A CHACINA SOBRE CHARLIE HEBDO NO CONTEXTO DA CRISE EUROPEIA – 4. O RISO DA HIENA, por MICHEL LHOMME

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A chacina sobre Charlie Hebdo no contexto da crise europeia.

4. O riso da hiena

Michel Lhomme, LE RIRE DE LA HYENE

Revista Metamag,  10 de Janeiro de 2015

Mas no horror procuram ainda e sempre algo de positivo. “Eu sou Charlie”, ”Nòs somos todos Charlie” mas, tê-lo-ão notado, em todas as informações ao início, vejamos por exemplo o fio dos acontecimentos vistos por Europe 1, é quase como se não se dissesse que eram muçulmanos, apenas que eram islamitas (os nomes de família ao princípio tinham sido escondidos, o que nunca fazem em relação às notícias correntes que têm a ver com os franceses de origem). No mês de Dezembro, verificaram-se uma série de agressões islamitas sucessivas em Joué-lès-Tours, em Nantes, em Dijon mas para os procuradores da República e da imprensa, tratava-se apenas de actos de desequilibrados, a crer que Freud se tinha esquecido no Futuro de uma Ilusão de definir uma neurose bem particular, a neurose jihadista. Pior ainda, no decorrer da sua alocução solene de crise, François Hollande conseguiu a proeza de não falar nem em islamismo nem em islão. Trata-se pois de um  « terrorismo » misterioso e anónimo que massacrou a redacção de Charlie Hebdo e  assassinou dois polícias.

O  que é que nos querem fazer crer

Que os assassinos não são « loucos de Alá” saídos da imigração? A redacção de Charlie Hebdo  não foi atacada por pessoas adversárias da imprensa. Ela foi atacada pelos adversários do Ocidente e dos nossos valores. Não se andou, nestes últimos anos, a pagar aos investigadores para minimizar o fenómeno, a islamização do país, a islamização da França um mito, um fantasma de paranóia, para o sociólogo Raphaël Liogier. Era mesmo há pouco “ uma obsessão colectiva”. Era e é falso.

Islamismo é hoje uma força política francesa que apesar deste dia de luto nacional continua e continuará a sua ancoragem, o seu movimento de penetração numa juventude imigrada francesa deixada ao abandono do soporífero pensado que é o anti-racismo militante de uma Educação desnacionalizada. Da confrontação que se prepara na França, falamos nela desde há mais de trinta anos.

O que tem de ficar claro, é que a Esquerda política e intelectual já teve o seu tempo. Quanto à direita dita moderada ou de governo, mesmo que esta namorisque hoje com o fundamentalismo católico e a Manifestação para todos certamente que não tem nada a invejar-lhes. A direita moderada desde há vários anos que não faz outra coisa que não seja baixar-se, negociar por toda a parte – veja-se Alain Juppé em Bordéus com a sua grande mesquita, Sébastien Chenu em Beauvais -, preconizar a negociação com os terroristas, indo mesmo ao ponto, quando estava no poder, de aceitar pagar resgates para libertar os reféns e fazer subir as sondagens de opinião (governo Sarkozy). Ora, a política é um todo: não se pode defender ou combater hoje o que nunca se defendeu nem combateu ontem.

Para Alain Juppé exactamente antes do atentado sobre a Europa-1, a islamofobia era um perigo mortal. “É um perigo de guerra. Não se deve deixar desenvolver este movimento detestável (…)  não se pode deixar propagar esta amálgama entre uma forma bárbara de Islão que é o integralismo e o conjunto dos muçulmanos”. Evocava mesmo e contra tudo o que é bom senso “um Islão das Luzes”. Ora, a distinção entre muçulmanos moderados e integristas não tem nenhum sentido. A noção de laicidade não existe no Islão. “Os moderados” têm a mesma religião, a mesma cultura, a mesma origem étnica que os integristas. Vão à mesma mesquita, pertencem às mesmas famílias e habitam os mesmos bairros. Certamente, não são cúmplices dos terroristas mas partilham em parte as mesmas análises considerando que os Ocidentais têm uma parte de responsabilidade no terrorismo (devido à escravidão e à colonização, à dominação económica que exercem sobre “os países pobres” mas também e sobretudo devido às  guerras do Iraque, às intervenções na Síria, na Líbia e em  África).

