PORQUÊ CLASSIFICAR A VIOLÊNCIA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

 

Violência é violência, seja quem for que a pratique. Por comodidade vão-se criando gavetas para a violência doméstica, para a violência contra as crianças, a violência de género, a violência contra idosos, a violência na escola, a violência no namoro….

Como se vê a violência não tem dono, tem pessoas agressivas/violentas que exercem o seu poder sobre os mais fracos para obterem algo, ou apenas para satisfazerem o seu ego, por não saberem conviver com a frustração nem com o não como resposta.

Chegam a casa, e no segredo das quatro paredes, agridem mulheres, crianças, idosos porque quem manda “sou eu”, porque “quem sustenta a casa sou eu”, porque a reforma da sogra não dá para os remédios dela, porque o sogro sofre de doença incurável…

porque a mulher estava no café, porque o filho estava onde não devia e até os cães e os gatos levam o seu pontapé.

Desta forma, as crianças aprendem, através dos modelos de referência, que a violência é aceitável e aprendem a guardar para si as suas emoções – por vezes guardam durante anos estas cenas de violência e convertem-nas em segredo.

Quem cresce dentro da barriga da mãe ouvindo-a chorar, sentindo-a cair, ouvindo os gritos do pai, .quem cresce num ambiente familiar, em que a violência espreita e a qualquer palavra, gesto ou atitude se manifesta com gritos, insultos, ameaças, bofetadas e pontapés…..quem cresce a pensar que se calhar a culpa é sua, quem cresce sem perceber porque é que a mãe deixa o pai bater nela e nos filhos, sem dizer nada.

A incompreensão fala pela revolta passiva ou activa e só as lágrimas falam…Os seus pequenos corpos dobram-se e cobrem-se de roupa para que não se veja as nódoas negras

Num estudo, intitulado “O que dizem as crianças sobre violência”, a maior parte das raparigas aceita que  os adultos lhe batam porque se calhar eles têm razão, de quê, não sabem.

Quando adolescentes e mulheres vão-se tornando passivas e, quantas vezes cúmplices…

É difícil a vida, é desconfortável viver em cima da linha da violência e não conseguir dar o passo para o outro lado.

A violência vive-se, reproduz-se, aceita-se…

Quando de crianças passam a adolescentes e começam a namorar começam, também, a reproduzir as relações que conhecem em casa, a violência.

A diferença é que não vivem na mesma casa, o que deveria ser uma vantagem para a solução deste problema. Mas na verdade não o é porque, principalmente as raparigas, acreditam que tudo vai passar “ele estava chateado…”

Os rapazes são vítimas de um outro tipo de violência. As namoradas fazem-lhes ciúmes de propósito, em busca de mais atenção, agridem verbalmente, troçam deles, dizem-lhes que eles não são homens a sério…

A investigação tem revelado níveis perturbadores de violência nas relações entre os jovens.

Um estudo nacional que englobou 4.667 jovens entre os 13 e os 29 anos revelou que
25,4% dos inquiridos se consideravam vítimas, 31 % consideraram-se agressores.
Um em cada cinco jovens reconheceu ter sido vítima de comportamentos emocionalmente abusivos.

Em dez anos, a violência contra idosos aumentou 158%.

Os(as) idosos(as) são mais vulneráveis por causa do isolamento social e da doença, alzheimer, reumatismo, dificuldades motoras…da dependência, total ou parcial do agressor, para cuidados diários, como refeições, mobilidade e acesso a dinheiro e medicação;

 A investigação revela que a maior parte da violência contra idosos(as) ocorre em casa, tal como se passa com as crianças.

Estas gavetas não foram ainda suficientemente abertas e o armário muitas outras para se abrir.

Porquê a violência?

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