Forte de São João Baptista da Foz do Douro Fot. JM
Ninguém me tira da ideia que o início da construção do Castelo da Foz, em 1571, no reinado de D. Sebastião, foi ainda e mais uma perseguição “post-mortem” a D. Miguel da Silva, o malogrado Bispo de Viseu.
No período em que exerceu o bispado de Viseu (1526/1540) e teve domínio sobre os beneditinos do Mosteiro de Santo Tirso, fez construir à boca do rio, onde, ao tempo de Afonso Henriques, existira uma ermida, um notável conjunto edifícios que assinalam o início da arquitectura renascentista em Portugal: a igreja e o palácio, hoje enclausuradas no Castelo, e, mesmo junto ao rio, a Capela-farol de S. Miguel-o-Anjo.
A construção do Castelo e o desmazelo para com as obras do “’amigo de muitos Papas” quase que varreram esse conjunto notável de construções.
Formado em Paris e em Itália, o jovem clérigo cedo mostrou capacidades inabituais que o levaram a papel de importância, quer em Portugal, quer na Roma papal. D. João III, esse rei sisudo e beato, nunca lhe perdoou a consideração que desfrutou na corte de vários papas, que o distinguiram com benesses e amizade, assim como a relevância intelectual, provada, entre outros, com a dedicatória de Il Cortegiano (1528), de Baltasar Castiglione.
Em Roma, como embaixador de D. Manuel I e depois de D. João III, teve papel cultural de relevo, embora nunca tenha conseguido, seguramente por convicção contrária, a autorização do estabelecimento do tribunal da Inquisição para Portugal. Esse elemento, mais o facto de ter sido nomeado cardeal quando o Rei procurava esse cargo para um familiar, aliado às invejas próprias a uma indigente corte, em Lisboa, levaram João III a tentar prendê-lo. Avisado a tempo, foge para Itália onde acabaria os seus dias, parece que sem a opulência de vida anterior, mas com um estatuto intelectual sempre crescente.
Rasurado de nacionalidade, proscrito pela sua pátria, D. Miguel da Silva é um dos “desconhecidos” mais conhecido de Portugal. Muito se sabe (p.e., foi o mecenas de Vasco Fernandes – o Grão Vasco e introduziu Francisco de Holanda em Roma) mas muito se desconhece acerca desta figura grande do Renascimento. Os séculos que se seguiram viveram com o estigma persecutório que O Piedoso lhe imprimiu. A sua obra jaz ainda semiobscura em entrelinhas de teses académicas e citações avulsas. 2015 poderá ser uma ano da sua aparição como personagem central do Quinhentos nacional. Nós faremos por isso.