Não, meu caro amigo, continuo a precisar muito de falar consigo. Diz-me que estou a ficar muito mais equilibrado, com objectivos na vida, e que estou muito bem acompanhado. Que a Heloísa está a acertar o passo comigo, a Maria da Luz é óptima para mim, e eu vou conseguir acabar o curso. Está confiante de que estou a engrenar com a minha vida e, dentro em breve, já não precisarei do seu apoio. Exprimo-lhe toda a minha gratidão pela paciência que tem tido comigo, e pelos conselhos que me tem prodigado. Digo-lhe que às vezes dou comigo a pensar em como foi possível encontrar alguém como o senhor, que me atura tanto. E a verdade é que preciso muito de falar consigo, e de que me dê orientações.
E também é verdade que a Heloísa continua muito fechada sobre o nosso passado. Mas também é verdade, que, de há muitos anos a esta parte, exceptuando aquele incidente em Cascais o ano passado, que lhe contei na altura, não sinto qualquer curiosidade de saber quem foi o meu pai, ou se tenho outros familiares para além da minha mãe. Já me disse que não é muito positiva esta minha atitude, que seria natural querer saber alguma coisa sobre as minhas origens, e que a minha mãe devia abrir-se um pouco sobre isso. Mas peço-lhe que deixemos isso para mais tarde. Hoje, peço-lhe para me ouvir, ou, melhor dito, para ler o que lhe vou descrever a seguir.
Esta semana que passou fizemos mais uma frequência, que aliás nos correu muito bem. É verdade que ultimamente as coisas,normalmente, me tem saído assim, de uma maneira muito positiva. Desta vez escrevi muito, e julgo que bem. Reparei que a Maria da Luz (Luzinha, como agora lhe chamo) acabou antes de mim, apesar de ainda ter escrito mais do que eu. Do lugar dela, observava-me e fazia um sorriso. Quando saímos, contou-me que tinha escrito tudo muito rapidamente, que conhecia muito bem o assunto sobre que tinha incidido a pergunta, que era como que um desenvolvimento da matéria dada em anos anteriores. Reconheço que pouco me lembro das matérias que dei nos anos anteriores, devido à maneira como me tenho arrastado no curso. Mas tenho recuperado nestes últimos tempos, é verdade.
Depois da frequência, viemo-nos embora. Lanchámos em casa da Luzinha, e lá estivemos um bom bocado. Era quase noite quando a deixei. Apanhei o metropolitano, e vim para casa. Jantei com a Heloísa, e até vi um pouco de televisão. Eram onze horas da noite, estava a dormir. Quando se trabalha muito, anda-se mais cansado, não é verdade?
No dia seguinte, às dez horas, já estava pronto. Arrumei uns papéis e conversei um pouco com a Heloísa, que me pôs um pouco ao par das novidades da vizinhança, matéria ultimamente bastante descurada devido à intensidade dos meus estudos e da minha amizade com a Maria da Luz. Fiquei a saber que a Maria Antónia tinha ido à terra ver a família e, como lhe deram uma boleia à volta, tinha trazido batatas em grande quantidade para os amigos. A qualidade era tão boa que a D. Josefa estava a pensar arranjar uma camionete para ir buscar mais. A D. Henriqueta tem passado muito melhor, contou ainda a Heloísa, elogiando ainda a maneira como a Maria Antónia tem tomado conta dela. Fiquei muito contente com a notícia. Almoçámos pouco depois do meio-dia.
Seria para aí uma e meia, já estava na faculdade. Pensei em dirigir-me como de costume para a biblioteca, mas, como era ainda cedo, e a Maria da Luz, normalmente, só chega por volta das duas, duas e meia, resolvi dar uma pequena volta. Fui até à avenida, mas como tinha tomado café em casa, não entrei em lado nenhum. Até porque cafés, restaurantes, pastelarias, àquela hora estavam a abarrotar. Subi a alameda devagar de regresso à faculdade, e antes de chegar, resolvi descansar num dos bancos que ali há. Deixei-me estar uns minutos. Retomei o caminho e, estava mesmo junto à entrada, quando passou por mim um carro, e parou um pouco mais adiante. Ia a entrar calmamente no edifício, quando me apercebi que o condutor falava animadamente com uma senhora ao lado. Pareciam os dois bastante absorvidos pela conversa. Ele era um homem já de idade, de cabelos brancos e bigode. Ela, mais nova, elegante como sempre, muito atenta ao que ele dizia, era a minha amiga Maria da Luz. Entrei na faculdade, sem me desviar, e dirigi-me para a biblioteca. Sentei-me e comecei a escrever. Cerca de dez minutos depois, apareceu a minha amiga, com um ar muito calmo. Cumprimentámo-nos efusivamente, como sempre. E deitámo-nos ao nosso trabalho.
Acha que fiz bem em não perguntar quem era o cavalheiro que deu boleia à Maria da Luz?
Reblogged this on Eu Vivo a Melhor Idade and commented:
EXCELENTE!