ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – A ESPERANÇA NA GRÉCIA, por JAMES K. GALBRAITH

Falareconomia1Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

mapagrecia

A esperança na Grécia

James K. Galbraith, The Greek Hope

Social Europe, 27 de Janeiro de 2015

james K. Galbraith

Há cinquenta e quatro anos atrás, no seu discurso inaugural, o Presidente John F. Kennedy declarou: “Nunca iremos  negociar por medo. Mas deixem-nos nunca ter medo de negociar.” Não se tratava das frases mais sonantes naquele seu curto discurso, mas estavam entre as  mais importantes. Por elas  se dizia, deliberada  e inequivocamente à União Soviética, que a guerra fria poderia ter acabado  sem estar a virar para uma guerra real, quente,  e que o mundo não precisava de estar a  viver para sempre sob fanfarronadas,  ameaças e a sombra de uma guerra nuclear.

Hoje, a Europa enfrenta uma negociação sobre dívidas e sobre depressão económica. De um lado estará  o novo governo da Grécia. Do outro lado, estarão os  poderes financeiros da Europa e do mundo. Agora, e como então, a questão do medo não pode ser ignorada.

As potências europeias dispõem de três cassetetes quando se iniciarem as  negociações. Em primeiro lugar, a Grécia tem dívidas com maturidades para este ano e que não pode pagar. Em segundo lugar, os bancos gregos contam com a assistência de liquidez de emergência do Banco Central Europeu, que poderá  ser cortada. Em terceiro lugar, a flexibilização quantitativa dá ao BCE uma nova forma de isolar  o resto da Europa das  agonias da Grécia. A Europa deve escolher, entre estes cassetetes qual ou quais podem ser utilizados  para imporem  uma directiva de ameaças, a fim de manter a austeridade, as execuções hipotecárias e a penúria na Grécia.

O Presidente John F. Kennedy declarou: “Nunca vamos negociar por medo. Mas deixem-nos nunca ter medo de negociar.”

As ameaças estão no ar. The  Telegraph  publicou um  resumo da reunião dos Ministros das Finanças da UE, reunidos em 26 de Janeiro: “a zona euro eliminou qualquer  hipótese de  perdão de dívida da Grécia e avisou que o novo governo de coligação anti-austeridade deve honrar todos os anteriores acordos…” O porta-voz do governo alemão Sr. Steffen Seibert falou pelos oligarcas em Davos e disse que a Grécia deve “tomar medidas de modo a que retoma da economia continue.” E isso significa “a manutenção dos seus  compromissos anteriores e que o novo governo está ligado à aplicação das reformas acordadas e às suas conquistas “. Ou como disse o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble em Dezembro último,  “as novas eleições  nada mudam “.

Para os gregos, esses comentários devem saber a  uma piada cruel. Que recuperação económica? Que conquistas? Se as eleições não mudam nada, porquê então mantê-las? E é claro que a premissa que “os compromissos anteriores devem ser honrados” é apenas um dogma que se quer gravado na pedra. O que a vitória de Syriza levou para casa é a questão, até agora sem resposta,  de determinar  quais as políticas que falharam e que devem ser  imediatamente alteradas.

O primeiro ministro da Inglaterra  David Cameron resumiu a visão grega com o eufemismo britânico: “o que as eleições gregas também irão  mostrar é que há alguns sinais de alarme na  economia global, incluindo na zona do euro”. Bem, sim. Quando as políticas falham, são as economias que entram em recessão. Os gregos não estão sozinhos a verem  o fracasso diante dos seus olhos.

alexis tsipras
O novo governo grego chefiado por Alexis Tsipras encetará em breve negociações com os seus parceiros europeus

Como o Telegraph  relatou, há duas saídas: os acordos e a dívida. A primeira seria a Grécia propor-se  a recuperar o comando de seu próprio destino. A experiência do controle pela  “Troika” foi tentada. Os resultados estão à vista. As políticas novas para ajudar a desprovida  e vulnerável economia grega, para estabilizar a economia e a promover a recuperação, serão postas em prática. O registo do passado do Estado grego não é bom – sobre isto ninguém discorda. Mas o desajeitado diktat que se lhe seguiu foi um autêntico desastre.

A questão que está por detrás da remissão da  dívida  é somente, e em   parte, uma questão  de   recursos. A alternativa de “alongar  e fingir” é afinal, queira-se ou não,  uma forma  de transferência fiscal. O problema é que a prática soma dívida sobre dívidas  e esta é a alavanca que mantém o país sob  tutela, sempre na posição de pedinte.  Uma remissão da dívida representa o meio  de voltar à autonomia da política. A forma e os termos precisos são, em parte, matéria das negociações.

Discutir sob  a pressão de prazos apertados, sob coerção e ultimatos significaria provavelmente que Europa tomou a decisão de  impedir desde o  início uma verdadeira discussão e de pretender que as negociações falhem logo à partida.  Se esta  é a decisão, a seguir a responsabilidade  histórica estará nas mãos naqueles que a tomaram, incluindo o caminho para o caos que se lhe pode seguir.

A Grécia não deve ser obrigada a negociar sob o medo. E a Europa, pela  sua parte, não deve temer estar a negociar – calmamente, sem as fanfarronadas ou as ameaças, deve estar a negociar de  boa fé.

Que força de alavanca Grécia tem? Obviamente, não muita; as armas pesadas estão no outro lado. Mas há algo. O primeiro ministro Tsipras e sua equipa podem apresentar o exemplo da razão sem ameaças de qualquer  tipo. Então a razão e o gesto  moral no outro lado poderiam ter a força de neutralizar a utilização dos cassetetes europeus e em particular  o do espaço fiscal e a garantia da estabilidade financeira grega enquanto durarem  as negociações.

Se tal  acontece então,  a seguir,  podem ocorrer as verdadeiras negociações. Nesta questão, a chanceler Merkel tem feito alguns dos mais suaves  comentários até agora. Possivelmente compreende que as escolhas que ela faz – desde logo  – determinarão o futuro de Europa.

Nesta situação, ambas as partes da frase de Kennedy acima referida – a propósito, rascunhada para ele pelo meu pai – têm aplicação. A Grécia não deve ser obrigada a negociar pelo medo. E a Europa, pelo seu lado, não deve ter medo de negociar – calmamente, sem vociferações ou ameaças, de boa fé.

James K. Galbraith

James K. Galbraith holds the Lloyd M. Bentsen Jr. Chair in Government/Business Relations and a professorship of Government at the Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, The University of Texas at Austin. He is the author, most recently, of The End of Normal.

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Ver o original em:

 

http://www.socialeurope.eu/2015/01/greek-hope/

 

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