PORTUGAL NA ENCRUZILHADA – SOBRE AS MENTIRAS QUANTO À SAÍDA DA CRISE, SOBRE OS NOVOS VICHY IMPLANTADOS POR TODA A EUROPA, TUDO SOB A “VIGILÂNCIA APERTADA” DE BRUXELAS, TUDO SOB O COMANDO DE BERLIM. – UMA CRÍTICA QUE PODERIA SER APRESENTADA AO NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO SE VALESSE A PENA – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

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Sobre as mentiras quanto à saída da crise, sobre os novos Vichy implantados por toda a Europa, tudo sob a “vigilância apertada” de Bruxelas, tudo sob o comando de Berlim.

Uma crítica que poderia ser apresentada ao nosso Primeiro-ministro se valesse a pena

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(continuação)

Mas senhor Primeiro ministro, neste jogo da mentira e da reptilização praticada pelos dirigentes políticos face à Alemanha não vai seguramente à frente. Os franceses, ditos socialistas, ganham-lhe seguramente. Ainda agora, Moscovici, Comissário Europeu teve a coragem de afirmar o seguinte, em declarações feitas à RTL:

A França sob vigilância apertada pela Comissão Europeia

“Não se trata de modo nenhum de uma vigilância. A França é um país da União Europeia e por conseguinte como tal, deve respeitar as regras comuns. Estas regras não foram respeitadas no passado, devem ser respeitadas em futuro”.

“O que é dado à França é um caminho, não é uma punição, uma sanção. Sempre considerei, como Comissário, que as sanções são sempre um erro. A Europa não é feita para punir, para forçar, ela é feita para incentivar um país a mudar, a reformar-se e restabelecer também a situação das suas despesas públicas”.

“Houve uma discussão complicada na Comissão Europeia. Penso que no fim a decisão finalmente tomada é perfeitamente equilibrada. Não há sanções contra a França, há sim estímulos. A França tem necessidade de reformas, de uma economia mais competitiva. A França tem necessidade de restabelecer o seu comércio externo”.

“Vou pedir ao governo francês que apresente um plano nacional de reformas no mês de Abril”.

 Sobre o plano das reformas diz:

“A lei Macron é um primeiro passo mas é necessário continuar [ para além dela e no mesmo sentido, isto é, mais reformas na liberalização dos mercados]. O Primeiro-ministro está a considerar reformas sobre o diálogo social, talvez reformas sobre o mercado do trabalho. Não estou lá para falar em nome do governo”.

“Não se pede ao país que se reforme desta ou daquela maneira. Pede-se-lhe que se reforme. Respeita-se as soberanias nacionais mas é necessário que estas soberanias se inscrevam num quadro comum”.

“Não falo de sanções mas de estímulos. Mas estes estímulos são urgentes. Diz-se-lhes firmemente que é necessário fazê-las, estas reformas, como todos os países da Europa muito simplesmente”.

“Agora é necessário pôr as reformas no papel, [ na lei e aplica-las] ”.

Muito simples, as declarações do Comissário Europeu. Não se trata de pressões, trata-se de estimular os franceses, como se estes últimos anos não tenham sido de uma brutal violência para com os países em dificuldade. Nenhum Pinóquio ganharia ao nosso Comissário. Mas na base quer dos documentos do Eurostat publicados na carta enviada por mim à Presidente da Assembleia da República quer doutros documentos de fontes fiáveis podemos chamar de mentiroso politicamente ao nosso Primeiro-ministro e a todos aqueles que têm subscrito as políticas de austeridade. Quanto ao Professor Cavaco Silva, ocupante da cadeira de Presidente da República e economista de profissão não lhe reconheço capacidade científica para o citar especificamente em termos de análise económica.

Quanto à capacidade científica do Primeiro-ministro é claramente nula, pelo que acabo de afirmar, mas é o primeiro-ministro de Portugal e que pelos vistos terá feito parte de uma campanha contra o governo da Grécia, como sendo este afinal um governo de crianças. São no entanto estas afirmações que quero aqui comentar, partindo agora de um documento acabado de publicar e produzido por um dos meios de informação que fazem parte da superestrutura do capitalismo global, um dos mais importantes ideólogos e arautos da globalização feliz, a McKinseyGlobal Institute, com o seu relatório de Fevereiro de 2015, Debt and (not much delevering) de Fevereiro último, onde se mostra dentro do pensamento neoliberal subjacente em toda a política europeia que, ou o senhor Primeiro-ministro é um grande mentiroso e como tal deve ser brutalmente penalizado nas urnas, ou os dados apresentados pela McKinsey ou pelo Eurostat não têm nenhum sentido. Opto pela primeira hipótese.

