ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – SYRIZA E A INDEMNIZAÇÃO DA GUERRA DA FRANÇA COM A PRÚSSIA em 1871-73, por MICHAEL PETTIS – II

Falareconomia1 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Entre a força assassina de um golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um david (a Grécia do Syriza)…

Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em   1871-73

Michael Pettis, Syriza and the French indemnity of 1871-73

Blog, m. pettis, 4 de Fevereiro de 2015

(continuação)

IIª Parte – Os beneficiários  de transferências

Espantosamente a  França foi suficientemente capaz de levantar nos “mercados” o dinheiro muito rapidamente, muito dele  na forma de dois empréstimos obrigacionistas internos  em 1871 e 1872, que foram fortemente  subscritos. Penso que um dos estudos mais completos sobre a indemnização francesa  é um pequeno livro de  Arthur Monroe publicado  em 1919(3). De acordo com Monroe, a primeira edição de 2 mil milhões em rendas  perpétuas  foi emitida em Junho de 1871, apenas   48 dias depois de  o Tratado ter sido assinado e o empréstimo foi fortemente  subscrito. A segunda emissão   foi ainda mais bem sucedida:

“Treze meses depois de ser anunciado o primeiro empréstimo, o governo abriu inscrições para um segundo, desta vez para três mil milhões, novamente com  5 por cento de rendimento,  mas emitido em 1872. A resposta a esta emissão  foi surpreendente, com a procura a ser mais do que doze vezes a quantidade desejada e em que mais de  metade da  procura era  proveniente de países estrangeiros.”

Monroe refere  que ” é um elogio de modo nenhum pequeno para o crédito da França na altura  registar  que  cerca de um terço das subscrições estrangeiras eram da Alemanha”, de modo que  quando pensamos sobre a transferência de liquidez  para a Alemanha, foi na verdade menos de 5  mil milhões de francos ouro. Embora Monroe diga  que mais de metade de subscrições  vieram de fora da  França  e em que um terço era de origem  alemã, com uma procura 12 vezes superior à oferta,  é impossível para mim calcularquanto era realmente alocado aos compradores alemães, e portanto não disponho  de  nenhuma estimativa da quantidade para que os  5 mil milhões devem  ser ajustados.

Os pagamentos foram feitos em forma de letras de câmbio e, num grau menor, em  ouro, prata e notas de banco, e Berlim recebeu o pagamento completo em 1873, dois anos antes do fim programado. Foi nessa época que a Alemanha entrou  totalmente para o padrão-ouro, e obviamente esta enormíssima indemnização não só tornou  possível  a esta  entrada mas tornou-a igualmente mais fácil. Também garantiu  a credibilidade da moeda quase desde o início, e isso pode abalar alguns leitores modernos por ficarem a  saber que na época a credibilidade monetária não era considerada como estando instando inscrita no ADN alemão e,  assim,  a credibilidade adicional era bem-vinda.

O que é que  tudo isto tem a ver com o Syriza? Há algumas semanas atrás estava eu a discutir   com um grupo de estudantes da Universidade de Pequim  à volta da   ideia de Charles Kindleberger  de um “deslocamento”, e propus, como o faz Kindleberger, que a indemnização de 1871-73 francesa fosse considerada como  um exemplo excepcionalmente  útil de um deslocamento,  a partir do qual podemos aprender muita coisa sobre como se podem gerar crises financeiras (4). Então  ocorreu-me que as reparações francesas e o seu impacto sobre a Europa poderiam também    dizer-nos muita coisa sobre a crise do euro e, mais especificamente, porque é que as políticas salariais distorcendo a taxa de poupança na Alemanha na primeira metade da década passada teriam levado quase inexoravelmente às  distorções da balança de pagamentos que podem eventualmente levar à destruição do euro.

