Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A quantitative easing de Draghi: uma saída da crise ou o último prego no caixão da Ruropa?
9. O programa QE de Draghi é um acto de desespero para salvar o Euro
Manuel Zarli, Il QE de Draghi è la mossa della disperazione per salvare l’Euro
Forexinfo.it, 25 Janeiro de 2015
Quais serão os efeitos do programa Quantitative easing lançado por Draghi ?
O facto é que o programa QE apresentado por Draghi recolheu os aplausos e apoios quase que unânimes de toda a gente. Pena é que até há muito pouco tempo Draghi negava o risco de deflação na Europa [1]:
“O principal inimigo da Europa é o desemprego”. O presidente do BCE Mario Draghi promete dar da batalha à hemorragia de postos de trabalho, mas recusa qualquer generalização : “na zona euro não vemos riscos de deflação”, e “já disse várias vezes que a retoma é modesta, fraca, mal distribuída e frágil, mas não estamos em recessão”. “
E nós aqui a enaltecer Mario Draghi e as suas capacidades de operar milagres
Mas o que é a QE?
Trata-se do acrónimo de Quantitative Easing: uma medida extraordinária de relançamento da economia em que se pretende descer o custo da dívida dos estados e as taxas de juro, querendo-se igualmente relançar o mercado do crédito e parar com a deflação. Em termos práticos, o BCE adquire [ no mercado secundário] os títulos da dívida pública, com maturidades compreendidas entre os 2 e os 20 anos, a uma cadência de 60 mil milhões por mês desde o próximo mês de Março até Setembro de 2016 para um total de 1140 mil milhões de euros. É de observar que não se trata de uma cadência precisa mas de uma possibilidade: se a inflação não se situar em torno dos 2% a operação continuará. O BCE quer assim mostrar poder continuar a operação com a clara intenção de bloquear antecipadamente a hipótese de ataques especulativos. .
A recompra dos títulos de dívida pública prevê um critério de repartição dos riscos. Os Bancos centrais dos países interessados garantem uma percentagem de compra de 80% e apenas os 20% serão garantidos pelo BCE. Para além disso, o s BCE não poderá comprar títulos mais de 33% da dívida de cada país e por cada emissão não poderá comprar mais de 25% dos títulos colocados no mercado. A aquisição de títulos , enfim, será proporcional à quota de cada pais no capital do Banco Central Europeu (Alemanha, a França e a Itália representam respectivamente 26%, 20%% e 17%) ). No conjunto, a quantidade de dinheiro investida parece ser exígua e à qual uma verdadeira partilha do risco, o que revela a natureza de compromisso deste programa. Mais que pragmático, defino este programa como cerchiobottismo puro e simples, ou seja como o produto de um como corifeu do pensamento equidistante de tudo.
As duas estradas no fim do caminho
A QE é tudo menos a solução de todo e qualquer problema que atinge a zona euro tendo em conta que não põe a mão em nenhum dos seus problemas estruturais (diferença de competitividade, perda da capacidade de variações cambiais, falta de unidade e de uma séria direcção política ). O próprio Draghi convida-nos a continuar no caminho das suas fantasmáticas reformas. [2]:
“Cada Estado-Membro, escreve Draghi, deve estar “na posição de poder tirar benefício” do mercado comum “para atrair capital e criar postos de trabalho. Para isto há necessidade de reformas estruturais que promovam a competitividade, desmantem a burocracia e aumentem a capacidade de ajustamento dos mercados de trabalho “. No entanto, sublinha o número um da Eurotower, uma união económica baseia-se num interesse comum: para isto há argumentos de peso a favor do exercício em conjunto da soberania nesta área, no âmbito de uma verdadeira união económica. Uma integração mais estreita, prossegue Draghi, permitirá mesmo uma melhor partilha do risco no sector privado. “A divisão do risco”, avisa contudo o presidente do BCE, “exigiria sobretudo um reforço dos mercados dos capitais, em especial dos mercados dos bens de investimento; para isso devemos progredir rapidamente com a união dos mercados de capitais .”
Traduzo [é a leitura do autor do texto às afirmações de Draghi]: Draghi aponta para a realização de uma verdadeira união económica e política até a chegar à criação dos Estados Unidos da Europa. Os requisitos são conhecidos: um único mercado do trabalho, uma única estrutura social e política. Sobre o fundo, contudo, deve mesmo existir uma estrutura em condições de compensar os diferentes níveis de produtividade das diversas partes da EU. Trata-se das famosas transferências monetárias que na Itália assumem a forma das dezenas e dezenas de milhares de milhões de euros que criados no Norte se distribuem no Sul sem que esta transferência tenha efeitos positivos sobre o tecido socioeconómico do Sul.
Este é um dos caminhos possíveis, mas há aqui algumas dificuldades. Esquecendo que entre as populações europeias não se nota nenhum entusiasmo europeísta , os alemães opõem-se ferozmente a qualquer transferência. Mesmo a QE não é do agrado dos alemães [3]: “Uma escolha errada. Nenhum decisivo ponto de viragem na situação. Jens Weidmann, número um do Bundesnbank não votou a favor do programa Quantitative Easing lançado pelo BCE e reafirma a sua posição. “Para mim – afirma o presidente do Banco central alemão em entrevista ao Welt Am Sonntag publicado por República – esta decisão é em todos os sentidos muito grave. As recompras de títulos soberanas não são um normal meio de política monetária, porque no âmbito da União monetária são ligados à particulares desvantagens e riscos. Abaixo de certo limiar, não deveriam ser possíveis, ou então este limiar devia ser muito alto “.”
Visco, por seu lado, defende que [4]:
”Devemos partilhar os riscos’. É isto que afirma o governador do Banco da Itália Ignazio Visco à Bloomberg TV. Visco defende que ” o plano do BCE mostra determinação’ ‘e confirma que dentro do board houve ” discussões sobre quando deveriam começar as recompras”. Em todo caso – explicou – o QE “funcionará na prática”.”
Um elemento que não foi muito citado por parte dos meios de comunicação social é que a recompra dos títulos depende mesmo dos rating dos títulos do Tesouro. Actualmente a Itália esta exactamente um grau acima do exigido, mas no caso de uma desclassificação na sua notação deveria aceitar o commissariamento por parte da Troika. Tudo isto nos leva ao segundo possível caminho: a dramática explosão da zona euro. Para além das eleições gregas, nos dois próximos anos teremos as eleições políticas francesas e o referendo inglês sobre a permanência na EU. Sem estar a considerar que, como o caso grego ensina, as reformas mitológicas da Troika não são outra coisa que um açougue social destinado a agravar os problemas e não a resolvê-los. Uma Itália commissariata não alcançará o paraíso mitológico das reformas mas irá apenas pregar o último prego no caixão do país.
E então ?
A impressão é que esta é talvez a última cartada jogada por Mario Draghi e pelo BCE para tentarem resgatar no último momento esta barraca que é a zona Euro. Não sei porquê, mas não me arrisco a colocar a seguinte questão: e depois do programa QE? O que se fará ?
Manuel Zarli, Il QE de Draghi è la mossa della disperazione per salvare l’Euro
Texto disponível em:
http://www.forexinfo.it/Il-dilemma-alla-fine-del-sentiero?lang=it