Mas então o que há de fazer amanhã?

Como na Alemanha e na Itália, será que em França se pode desencadear um ponto de não retorno na tolerância do Islão? Até a Frente Nacional o teme, calada desde há semanas sobre o movimento Pegida. “Somos o Povo”. Seria com efeito para o poder em exercício, para o establishment, o pior cenário, aquele que os intelectuais em serviço encomendado temem desde há anos. Ora, gritar “somos o povo”, não é no entanto uma manifestação de xenofobia. De resto e poucos o terão notado, os Alemães de Dresden não gritam “nós somos o povo alemão”. Reclamam simplesmente serem ouvidos e compreendidos pelos poderes em exercício no local.  Dizem que a política de imigração não deve ser decidida a partir de cima, sem os cidadãos e contra eles.

Em pânico, trata-se para o governo e na urgência de procurar o mais rapidamente possível uma forma de captar, canalizar, domesticar a reacção popular para bloquear a pressão para o conflito e fazer com que se entre na cama universalista. É com este objectivo, sem dúvida, que se convida Marine Le Pen para o Eliseu e que esta lá vai! Mas sublinhemos, nunca, nunca para todo o sempre, não é aqui questão de nos interrogarmos: qual é a política árabe da França? Porque é que a França com o peso de uma população muçulmana importante escolheu, contra os seus interesses,   passar a atacar a Síria, a desmontar a Líbia, a bombardear o Iraque? O atentado contra Charlie Hebdo não é um atentado interno mas uma acção internacional. É, de resto, da  Al Qaida do Iémen que se reclama um dos assassinos. É uma política internacional de servilismo atlantista que é a verdadeira causa. É necessário por conseguinte dizer que uma outra política e uma outra  relação teria sido possível com o Islão se por exemplo se se tivesse seguido na esteira de Dominique de Villepin. Ora o que é por conseguinte uma política criminosa se não uma política que se esforça e muito contra a sua realidade demográfica para criar um inimigo do interior?

A política estrangeira da França foi maquiavelicamente organizada no Quay d’Orsay ela apoiou-se sobre a aliança diplomática e económica com o Qatar e a Arábia Saudita. Tomou a decisão de não se afastar uma polegada que seja da política americana de instrumentalização do Islão cujo objectivo explícito é o de desintegrar e redesenhar o Grande Médio Oriente. A França escolheu deliberadamente uma política de guerra aberta contra a civilização islâmica. Podia ter feito outras escolhas.

Sendo assim, a situação de segurança do país reclama agora medidas corajosas para evitar ao povo francês as consequências previsíveis de uma confrontação trágica de forças religiosas e ideológicas antagónicas agora realmente em presença e desencadeada sobre o solo da França. Para ganhar o combate contra o terrorismo, importa primeiro que tudo ter a postura militar. É necessário uma Nação-Exército. Não se luta contra o terrorismo acendendo velas ou proclamando a tolerância para com o Maghreb.

É muito tarde

A única postura que pode valer alguma coisa, será agora a da linguagem da vitória ou da derrota mas sobretudo não esta do ABC da igualdade, das medidas de discriminação positiva ou da carta da laicidade que se acama aceitando os véus integrais nos autocarros escolares ou nos mercados públicos. Se for necessário mobilizar então sim, é necessário arrancar os véus, prender, inculpar, expulsar. Não há modelo alternativo ao combate e à guerra se este é interno.

Apela-se à união nacional mas como é que poderá haver união nacional com uma classe dirigente que organizou a submissão atlantista? Como é que poderá haver união nacional com os funcionários que aplicam com zelo a política  imigracionista, militantes associativos que a esta política servem de ligação e de suporte com entusiasmo? Como falar de união com pessoas que traíram e sabotaram a identidade da França desde há anos? Porque a França vai encontrar-se confrontada com o seu recente passado. E este é feito de quê? De permissividade por todos os seus poros em nome da paz social, tecida por um laxismo sem limites em segurança interna, na gestão dos bairros, pela sua indiferença mortal ao que se passa na escola. No entanto, vê-la-emos rapidamente a espalhar a boa notícia de uma segurança máxima nos objectivos e nos comportamentos num caminhar a passo, num afinamento cultural, de todos os pensamentos identitários em nome de um cadinho comum e de uma união proclamada contra todos os extremismos. Na prática, o social-liberalismo sempre teve o hábito de violar o princípio que lhe concede a sua legitimidade porque não pode criar as condições de universalismo que ele próprio supõe. O social-liberalismo divide. Aqui, já não se trata somente de política internacional mas também da política económica do governo. Esta política da austeridade permanente implantou subtilmente, através duma política de desindustrialização programada tendo como pano de fundo a moeda única e as directivas administrativas de todo um sistema de exclusão social, de discriminação nacional invertida que perpetua as injustiças e impede toda e qualquer redistribuição legal. Favorecendo a lógica do desenrasca, do mercado negro, a economia subterrânea dos delinquentes, criou as condições da desintegração do país, terreno fértil para o islamismo actual.

Mas nestes dias de hoje não se falará nem de raça, nem de religião, nem de imigração, nem de delinquência. Não se evocará nem a assimilação falhada, nem o comunitarismo. Chafurdar-se-á simplesmente na lama de um clima hostil à liberdade. Não se virá de forma nenhuma repor tudo no seu lugar face aos prefeitos e colocar em questão as políticas organizadas do silêncio, políticas impostas nos comissariados ao longo dos anos em que se procurou minimizar todos os faits-divers comunitários como se estes fossem apenas histórias insípidas de gatos a esticar o pernil. A França tem agora medo de se ver mergulhada no precipício e infeliz, quer ainda ignorar os modelos alternativos que no entanto e muito frequentemente aqui expusémos. Por todas as razões, a França enterrará os seus caricaturistas baixando ainda a cabeça, impedindo as promessas ou as esperanças de mudança e de transformação radical, de afastamento dos traidores. Toda a geração política dos governos UMP e PS, a drauche (conjunto esquerda e direita do arco do poder) deverá cedo ou tarde ter de abandonar a cena. Terão sido a vergonha da Quinta República porque tinham herdado através de De Gaulle instituições sólidas.

charlie hebdo - IIINo momento grave que é o nosso, todos os comportamentos da oligarquia política e intelectual nos fazem lembrar um pouco o sorriso da hiena. A hiena assemelha-se a um cão grande mas, como se sabe, é um felino, um gato selvagem conhecido pelo seu grito, um grito que se assemelha a uma  risada  desagradável, uma risada  que emite apenas quando encontrou alimento, quando encontra a sua presa. Quando as hienas saem em grupo muito numeroso, não têm um adversário específico e estão na maior, não se ouve no deserto ou na savana senão as suas risadas desagradáveis em conjunto. Mesmo se não houver já ninguém para as desenhar, nós não gostamos destas risadas da hiena porque há sempre como um inferno em chamas no corpo das  hienas. Os seus excrementos mediáticos e políticos têm a cor das cinzas brancas, as que nada consomem, que não solucionam nada mas que consomem em silêncio o mal que fizeram.

Michel Lhomme, LE RIRE DE LA HYENE, Revista Metamag, Janeiro de 2015.

Texto disponível em:

http://metamag.fr/metamag-2557-LE-RIRE-DE-LA-HYENE-.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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