E neste caso é um feliz acaso  que a indemnização francesa  tenha  acelerado a adopção  pela  Alemanha do padrão-ouro, pois as enormes transferências da  Alemanha para a Europa periférica foram, provavelmente, necessárias  para muitos desses países poderem adoptar  o euro, nalguns  aspectos, a sua própria versão do padrão-ouro. Antes de saltar para as razões que me levam a pensar que a indemnização francesa  é relevante para a crise grega, quero aqui sublinhar  rapidamente  três pontos :

  1. Eu analiso de modo mais aprofundada a maneira  como a França levantou o dinheiro o que pode ser  necessário para o propósito deste texto,  pois que  isto realmente ilustra um ponto potencialmente muito útil no presente trabalho, como iremos ver. No primeiro terço do meu livro de 2001 (5) discuto amplamente qual o papel histórico da liquidez global sobre a evolução das contas nacionais patrimoniais e nas crises de dívida soberana. Um ponto importante é o de distinguir entre crises financeiras que ocorrem dentro de um ciclo de globalização e aqueles que terminam um ciclo de globalização. Enquanto estas últimas são muitas vezes devastadoras e marcam  o fim de muitos anos de crescimento económico, as primeiras  – como a crise Tequila 1994 ou a crise asiática de 1997, ou até mesmo a crise Overend Gurney 1866 – podem parecer esmagadoras à primeira vista mas os mercados sempre recuperaram e de  longe  muito  mais rapidamente do que o esperaram  a maioria dos  seus participantes. Quando os mercados estão muito líquidos   e em fase de  alavancagem  crescente, eles podem absorver grandes massas de obrigações de dívida e com muita facilidade, porque podem  até mesmo transformar essas obrigações em “dinheiro”, que quase parecem ser um meio de  autofinanciamento.

O período 1858-1873 foi um tal “período de globalização”, com as  típicas  características da  “globalização”: crescimento explosivo em comunicações de alta tecnologia e meios de transporte (principalmente ferroviários), fazendo aumentar o valor  das acções e o mercado  do imobiliário, com um comércio internacional crescente, e uma vaga  de saída de capitais do Reino Unido, França, Holanda e de outras partes da Europa para os Estados Unidos, América Latina, o Extremo Oriente, o Império Otomano, e outras “fronteiras” financeiros. Eu diria que é por esta razão  que, apesar da expectativa de Berlim, de que a indemnização iria  paralisar a economia francesa, foi surpreendentemente fácil para a França conseguir levantar o dinheiro e a sua economia poder  continuar a funcionar. A Alemanha, similarmente, debatendo-se  sobre  muitos aspectos das reparações da Iª Grande Guerra,  mas já depois de 1921-1922, quando os mercados globais começaram a viver a sua década de boom na globalização, impulsionada pelas poupanças da  economia dos EUA extraordinariamente altas (e caracterizada pela sequência de globalização familiar: a electrificação da indústria americana, a propagação de telefones, automóveis, rádios, cinema e outros meios de comunicação e das tecnologias de transportes, os fluxos de comércio e de capitais internacionais em expansão, a mania do sector  imobiliário na  Florida, os booms nos mercados  de acções, e, claro, a ascensão à fama de um Charles Ponzi), a Alemanha, veio a encontrar-se na situação de facilidade em captar poupanças nos mercados de capitais, o que se tornou famoso  como sendo uma  parte do processo de reciclagem nas reparações de guerra – até, é claro, ao aparecimento da crise bancária global de  1930-1931, após o que a  Alemanha foi forçada a entrar em incumprimento. Isto pode ser relevante se nós quisermos pensar sobre qualquer possível reestruturação  das obrigações soberanas da Europa no  futuro. Qualquer tentativa de avaliar os seus impactos com base em precedentes históricos precisos deve  distinguir entre períodos de ampla liquidez e os períodos radicalmente diferentes de escassez de capital. Uma vez que a contracção da liquidez comece, cada processo de reestruturação da dívida será brutalmente doloroso, ao contrário de agora,  em que estas dívidas soberanas   são  facilmente absorvidas,  quase sem pensar.

  1. Eu explico no meu livro que a indemnização francesa aumentou na verdade a liquidez global, expandindo a oferta global de activos de alta liquidez, activos tão líquidos  “como moeda”. É claro, a oferta de moeda da Alemanha aumentou no  montante da transferência (não o valor total, porque uma parte das subscrições de títulos franceses veio  da Alemanha), mas isso não foi compensado por uma redução igual na oferta de  dinheiro em  França. A criação de um enorme instrumento  caracterizado por uma  altíssima   liquidez   e credibilidade, as duas emissões de obrigações francesas, envolveu  a criação de “dinheiro” no sentido de Mundell. Enquanto a transferência de dinheiro da França para a Alemanha pode ter parecido sistemicamente neutra, na verdade, resultou num  aumento sistémico da  “moeda ” global.

