A IDEIA – Uma Cartilha de Remos e Rimas? – por Fátima Sona

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Imagem1Após algumas travessias dos sentidos canoros e respectivas melodias coincidentes, compreendemos que O Atlas iluminado. Manual de poemonáutica proposto por Carlos Loures e publicado pelas Edições Colibri (2013) é iluminado pelas luzes da existência e pelos anseios das percepções interiores. A Terminologia Naval Portuguesa Anterior a 1460 é a fonte anunciada em “Nota Prévia e Única”.

Debuxar, delinear, esboçar são assim sinónimos das palavras-leme presentes na origem metafórica das vivências-padrão expostas nas composições representativas dos improvisos da navegação e respectivos rumos orientados pelo traçado das curvas de cada estrofe, quais ondas cortadas por um navio circulante até à margem onde caronte nos conduz. No poema “O debuxante esboça um auto-retrato”, o sujeito poético declara-se o único que ainda resta da gesta de quinhentos. Poesia e náutica abraçam-se estreitamente na busca duma luminária pessoal que se apresenta viva, ritmada, expressiva e envereda por caminhos simbólicos através de processos e imagens que anunciam a circularidade (cobra mordendo a cauda – começo e fim) para metaforizar o eterno retorno a um tempo da vida e da criação.

Os poemas podem ser lidos como quem segue um canto de ondas e escuta o seu fragor brando de ritmos, rimas finais e melodias internas das palavras, destacadas através da sequência de rimas finais. A métrica exalta a poesia para realçar as similitudes entre os remos que conduzem esta nau e as rimas finais de que são coroados ora em alternâncias ora em emparelhamentos como no poema “11” em que se compara a arte poética às navegações e se compara poemas com naus e se afirma que mais vale ir sem rumo ou rumo ao caos/ do que deixar o navio ou o poema varado/ao sabor de musas infiéis e das monções. Deste modo, o leme é apontado para uma rota diversificada organizada em forma de memórias vagantes sem fugir ao compromisso das marés da alma e dos portos escolhidos sob os auspícios de referências, que vão, segundo referências semeadas ao longo dos versos, de Dante, Petrarca, Herberto, António Maria Lisboa, passando por Lenine e Santo Agostinho, incluindo Carl Sagan, co-tripulantes implícitos, em rotas de maior ou menor afinidade, que deixam um lastro de influências, reconhecimentos, dívidas e dúvidas filosóficas na circum-navegação poética sem contudo seguir cartilhas alheias.

Entendemos que rimar ou não rimar não corresponde à questão fulcral desta obra. Se rimas existem e fluências musicais emergem, tal não acontece por questões metatextuais ou canónicas mas provenientes da busca secretamente utópica, para quem a “meta é o ponto de partida” até à ilha secreta e ignota a que chamam utopia. Este manual poemonáutico não se insere nas listas de um catecismo poético, á-bê-cê para navegadores de versos ou de um silabário para eventuais fiéis seguidores, mas assume-se antes um roteiro poético rimado de vivências, inspirações conscientes das exigências do poema alegoricamente associado à arte de marear, negando ao mesmo tempo as linearidades temporais, cruzando oportunamente o vocabulário quanto à adequação sinonímica e quanto à adequação metafórica.

No seu todo, cada poema renasce de um sentido mais profundo que atiça a compreensão aguçada dos textos abarcada pela cadeia rimada de versos que escapam à separação de estrofes e assim refazem a unidade da embarcação alegórica: Comparando poemas com naus, um verso coxo não é partir a quilha. / Questão de métrica e de harmonia, /falhar sílaba é partir uma cavilha: / perca-se o poema, salve-se a poesia”, composição poética assinalada com o número “11”. Apesar deste navegador apresentar o seu atlas como “confuso e mal iluminado”, selo virtuoso da sua modéstia, abstivemo-nos quer de o contrariar, quer de o reforçar para seguirmos a nossa remada impressiva, ao sabor da maré de algumas leituras, compreendendo o enjoo pessoal marítimo expresso, proveniente da recusa da citação clássica e dos fechos canónicos usados, ou seja, a negação de escolas limitadas e de referências obsoletas habituais: Queria acabar esta conversa de forma exemplar, /com uma citação clássica…agrrr…vou vomitar, fecho do poema “O debuxante regressa”.

