Meu amigo, não estou a percebê-lo bem. Parece-me que ainda está mais confuso do que eu. Contei-lhe aquela cena de ter visto a Maria da Luz (deixemos por agora o Luzinha de parte) chegar à faculdade de boleia de um cavalheiro de idade (bem, ele pareceu-me ser um bom bocado mais velho do que eu), e vem-me com uma conversa sobre a Maria Antónia, e não sei que mais. Se bem entendi, acha que se houver ali um envolvimento, será o mesmo que, digamos assim, as minhas visitas nocturnas a casa da D. Henriqueta. Bem, sinceramente, acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu estar com a Maria Antónia, de vez em quando, é a mesma coisa de a minha amiga Maria da Luz estar metida com o tal cavalheiro? Bem, pode ser essa a sua opinião. A minha, é que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas vou-lhe ser franco. Não quero saber do assunto para nada. Se me ponho a pensar nisso…
Pior, só se a Heloísa resolvesse arranjar um namorado, ou sei lá, o cúmulo de resolver casar-se outra vez. Não seria a primeira com a idade dela a fazê-lo. Aqui perto, não na rua de Santo Ambrósio, mas mais acima , na de Santa Guilhermina, houve uma senhora muito mais velha, de oitenta e quatro anos, que resolveu casar-se com um vizinho de trinta e dois anos. Morreu pouco tempo depois, e deixou-lhe uma data de dinheiro. Os filhos ficaram desesperados. Mas eu estou descansado. Já lhe disse uma vez que não sei quem foi o meu pai, mas nunca lhe contei que por acaso sei que a minha mãe é casada. Nem viúva, nem divorciada. Sei disso, porque uma vez, há já muitos anos, não me lembro exactamente de quantos, a ouvi a dizer isso ao telefone, aos gritos. Fiquei um bocado à porta da sala a olhar para ela, mas deitou-me um olhar tão terrível que fui direito para o meu quarto. Só de lá saí horas depois. Se bem me lembro durante esse tempo dormi uma sesta. Ela não me veio chamar. Só ao fim da tarde meveio dizer para ir jantar. Nunca lhe fiz perguntas sobre o telefonema. Acha que devia ter feito? Nem quero recordar o ar com que ela estava.
Mas vamos deixar estas especulações. Voltando à Luzinha (é assim, sim senhor, que a trato), digo-lhe que, o outro dia, quando a vi com o cavalheiro de bigode (branco, muito branco, com as pontas mal aparadas; acredite, reparei nisso tudo), ficámos duas horas na biblioteca a fazer consultas, depois fomos ainda ao Centro de Documentação pedir à D. Marisa, a tal que exige que a tratem por doutora, sem ter curso nenhum, umas cópias de uns documentos para um trabalho que andamos a fazer, e acabámos a lanchar e por aí adiante em casa dela. Correu tudo lindamente. É como lhe digo. Para quê andar a cismar?
Vai pensar que eu estou raladíssimo, e não quero admitir. Nada disso. Estou perfeitamente consciente de que tenho de concluir o meu curso, e que o apoio da minha amiga é muito importante. Não me preocupam os cavalheiros de bigode que possam andar atrás dela. Entretanto, na semana que findou, calcule que fizemos outra frequência, que também correu bem. Também entregámos o tal trabalho, que acima referi, com as cópias dos documentos que nos forneceu a doutora da mula russa, e já nos constou que o acharam muito bom. Como vê, tenho motivos para estar contente. Francamente, acho que anda mais preocupado do que eu.
Não me perguntou pela Maria Antónia. Na semana passada, só a vi duas vezes. Acha que foram poucas? Claro, claro… já sei o que vai perguntar. Fui lá cima, a casa da D. Henriqueta, é verdade, duas vezes. Estivemos optimamente, já que quer saber. A D. Henriqueta ressonava imenso, como sempre. E a minha mãe a dormir em frente à televisão… Imagine que começou uma telenovela nova, A Sombra do Cardeal. Ou será A Sobrinha do Cardeal? Tenho que descobrir. A Heloísa ficava contente, se um dia destes lhe fizesse companhia a ver a nova telenovela. E se ela convidasse a Maria da Luz para jantar, novamente, víamos a telenovela todos juntos. A Luzinha já percebi que também gosta de telenovelas.