EDITORIAL – O eleitorado de Podemos, não é como se pensava

Imagem2Um estudo sobre o perfil dos votantes no Podemos, publicado hoje no El País, diz-nos alguma coisa sobre o fenómeno que parece estar a esboçar-se no seio das democracias ditas representativas da Europa e talvez tenha alguma coisa a ver com a realidade do eleitorado português e com a sua recorrente incoerência de votar alternadamente em dois partidos que provaram à saciedade estar invadidos por oportunistas, por corruptos, por incompetentes, que não estão na política para servir, mas para se servir.

Uma realidade social, económica semelhante à portuguesa, embora com índices superiores em algumas das suas regiões, com uma cultura moldada em realidades históricas que se entrecruzam, o Estado espanhol pode, em certos aspectos, servir de banco de ensaios para Portugal. O Podemos não parece ser fenómeno passageiro, avançando de forma particularmente rápida nas nações que estão submetidas à autoridade central de Madrid, na Catalunha, País Basco e Galiza, con mais de 25% de aumento da intenção directa de voto que se verifica depois das eleições europeias. Diz o jornal: «Se esta tendencia se mantiver, Podemos transformar-se-á num dos grandes actores do vindouro sistema de partidos, favorecendo o desaparecimento do tão desprestigiado bipartidismo».

E o artigo salienta as múltiplas especulações sobre o perfil dos votantes na nova formação, tendo prevalecido a ideia e que se trata de gente jovem, urbana, com estudos superiores e utilizadora activa das novas tecnologias como fonte de informação política. Porém, os resultados da sondagem desmentem este cliché – idade média superior aos 45 anos, com um nível de qualificação académica abaixo da média obtida pelo eleitorado do PSOE e do PP, embora superior à dos votantes nas formações de esquerda. Também não está melhor informado sobre política e utiliza os meios de comunicação tradicionais com menor frequência que os votantes de outros partidos para se informar sobre política.

Ultrapassando as comparações sobre o uso das redes sociais, e indo à questão da naturalidade e da residência, o carácter maioritariamente urbano atribuído aos votantes na nova formação não se confirma, pois mais de metade reside em núcleos com menos de 50 000 habitantes, percentagem de ruralidade superior à do PSOE. E saltando outros pormenores irrelevantes nesta comparação, a sondagem desfez também o mito de que os apoiantes de Podemos são gente «mais de esquerda» do que os militantes da IU ou do ERC. A ideologia média dos que hoje votariam em Podemos, está mais à direita do que a dos votantes na de IU, situando-se maioritariamente na mesma posição ideológica que os do PSOE. A crescente massa de apoiantes na nova formação parece não valorizar demasiado a questão ideológica, sendo gente que, noutras circunstâncias se absteria de votar, mas que responde à péssima situação económica e aos escândalos de corrupção, bem como à arrogante incompetência dos políticos, demonstrando o seu apoio a uma formação que se afirma de ruptura com o sistema. Objectivamente, as condições do universo eleitoral português serão semelhantes. No entanto, as formações políticas que por aqui vão aparecendo, denunciam os vícios do carácter representativo do nosso sistema político, mas apenas aduzem argumentos ideológicos, não rompendo com a praxis instalada. As pessoas querem viver melhor. Estar desempregado, ter cuidados de saúde de má qualidade, um ensino deficiente, é mau, seja o governo mais de esquerda ou mais de direita. Os slogans partidários não alimentam. Passar fome, seja em nome de uma ideologia de direita, de centro ou de esquerda, é sempre doloroso. O direito de ser feliz, é aquilo que o comum dos mortais pretende conseguir.

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