II. O relatório da McKinsey

Neste relatório como o próprio título indica fala-se do endividamento à escala planetária e dá aqui para observar a evolução nos países europeus. Desta forma podemos então ver a grande mentira de Passos Coelho ao serviço de Bruxelas e de Berlim: a de que estamos no bom caminho.

Diz-nos a McKinsey:

“Sete anos depois de rebentar a crise financeira global, o endividamento e a alavancagem global continuaram a crescer. Desde o segundo trimestre de 2007, até segundo trimestre de 2014, o endividamento global cresceu de 57 milhões de milhões de dólares, subindo assim o rácio do endividamento global relativamente ao PIB em 17 pontos percentuais (Gráfico E1). Trata-se de um valor inferior ao aumento do endividamento global que se verificou nos sete anos antes da crise que foi de 23 pontos, mas é muito para levantar novas preocupações sobre o endividamento das economias. Os governos nas economias avançadas endividaram-se pesadamente para financiar os resgates financeiros na crise e para tentarem compensar a queda da procura em recessão, enquanto o endividamento dos agregados familiares e das empresas numa gama de países continuou a crescer rapidamente.”

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Eu espero que entre tantos boys que funcionam como conselheiros, e bem pagos a partir do bolso de todos nós, que algum deles passe pelo blog e lhe apresente a argumentação da McKinsey e com o conselho de que deixe de andar a dizer mentiras. Que fale antes dos passarinhos como um Presidente da República falava antes do sorriso das vaquinhas tão felizes que elas estavam, nos Açores!

Face a estes dados, diz-nos este organismo de alta consultadoria e um importante think tank do neoliberalismo:

“Esta situação exige um conjunto bem mais vasto de abordagens. A dívida permanecerá um instrumento essencial para a economia global, financiando os investimentos necessários nas infra-estruturas, a expansão da actividade económica e a urbanização. Mas elevados níveis de dívida, seja no sector público ou privado, têm historicamente colocado um peso enorme sobre o crescimento e levantado o risco de crises financeiras que se multiplicam numa larga escala e se transforma numa escala mais larga em profundas recessões económicas..Um mais vasto conjunto de ferramentas para evitar o endividamento excessivo e para reestruturar eficientemente a dívida quando necessários devem então ser considerados.

(…)

Desde a crise, a maioria de países continuaram a somar dívida sobre dívida, mais do estarem a desendividarem-se. Um largo corpo de investigações académicas mostram bem que o alto nível de endividamento está associado a um crescimento mais lento do PIB e a um risco mais elevado de crises. Dada a grandeza da crise financeira que rebentou em 2008, isto é uma surpresa, então, que nenhuma das grandes economias e somente cinco das economias em desenvolvimento tenham reduzido o seu rácio da dívida relativamente ao PIB “na economia real” (os agregados familiares, as empresas não financeiras, governo e com a exclusão do débito do sector financeiro). Pelo contrário, 14 países aumentaram os seus rácios de dívida total relativamente ao PIB e por mais de 50 pontos percentuais (quadro E2). O quadro E3 mostra a mudança na relação da dívida relativamente ao PIB nos países por sector desde 2007 e classifica os países pelo valor da sua relação dívida global relativamente ao PIB.

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Algum do crescimento da dívida global aqui assinalado é benigno e até mesmo desejável. As economias em desenvolvimento registaram 47 por cento de todo o crescimento na dívida global desde 2007 e de três quartos da nova dívida nas famílias e nas empresas.

Em certa medida, isto reflecte um aprofundamento do sistema financeiro saudável tanto quanto há mais agregados familiares e mais empresas a acederem aos serviços financeiros. Além disso, a dívida em países em vias de desenvolvimento permanece relativamente modesta, uma média de 121 por cento do PIB quando comparados com os 280 por cento para as economias avançadas. Há excepções, notavelmente a China, a Malásia e a Tailândia, cujos níveis de endividamento estão agora a nível de algumas das economias avançadas.

(continua)

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Para ler a Parte I de “Sobre as mentiras…”, de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/wp-admin/post-new.php