Concebidas sob um horizonte de mil léguas com a ciência de quem assume tropeções e não propagandeia feitos e conquistas, as rimas e as fluências musicais não ficam ausentes, comunicando entre si nos interstícios e voltas dos versos. De algum modo, evocam a um tempo as ligações iniciais da poesia à música e emprestam expressão viva à personagem mítica da sereia cujo canto permanente e condutor deste mareante existencial ou debuxante anuncia espera, sonho e se interpela enquanto os ritmos ondeados se espraiam ao longo da obra. A aspiração da ilha utópica vai aparecendo de verso em verso, mais ou menos explicitamente, ora ao sabor das imagens antigas ora seguindo os detalhes do presente.

Toda a construção poemática corresponde a um desejo de compor a sua própria vida consciente das experimentações em torno dum roteiro plural de onde surge uma poesia sem pretensões a agrados alheios. Neste sentido, podemos falar duma poética sem espartilhos, que se sublima e idealiza através de medidas fundamentadas no próprio tropeçar, tal como avisa o sujeito poético. O prazer e a sede de viver intensificam-se mutuamente e apontam os rasgos de imagens precursoras da radiosa luz que ilumina o poema.

Tais rasgos são os alicerces desta poética que não descura o ritmo e a rima, cuja representação literária encontra na metáfora náutica uma dominação expressiva e uma possibilidade de sonho que separa a hostilidade do real duma fertilidade de escolha e tende a libertar-se da rigidez técnica. Leia-se o poema “De como se explica a teoria dos universos interiores”, onde é reconhecida a pluralidade de vozes de um mesmo sujeito poético. Negam-se linearidades temporais e outras, cruza-se oportunamente o vocabulário náutico com a adequação metafórica, sempre em busca da liberdade particular, da navegação própria, destituída de filiações cegas pela bússola pessoal duma ilha utópica. Pela poesia, assim se pretendem libertar algumas amarras da humana condição.

Os meios expressivos por excelência dos vinte e um poemas são claramente perceptíveis através das sonoridades finais e interiores nas estrofes em termos de um material que activa as potencialidades de um breviário náutico-rítmico, no qual rima e remo encontram novos rumos alegóricos através duma simplicidade que se quer visível e assumida em termos de conteúdo: rimas e remos encadeiam-se ao sabor de ondas e marés várias sem se aterem a ancoragens pré-estabelecidas, sem formarem cartas de marear de outros mareantes.

Muitas leituras, decorrentes desta ficam por fazer, mas intentámos, sobretudo, suscitar o desejo de fruição da obra, deixando os leitores livres para permanecerem ancorados ao acto mágico em que a palavra deixa de o ser – passa a ser luz. / Rimas, remos que empurram o poema / se o vento pela popa não é bastante. / Esclarecido este importante tema, continuemos, passemos adiante. Em suma, o poema faz-se com ritmo e uma gota de magia/ e na espuma que fica das palavras, por vezes, há poesia, tal como alerta o autor no poema “10”.

Evocando o paradigma de Mário Cesariny – Pode-se ser surrealista sem se ter lido Breton. Pode-se ler Breton e não se ser surrealista –, inscrito em “Mensagem e Ilusão do acontecimento surrealista”, texto que inicia o primeiro número da revista Pirâmide – antologia de Fevereiro de 1959, organizada por Carlos Loures em colaboração com Máximo Lisboa e Sena Camacho, procurámos navegar no mar das palavras deste manual de poemonáutica com letra própria, dispensando os habituais recursos teóricos alheios ou citações restritivas, com o intuito de não contaminar a seiva dos poemas náutilos em questão ou ensombrar a nossa viagem poética, aplanada e experienciada sob os auspícios dum atlas iluminado.

 

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