ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – SYRIZA E A INDEMNIZAÇÃO DA GUERRA DA FRANÇA COM A PRÚSSIA em 1871-73, por MICHAEL PETTIS – III

Falareconomia1

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Entre a força assassina de um golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um david (a Grécia do Syriza)…

Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em   1871-73

 Michael Pettis, Syriza and the French indemnity of 1871-73

Blogue m.pettis, 4 de Fevereiro de 2015

(continuação)

IIIª Parte – Pode a entrada de capitais especulativos provocar uma bolha ?

Como a Alemanha começou a absorver os fluxos,  a situação da sua balança corrente passou de  excedentária a deficitária  o que, por definição, significa que houve um grande e crescente excesso de investimento sobre a poupança. Parte desta passagem de uma situação de excedente a défice  foi causada pelo aumento do consumo alemão, mas a maior parte  foi provocada   pela afluência de investimento. Ao contrário da Europa periférica de 135 anos depois, as entradas de capitais na Alemanha não foram mediadas através dos bancos comerciais para os bolsos das famílias, empresas e governos locais, mas acabaram,  isso sim,  totalmente nas mãos de Berlim. A Alemanha na década de 1870 teve a oportunidade  que ela nega de modo absoluto aos países  periféricos da Europa na década de 2000  ou,  por outras palavras, a possibilidade de poder  controlar o uso das enormes  transferências. Voltarei  a este ponto um pouco mais à frente.

Com o dinheiro assim posto a circular  na Alemanha, a economia alemã cresceu,  através do  seu consumo interno, do seu  investimento (uma parte crescente deste dinheiro foi canalizado  em projectos no pais e no exterior, o que acabou retrospectivamente por ser excessivamente optimista), e dos mercados  bolsistas de Berlim  e de Viena de Áustria. No início de 1873 os mais experientes banqueiros alemães, austríacos e britânicos foram-se discretamente avisando uns aos outros dos sinais de presença de  uma mania especulativa, a criação de uma bolha,  e estavam certos.

A mania especulativa  do mercado de acções culminou na  crise global de 1873 nos mercados bolsistas  que se desencadeou em Viena, em Maio, logo após o início do Exposição Universal de  1873, e espalhou-se rapidamente por todo um mundo repleto de liquidez (uma grande parte dos primeiros pagamentos de indemnização francesa  foram  directamente para Londres para pagar as obrigações alemães pendentes). Em Setembro a crise chegou aos Estados Unidos com o colapso do Jay Cooke and Company, um dos principais bancos americanos privados, e pela primeira vez na história do New York Stock Exchange,  esta bolsa foi forçada a fechar, durante dez dias. A subsequente “Grande Depressão” global que durou até 1896, foi sentida como especialmente grave na Alemanha, e uma das suas primeiras vítimas  foi o colapso do império ferroviário de Bethel Henry Strousberg, um grande empresário da época, cujos antecedentes  incluíam ter passado um período de tempo na cadeia por ter fugido com o dinheiro de outras pessoas enquanto  agente financeiro num anterior emprego (a transformação de pequenos criminosos em magnatas industriais parece ser outra das características dos  períodos da globalização).

No espaço de  poucos anos depois do início da crise, as atitudes em face da indemnização francesa  mudaram  drasticamente, com os economistas e os  políticos em toda a Alemanha e no mundo a  tecerem duras críticas contra a situação de  colapso económico do país. Na verdade o colapso foi tão grande,  com  a  Alemanha a ficar  fortemente  afectada pelas entradas da  indemnização francesa, que se chegou a acreditar na altura, especialmente na França, que Berlim andou na verdade a  considerar a sua devolução.  O grande beneficiário da “generosidade”   francesa  deu sinais de  não ter beneficiado mais do que a Espanha  da generosidade alemã  cerca de 135 anos mais tarde.

Isto é interessante. A economia alemã respondeu ao  afluxo  de capital francês quase da mesma forma que várias economias europeias periféricas responderam aos  grandes afluxos de capital alemão cerca de  135 anos mais tarde. Isto pode  parecer uma comparação injusta em primeiro lugar porque a transferência de 1871-73 para a Alemanha foi enorme, mas acontece que a magnitude da transferência francesa  para a Alemanha era muito semelhante, na verdade provavelmente mais pequena até  do que as entradas de capital, os afluxos de capital  para a  Europa periférica. A propósito,  devo salientar que neste texto  utilizo a Espanha para representar a Europa periférica no seu todo  não apenas, como foi  dito anteriormente, porque nasci e cresci em Espanha e conheço bem o pais, mas também porque as políticas de governo espanhol foram em muitos aspectos, das mais “responsáveis” na Europa de antes da crise,  e realmente a Espanha não pode ser responsabilizada pelos efeitos posteriores. A dívida da Espanha e as suas contas públicas  eram muito mais sólidas  do que a média europeia e mais sólidas ainda do que as contas equivalentes da Alemanha, e isto em  muitos aspectos.

É difícil imaginar que a quantidade de capitais entrados na  Alemanha em 1871-1873 fosse comparável às entradas de capitais verificadas em Espanha nestes últimos anos,  mas se alguma coisa se pode dizer em relação a isso é que esses capitais entrados na Alemanha terão sido realmente menores que os entrados em Espanha. Digo a seguir porque acho que eram mesmo menores. A partir de 2000-04 a Espanha   teve défices estáveis na balança   corrente equivalentes a  cerca de 3-4% do PIB, mais ou menos o dobro da média da década anterior.  A Alemanha, depois de uma   década de défices  na balança corrente de cerca de 1% do PIB, começou o século XXI com défices ligeiramente maiores, mas estes saldos atingiram o valor zero em  2002, sendo que a Alemanha passou a ter  excedentes estáveis na ordem dos  2% do PIB nos dois anos seguintes.

Tudo mudou por volta de 2005. Os excedentes da  Alemanha subiram  acentuadamente para cerca de 5% do PIB, com uma média de 6% nos  quatro anos seguintes. O oposto aconteceu com a Espanha. De 2005 até 2009, os défices da conta corrente  da Espanha praticamente dobraram,  novamente,  a partir da  sua média de 3-4% nos últimos cinco anos. Os números não são directamente comparáveis, é claro, mas durante esses quatro anos a Espanha efectivamente teve défices acumulados na sua balança corrente,   ficando  acima da sua média anterior de 3-4% para se alcançar a taxa de 21-22% do PIB. Visto ao longo de um período de tempo mais longo, durante a década que passou, a Espanha  teve um défice acumulado na balança  corrente,  ficando acima de sua média anterior,   para se situar em cerca de 31-32% do PIB.

Estes são valores enormes e  excederam  substancialmente a indemnização francesa  em termos relativos. É claro que o défice   na balança  corrente é, por definição,  o simétrico  do excedente da balança de capital, então isso significa que a Espanha absorveu afluxos de capital acima da sua taxa de absorção “normal” iguais a um surpreendente valor de  21-22% do PIB, de 2005 a 2009, e de 31-32 % do PIB entre 2000 e 2009. No entanto, se olharmos atentamente para estes valores diremos, por outras palavras, que a Espanha absorveu uma quantidade de entradas liquidas de  capital igual ou substancialmente maior do que a absorção das reparações francesas pela Alemanha durante os anos de  1871-1873. Não foi  só a Espanha. No período de 2005-09 uma série de países europeus periféricos registaram  entradas líquidas de grandeza  similar, de acordo com um estudo do FMI, incluindo Portugal, Grécia e vários países mais pequenos da Europa de Leste.

A propósito, em princípio, não é óbvio que a relação de  causalidade se  tenha dado  entre as entradas de capitais e os défices  na balança corrente  (os dois devem sempre levar a saldo zero). Em 1871-1873, é óbvio que as entradas de capitais alemães levaram aos défices na balança  corrente. Em 2005-09, os  países europeus poderão igualmente ter tido grandes défices na balança  corrente por causa dos afluxos de capital que lhes têm sido impostos, mas também é possível que eles tivessem que  importar  capital e que ansiosamente tenham pedido  emprestado dinheiro alemão para financiar esses seus grandes défices   na balança  corrente. Dito de forma diferente, o dinheiro alemão pode ter sido “empurrado para” estes países, com dizem os partidários do “a culpa é da Alemanha”, ou pode ter  sido “puxado para”  pela necessidade de financiar as orgias de despesas, como insistem  os partidários do  “culpem todos menos a Alemanha”. Para aqueles que preferem pensar em termos mais precisos, mais rigorosos, a Alemanha  ou criou  ou acomodou-se  ao  colapso da poupança espanhola relativamente ao investimento espanhol. Para aqueles – incluindo, lamentavelmente, a maioria dos economistas – que acreditam que a taxa de poupança de um país deve ser conduzida total ou principalmente apenas  pelas preferências das famílias residentes, vejam então sobre esta questão  o meu texto   “Porque é que  um excesso de poupança não aumenta a poupança”.

A estrutura da balança de pagamentos em si não nos diz conclusivamente o que é que provocou o quê, as saídas alemãs ou as  entradas espanholas, e ninguém duvida de que existiu um forte elemento de auto-reforço que foi uma consequência quase automática do processo de pagamentos, como expliquei  anteriormente. Se for assim, no entanto, seria uma coincidência muito surpreendente que muitos países tenham decidido  iniciar verdadeiras orgias de consumo e exactamente ao mesmo tempo. Seria ainda mais notável, se tivessem feito isso, que  estes pudessem  ter sugado todo o dinheiro  a  uma Alemanha relutante enquanto as  taxas de juro desciam. É muito difícil de acreditar, por  outras palavras, que a enorme mudança na balança interna de pagamentos europeus  tenha sido impulsionada  por uma outra coisa que não fosse  uma mudança interna na economia alemã que, de repente,  viu o total das  suas poupanças  a disparar  relativamente ao seu investimento. Tenho discutido este assunto, sobre o que se passou na Alemanha, que tenha levado à  distorção da poupança, e destas discussões fico  convencido  de que os fluxos tiveram  origem na Alemanha, como muitos  outros.

O que é interessante é  a semelhança encontrada quanto às consequências das entradas   de capitais, mesmo quando  Berlim  era  capaz de controlar o pagamento das entradas de uma forma de que Madrid só poderia sonhar[1]. E, no entanto entre 1871-1873 a economia alemã viveu um dos booms mais dramáticos da sua história, quer no mercado de acções quer  no imobiliário, e, embora o fluxo de fundos para os cofres do governo, mais do que  os fluxos dos bancos para as empresas e as famílias, assegurasse que o subsequente aumento do consumo alemão não tenha sido  tão forte  como o foi na Espanha, a Alemanha envolveu-se num frenesim de investimentos no país e no estrangeiro, em que uma parte substancial das entradas de dinheiro foi efectivamente desperdiçada em  investimentos tolos. É claro que,  ao contrário do que acontece com a  Espanha de hoje que  tem de  pagar, nunca houve nenhuma obrigação da Alemanha em  ter de pagar a transferência do dinheiro recebido. Este dinheiro tinha chegado, afinal de contas, na forma de reparações de guerra exigidas por um exército vitorioso, e não sob a forma de empréstimos como é o caso da Espanha, agora. De facto, mais tarde, assistiu-se a um processo semelhante em tudo: uma enormíssima transferência de dinheiro dos EUA para a Alemanha na década de 1920 que resultou numa má afectação em investimento alemão e levou-a genericamente à situação de incumprimento sobre a dívida externa.

(continua)

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[1] Nota de Tradutor. Assinala  William Engdahl: As leis Borsengesetz (lei sobre a bolsa) votadas no Reichstag em Junho de 1896 e o Depotgesentz  (lei sobre os depósitos)  votada em Julho do mesmo ano  foram, no mundo industrializado, as mais severas das legislações da época visando limitar a especulação financeira. Por exemplo, os contratos a prazo sobre o trigo foram proibidos. O severo enquadramento  que estas leis impuseram permitiram evitar os efeitos desestabilizadores sobre a vida económica resultantes de uma especulação bolsista intempestiva. Fonte William Engdahl, Pétrole, une guerre d’un siècle, edit. Jean-Cyrille Godefroy, 2003.

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