  2.  A partir de uma análise “pelos activos”, como discuti anteriormente, a transferência de capital durante mais de três anos a partir de França para a Alemanha é equivalente a mais de 20% do PIB anual de um ou outro país,  teria tido  impactos muito previsíveis – e estes devem ter sido  muito negativos para a França, como Berlim esperava, e muito positivos para os alemães.  De facto, os resultados reais terão sido muito diferentes. Isso ocorre porque há condições monetárias e económicas em que a estrutura do passivo importa muito mais, e condições em que isso importa muito menos. Os economistas e os políticos que os aconselham são demasiado rápidos a ignorar essas diferenças, talvez porque  estas não estejam  tão bem formuladas quanto a  compreensão de balanços na  teoria económica  como na teoria financeira, de modo que quando alguém como Yanis Varoufakis propõe que existem maneiras em que  um perdão parcial da dívida aumenta o valor económico global, em vez de apenas criar perigo moral, os altamente  preocupados  economistas muitas vezes recuam horrorizados perante esta hipótese, enquanto os especialistas em finanças ou os especialistas em falências  (e uma enorme quantidade de gestores de hedge funds) encolhem os ombros face a uma declaração tão óbvia.

É principalmente o terceiro dos três pontos acima que é o mais relevante  para a discussão actual sobre obrigações soberanas europeias. Alguém poderia à primeira vista pensar que a  indemnização da França, com quase 23% do PIB ao longo de  três anos, poderia ter sido devastadora  para a economia. Isto certamente deixou a França com um pesado encargo de  dívida, mas o seu impacto económico imediato não era assim tão mau  quanto se poderia esperar. A avaliação apresentada por Wikipedia é muito parecida  com o consenso entre os historiadores:

Foi geralmente assumido na época  que a indemnização poderia paralisar a França por trinta ou cinquenta anos. No entanto, a Terceira República, que surgiu depois da guerra, embarcou num ambicioso programa de reformas, introduzindo bancos, construindo escolas (redução do analfabetismo), melhorando  estradas, criando linhas ferroviárias,  em áreas rurais, incentivou a indústria e promoveu a identidade nacional francesa, em vez das  identidades regionais. A França também reformou o exército, adoptando  o serviço militar obrigatório.

Muito mais interessante para mim é o impacto da indemnização  à Alemanha. A partir de 1871-1873 enormes quantidades de capital  saíram da da França  para a Alemanha. O afluxo destes capitais à Alemanha  levou à existência de  défices  adversos na  balança corrente para a Alemanha e o sector industrial da Alemanha lutou um pouco contra  o facto de que  uma parte crescente do aumento da procura interna era satisfeito  pelos  fabricantes franceses, britânicos e americanos. Mas havia muito mais do que esta pequena mas  desagradável pressão externa  sobre o sector dos bens transaccionáveis. O impacto global sobre a  Alemanha foi muito negativo. Na verdade os economistas desde há  muito que  argumentam que a economia alemã foi gravemente afectada pelo pagamento da indemnização tanto por causa do seu impacto sobre os termos de troca, o que prejudicou a indústria  transformadora alemã como pelo seu papel no desencadeamento da bolha especulativa nos mercados bolsistas de  1871-1873 o que, entre outras coisas, desencadeou um boom de investimento improdutivo e um aumento na dívida.

(continua)

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(3) Arthur E. Monroe, The French Indemnity of 1871 and its Effect (The MIT Press, 1919)

(4) Charles Kindleberger, A Financial History of Western Europe, (Routledge 2006)

(5) Michael Pettis, The Volatility Machine: Emerging Economics and the Threat of Financial Collapse (Oxford University Press, 2001)

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Ver o original em:

http://blog.mpettis.com/2015/02/syriza-and-the-french-indemnity-of-1871-73/

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