, depois de falecidos, são tudo boa gente. O meu cunhado foi muito tempo gato-pingado. Agora puxa as cartas de monte numa batota pataqueira ali ao pé do Matadouro. Pois, durante muitos anos que lidou com defuntos, não teve que se queixar de nenhum e nunca ouviu uma má resposta. Alguns o que tinham de pior era serem muito pesados; mas quase sempre a culpa era do caixão de chumbo.
– Você então não acredita mesmo nada em almas do outro mundo?
– Tenho ouvido contar, como toda a gente, que há almas penadas que vêm à meia-noite, envoltas numa mortalha, arrastando cadeias e soltando ais e suspiros nas velhas ruínas abandonadas. Mas, aqui para nós, creio que tudo isso são histórias inventadas para meter medo às crianças e às mulheres sem graduação. De resto, quem tiver juízo vem para casa cedo no carro das onze e quarenta e cinco e escusa muito bem de andar fora de horas por sítios solitários. Fique-se com esta: um mosquito vivo é muito mais perigoso para um lord inglês do que um Faraó morto.
– Não crê, pois, nas vinganças de além-campa?
– Eu lhe digo… Acredito bem que alguns defuntos tenham vontade de se vingar dos que cá ficaram; mas não podem. Se pudessem, o senhor imagina, por exemplo, que os médicos tinham um bocado de sossego? Os ex-fregueses não os deixavam dormir…
– Você então não tem superstições nem enguiços.
– Enguiços é outra louça. Quem acredita em avantesmas e lobisomens é porque tem graxa de cor dentro da cabeça em vez de miolos. Mas enguiços!?… Isso são coisas muito sérias…
– Parece-lhe?
– Ora essa! Noutro dia foi sexta-feira e dia treze. Pois nesse dia ninguém me fez sair de casa. Se viesse à rua, era infalível que ficava debaixo dum automóvel ou mesmo duma carroça de lixo.
– Talvez não… Nesse dia andou muita gente passeando e não me consta que houvesse mais desastres que os da tabela municipal.
– É que os jornais não contam certas coisas para não alvoraçarem a gente. Deus me livre também de ver um marreco e não encontrar logo a seguir um polícia ou uma preta…
– O polícia branco e a preta de cor são contraveneno do corcunda?
– Olarila! E fique também sabendo que uma pessoa nunca deve passar por baixo duma escada de mão… É um azar burro e fatalidade certa. O único remédio é cuspir logo cinco vezes a seguir, mas sem falar nem tomar a respiração.
– Que me diz? Mas olhe que isso de cuspir cinco vezes puxa muita saliva.
– Deixá-lo! É preciso e quem não o fizer arrepende-se. Noutro dia ia eu com o meu compadre Fatias, que é calceteiro municipal sem trabalho, e pouco antes tinha-lhe eu estado a contar isto mesmo das escadas de mão e do cuspo. Pois, por azar, passámos por um prédio que andavam limpando e, tão entretidos íamos com a conversa, ele a dizer que eu era um trouxa e eu a responder-lhe que ele era outro, que sem querer deslizámos por baixo duma escada que estava encostada ao andaime.
– Quando demos por ela, eu, sem dizer palavra, desatei logo a cuspir. O Fatias pôs-se a fazer pouco de mim e a rir-se. Eu continuei no desenguiço. Como já tinha cuspido duas vezes para o chão, para variar cuspi numa madama que seguia adiante de nós, num sujeito que ia com ela e num menino que ambos levavam pela mão.
– Nisto o miúdo, que tinha visto a coisa, começa a chorar e a dizer:
– Ó papá! Aquele senhor cuspiu-me no fato novo…
– O pai volta-se para trás indignado e dá com a gente. Eu cá, já se vê, ia muito sério, porque o preceito é, como sabe, cuspir e não dizer nada. Mas o meu companheiro ainda se estava a rir. Ah! meu caro amigo! Que tragédia! Que azar para o Fatias, livre pensador!… O pai do menino avança para o meu compadre, despacha-lhe uma solha nos queixos, logo a seguir finfa-lhe um pontapé no estômago e para sobremesa ia assentar-lhe tal bengalada na lezíria dos piolhos, que, se não vem um polícia e o Fatias não se põe a cavar em quarta velocidade, a estas horas andava a família dele à procura dos bocados para os pegar com grude…
22 de Abril de 1923
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Para ler a parte I de Enguiços e Superstições, de André Brun, publicada domingo passado em A Viagem dos Argonautas, vá a:

