Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Um acordo para a Grécia precisa de um consenso europeu
Alexios Arvanitis, A Deal For Greece Needs European Consensus
Social Europe, 5 de Fevereiro de 2015
Os partidos da esquerda radical raramente tem a possibilidade de governar um país. No dia 25 de Janeiro, SYRIZA tornou-se o primeiro partido de esquerda radical a ganhar as eleições na Grécia. Esta é uma ocasião que estimula a esperança para uma mudança política progressista na Grécia e na Europa. Ao mesmo tempo, é motivo para uma grande preocupação. Como podem os políticos que nunca estiveram no poder propor um plano político realista? Bem, uma resposta é que eles vão fazê-lo até porque irão aprender muito rapidamente. Nas actuais negociações que a Grécia está a conduzir eles terão mesmo de acelerar o processo de aprendizagem.
SYRIZA foi eleito com a promessa de uma renegociação completa de seu plano de resgate económico. O ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis, Professor de economia, assume o pesado encargo de conduzir as negociações com os credores da Grécia, começando com os seus homólogos europeus. Na sua primeira reunião com Jeroen Dijsselbloem, Presidente do Eurogrupo, ele deixou claro que ele não iria negociar mais com a Troika. Ele e o Primeiro-ministro Alexis Tsipras declararam publicamente que estão ligados ao compromisso assumido para com o eleitorado grego para acabar com a austeridade e rejeitar as políticas económicas que estão a ser implementadas sobre as ordens da Troika.
Esta táctica perturbou, naturalmente, os dirigentes da UE, incluindo o Presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz, que disse que qualquer possível acordo só pode ser alcançado através de consenso, não da provocação. Sendo um especialista na teoria dos jogos, o ministro Varoufakis poderia muito bem argumentar que a provocação e a ameaça viável, consistente, são nomes que fazem parte de qualquer negociação. Basta só dar uma olhadela para o livro The Strategy of Conflict, a obra clássica do laureado com o Nobel de economia Thomas Schelling, para perceber que se trata de uma mão cheia de tácticas gregas na negociação. Por restringir as escolhas para a Grécia, o ministro Varoufakis fez o que Schelling chama de um “movimento estratégico”. Estabelecendo antecipadamente um modo de comportamento que rejeita as medidas da Troika e da austeridade deixa o resto da Europa, com um problema de simples maximização: ou sucumbir às exigências gregas ou levar a que a Europa desça uma ladeira escorregadia a esmagar a economia de um dos seus países membros.
Esta táctica criou um tipo interessante de jogo de frango, que é muitas vezes comparado a dois veículos colocados numa corrida em que a trajectória é de colisão. A informação dada pelo ministro Varoufakis que ele não vai recuar pode ser comparada ao rebentamento de uma roda do carro em que ele salta do carro quando se dirigia na direcção do seu adversário de competição. Deixado sem nenhuma outra escolha, o seu adversário teria que se desviar e deixá-lo ganhar. Mas há um problema com esta táctica: o empenhamento deve ser credível, consistente. Obviamente, rebentando a roda do carro dele é algo que o ministro Varoufakis nunca poderia modificar. Por outro lado, quebrar a promessa feita ao seu eleitorado é algo que pode ser feito facilmente. Os políticos fazem isso durante o tempo todo (certo, Varoufakis passou a ser um político apenas desde há 10 dias). Se o BCE, em que o governo grego está confiante, decide considerar este comportamento como bluff , as coisas poderiam tomar um escarpado rumo para o pior. Yanis Varoufakis pode encontrar possivelmente que as tácticas da linha-dura do BCE são ilegítimas, mas este deve ser lembrado de que ele começou a conduzir um carro contra um grande camião (que, independentemente de seu tamanho, não se vira facilmente) num muito arriscado, perigoso, jogo da galinha.
De qualquer forma, estas tácticas de negociação duras estavam perfeitamente adequadas na arena de negociação internacional, quando foi escrito o livro de Schelling, durante a guerra fria. Desde então, eles colocaram definitivamente o pé sobre o travão dando lugar a uma visão mais cooperativa de negociação. Os resultados mutuamente benéficos, mesmo resultados com ganhos para os dois lados , são agora retratados como o resultado final das negociações. O ministro Varoufakis começa com algumas duras tácticas de negociação mas posteriormente também pode utilizar uma retórica de ganhador para os dois lados para aliviar a tensão das preocupações iniciais entre os seus homólogos europeus. Ele afirmou que a sua preocupação não tem necessariamente a ver com o cidadão grego, mas sim como o cidadão médio europeu, que não deve ser convidado a carregar o fardo da insustentável dívida grega.
No entanto, ele não tem recuado nas suas estratégias originais da teoria dos jogos. Mas mesmo se ele mudasse completamente para uma estratégia de ganhador para os dois lados, as suas propostas não vão soar muito bem aos ouvidos do resto da Europa. Ganhador-ganhador ou tácticas da teoria dos jogos , tudo apela para interesses que não são os únicos determinantes da negociação, de acordo com uma visão consensual de negociação. De acordo com esta abordagem, a negociação ultrapassa em muito os próprios interesses. Imaginemos-nos, por um momento, a negociar com um negociante a compra de um carro. Idealmente, como comprador gostaria de levar o carro de graça. O negociante do carro, por outro lado, pode idealmente querer vendê-lo por 1 milhão de dólares, ou mesmo, porque não, para 1 milhar de milhões de dólares. Os desejos não têm limites. No entanto, esses interesses e desejos não determinam necessariamente o decorrer da negociação. Na verdade, a negociação será determinada principalmente pelas normas e regras que as pessoas acham relevantes numa interacção específica, tais como o preço oferecido em outras lojas ou simplesmente que pareçam “justos” …
O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble não estava errado quando disse: “as eleições nada mudam. Há regras”. O que o povo grego quer durante as negociações, não é isso que interessa. O que realmente importa é aquilo com que todos os cidadãos europeus podem concordar. Pode parecer razoável falar sobre os interesses da Grécia, até mesmo dos da Alemanha, da Itália ou da Espanha mas também é razoável falar sobre as normas europeias que devem ser aplicadas e os acordos anteriores a que o povo grego se comprometeu a respeitar. As discussões devem não só girar em torno dos desejos e das necessidades dos europeus, mas também à volta dos termos com os quais concordaram em ser governados.
Estes termos estão indissoluvelmente ligados à visão de uma Europa unificada e governada através de um lento processo de mudança em direcção à integração política. A negociação entre países europeus está em andamento, muitas vezes sofrendo reveses consideráveis por dificuldades económicas e com a consequente ascensão dos movimentos de extrema-direita sonhadores da desintegração Europeia. A Europa tem o dever de combater essas pressões, independentemente de dificuldades económicas a curto prazo. Tendo em conta estas preocupações, a Grécia tem a responsabilidade de evitar o confronto, as ameaças e as estratégias da ultrapassada teoria dos jogos , que envenena as fundações da UE para deleite dos seus oponentes, tais como Marine Le Pen. Um possível acordo sobre a reestruturação da dívida encontra-se no reforço do quadro regulamentar da União Europeia e no apoio à sua integração política. É somente através de um futuro acordo inovador sobre a gestão central da dívida europeia que a Grécia pode alcançar o futuro económico sustentável pelo qual anseia. Para atingir este objectivo, a bandeira do Euro deve ser içada ainda mais alto que a bandeira nacional.
Em suma, uma negociação é muito mais do que um veículo para satisfazer os interesses dos países membros individualmente. É o processo através do qual a Europa define as regras de interacção entre todos os países, em que muitas vezes se tomam disposições por preocupações de ordem ética e de justiça. Independentemente de se tratar da situação financeira grega, alemã ou italiana, a negociação para o plano de resgate grego é também uma negociação sobre as regras europeias e sobre uma maior integração política. Não há lugar nesta negociação para movimentos estratégicos sejam eles quais forem e certamente não há espaço para um jogo de frango hoje desactualizado. É hora de pôr o pé no travão.
Alexios Arvanitis, A Deal For Greece Needs European Consensus, 5 de Fevereiro de 2015, publicado por Social Europe. Texto disponível em:
http://www.socialeurope.eu/2015/02/consensus/
About Alexios Arvanitis
Alexios Arvanitis is Lecturer in Social Psychology at the Business College of Athens and adjunct Assistant Professor at the University of Crete. His expertise lies in the field of negotiations and intergroup relations.
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Ver a Introdução de Júlio Marques Mota a este texto de Alexios Arvanitis, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:

