A IDEIA – VERTIGENS DO LUGAR – por Maria de Fátima Marinho*

*Universidade do Porto

 

ideia1Publicado em 1963, Os Passos em Volta, de Herberto Helder, continua a ser uma referência no panorama literário português da segunda metade do século XX. Constituída por pequenos textos em prosa, a obra apresenta constantes temáticas que, por vezes, se escondem sob a máscara de uma tácita legitimação da diferença. Não é com certeza, por acaso, que o último texto se intitula “Trezentos e Sessenta Graus”, sugerindo a obrigatoriedade da rotação, apesar das tentativas (frustradas, oblíquas, simuladas, dissimuladas?) de progresso e de variação.

O título deste ensaio realça a importância do lugar (ou dos lugares) num espaço que se afirma circular, claustrofóbico, gerador de angústia e de outros sentimentos disfóricos, que se pretendem exorcizar através de indicadores utópicos vislumbrados num fundo impreciso e, frequentemente, contraditório. Selecionei sete textos (poderia, rigorosamente, ter selecionado mais ou menos, ou até todos, e já não seria uma seleção!) que parecerem corresponder de modo mais imediato a essa ideia da vertigem do lugar, essa inter-relação entre o espaço e as emoções (Lehnert 2011:7), que transforma o espaço referencial num espaço emocional, repleto de ansiedade, desejo, medo, solidão, incerteza (Lehnert 2011: 8): “Holanda”, “Os Comboios que vão para Antuérpia”, “Lugar Lugares”, “Descobrimento”, “Como se vai para Singapura”, “Coisas Elétricas na Escócia” e “Trezentos e Sessenta Graus” são os textos escolhidos. Neles, conseguimos descortinar a construção de um discurso denunciador de uma posição subjetiva, sempre ligada a posições de poder, de inclusão e de exclusão, onde se constata que todos os lugares têm relações com o poder e consigo mesmos (Varela e Dhawan 2006: 243-244), desafiando o sistema estabelecido.

A configuração de lugares alternativos poderá indiciar uma ausência de espacialização concreta (Giroux 2006: 273), que dará lugar a alterações na noção do espaço convencional (Poppe 2011: 78) e à respetiva subjetivação emocional. É talvez em “Os Comboios que vão para Antuérpia” e em “Lugar Lugares” que encontramos essa negação de espaços reais, concretos, que se atualiza em frases como: “(…) os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa.” (Helder 1980: 51).

Mesmo quando lemos que “o lugar começa a ser cada vez mais um lugar” (Helder 1980: 56), não devemos esquecer que “O lugar em que penso é difícil, sempre difícil”, porque não corresponde nunca à estabilização que, idealmente, se poderia pretender: “Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.” (Helder 1980: 52).

A falência do lugar leva à instabilidade máxima, isto é, os referentes deixam de ter valor absoluto, podendo todos eles resumir-se a simples significantes, como em “Como se vai para Singapura”: Mas em Amesterdão nem sequer existia a rua que o meu amigo tinha indicado e, claro, nunca houve em qualquer parte do mundo um homem chamado Max Hughes que conseguisse embarcar gente para Singapura. Às vezes chego a pensar que não existe nenhuma cidade com tal nome. Mas não é nem nunca foi essencial. A comoção e a esperança, sim, essas existem, e são o tema dos nossos dons, a nossa tarefa. E é nelas próprias que o milagre pode ser assumido. (Helder 1980: 115).

A redução do espacial ao emocional traduz-se num estilo atemporal e onde o espaço só pode ler-se numa essencial relatividade. Esta certeza, aliada à transitoriedade ilimitada do amor, condiciona a categorização do sujeito que se posiciona privilegiadamente num espaço ambíguo, instável, de passagem, entre pontos de difícil definição. A importância dos comboios, das estações, da passagem, torna-se evidente (Fusillo 2011: 45), bem como todos os lugares onde o efémero prevalece (Lehnert 2011: 53), instaurando um espaço intermédio entre o público e o privado, espaço que favoreça a instabilidade e o trânsito e que culmine no regresso e na utopia:

Mas nada é tão bom para esse equívoco sentimento de plenitude, essa paragem e retrocesso brusco do tempo, a estupenda pureza reconquistada, como encontrar-se no comboio de regresso. Ele pensa em como esses mesmos caminhos foram percorridos alguns anos antes, em sentido contrário, e agora parece-lhe reconhecer as árvores depois da estação, a casinhota coberta com chapas de zinco vermelho, a ponte rangente, a enorme lâmpada balançando ao vento. Assume as forças e os desígnios que o movem para a cidade antiga, sente-se difusamente fraterno com essa gente que viaja para o mesmo destino. Como uma espécie de remorso, há a lembrança de um quarto nu, lá longe num país estrangeiro. Lá onde esteve quase a morrer de fome. De solidão. (Helder 1980: 192-193)

O percurso, que leva a este possível regresso, terá todos os ingredientes, que aqui se vislumbram e que percebemos não estarem ultrapassados, se atentarmos bem nas últimas frases do texto e do livro: «Que grande aranha, esta mãe velha. As suas patas finas corriam sobre o bordado. Bordaria pelos séculos adiante.» (Helder 1980: 193). A teia do bordado, evocadora do labirinto, prefigura o emaranhado vivencial que se desdobra em todo o livro, conjugando, como veremos, a ideia do labirinto com a do espelho, potenciador do descentramento (Schmitz-Emans 2011: 15), porque de um mundo contrafactual, ilusório, desestabilizador de um sujeito uno, que terá também dificuldade em relacionar-se com o outro, através de um sentimento de inadaptação fundamental (Agier 2013: 8).

O sujeito, ao dizer que “viv[e] afogado na história de outros homens” e que “vai perdendo o nome pelo país adiante” (Helder 1980: 17), demonstra como o título “Holanda”, e outros que usam topónimos reais, mais não são do que o simulacros de um vazio que potencia a sensação claustrofóbica do labirinto: “Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco” (Helder 1980: 50), lê-se em “Os Comboios que vão para Antuérpia”.

Esta experiência da incerteza e da insegurança (Agier 2013: 7) torna inseguros e ambíguos os elementos de estabilização do sujeito, desde o lugar, ao tempo e à identidade, criando um terrível sentimento de solidão, apesar de aquele se sentir “afogado na história de outros homens” (Helder 1980: 17). A afirmação, presente no último texto, dá conta desse sentimento que conduz, facilmente, ao desespero e ao suicídio: Quando as mães estão velhas, encontramo-nos absolutamente sós. (Helder 1980: 189).

A falta de fé com que o sujeito espera pelos comboios (“Pensava nos comboios como quem pensa em deus: com uma falta de fé desesperada”, Helder 1980: 49) legitima as insinuações de suicídio, latentes em toda a obra, explicitadas nesta frase de “Lugar Lugares”: E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. (Helder 1980: 57).

A inevitabilidade do suicídio é indiciada pela perda do nome (“vai perdendo o nome pelo país adiante”; Helder 1980: 17), conduzindo a uma armadilha identitária (Agier 2013), fonte de elaboração de um sentimento próprio do estrangeiro, apanhado na rede de um espaço que se assume como a negação da pertença (Giroux 2006: 272). Estrangeiro, de facto e de atitude, o sujeito perde-se no labirinto (Agier 2013: 6) da existência, errando em espaços neutros, que enche de sentidos contraditórios, ambíguos, frequentemente, mais obsessiva do que objetivamente hostis (Agier 2013: 131), encarnando a figura do nómada, cujo lugar é o seu próprio corpo (Giroux 2006: 278). Não será, pois, de estranhar a distância que o sujeito coloca entre si e os holandeses (os outros) ou a afirmação de que “talvez não houvesse lugar na terra para ele.” (Helder 1980: 58), dado o seu estatuto de estrangeiro total: não o que é de outra terra, mas o que nega qualquer sentimento de pertença: O que esse homem procurava e achou não é exemplo. E embora toda a poesia seja uma proposta ou solução moral, nós, os desta nação, mal podemos imaginar as alegrias e dores do homem estrangeiro, ao frio e à névoa, na grande solidão dessa rua circular que talvez não exista em Antuérpia nem noutra qualquer cidade de um tão grande, tão grande mundo. Mas quem pode confiar em nós, que somos desta terra, e por isso tão pouco a conhecemos? (Helder 1980: 91).

Não é por acaso que, neste excerto, o narrador fala de si como de um outro, tentando analisar e explicar, utilizando o artifício da focalização externa, a inevitabilidade da derrota, da impotência.

A interrogação final desvenda a fragilidade do eu, que pressente a sua incapacidade em lidar com lugares que o impedem de apreender a totalidade do ser e da sua situação no mundo.

Estas palavras no fim do conto “Descobrimento” favorecem, assim, a interpretação do espaço como hostil (não somos de lado algum, como diz Giroux 2013:273), circular, infernal.

O texto “Lugar Lugares” dá bem conta disto ao falar no inferno e no paraíso e na circulação incessante das pessoas entre estes dois espaços. À ambiguidade do espaço junta-se a do tempo, desestabilizadora dos saberes adquiridos. O conto “Teorema”, transpondo a história da morte de dois dos conselheiros de Afonso IV às mãos de D. Pedro para um cenário onde o século XIV convive com o XX, num caso exemplar de história paratática, é um exemplo interessante do modo como o tempo e o espaço se interpenetram e como a ausência de espacialidade concreta se completa com a atemporalidade utópica: Também havia uma pêndula ressoante por onde o tempo se introduzia nas pessoas. (…) Felizmente não se pode assistir ao vagaroso envelhecimento de uma pessoa (Helder 1980: 189), lê-se em “Trezentos e Sessenta Graus”.

Tempo e espaços hostis, inexplicáveis, “cidades inexplicáveis”, Helder 1980: 17), difíceis, que o sujeito não consegue dominar e que recusa liminarmente ao afirmar a sua incompreensão: “Entendemos tão pouco destas belezas bárbaras da civilização.” (Helder 1980: 88). A sensação claustrofóbica (“E foi então que encontrou a rua circular”, Helder 1980: 89) gera a angústia e o desespero, potenciando o suicídio.

O texto “Coisas Elétricas na Escócia”, ao dar conta de uma criança que dá choques, põe em relevo o prodígio que é o seu caráter demoníaco, ao subverter a ordem natural das coisas: “Resumindo: uma criança escocesa de Aberdeen não dá choques.” (Helder 1980: 176). Perante esta afirmação categórica, a única saída parece ser a morte, uma vez que só esta “acolhe convenientemente quantos, por um momento, encarnaram as forças do assombro.” (Helder 1980: 178).

O “lugar de incessante criminalidade” (Helder 1980: 178), que surge por força da perturbante transgressão, acaba por tender para “um estilo sem tempo nem lugar” (Helder 1980: 52), formatando realidades alternativas, enviesadas pela interferência do espelho que com o labirinto se conjuga (Schmitz-Emans 2011: 15) para desorientar um sujeito que o narrador vai esvaziando do nome (“vai perdendo o nome pelo país adiante”, Helder 1980: 17) para se perder na imobilidade, que parece entrar em contradição com a ideia de partida, mas que, na verdade, se complementa na improvável relação de conflitualidade obrigatória: Agora vigia a paz devoradora dos animais, as coisas, a imobilidade. Vou partir – imagina. As cidades ardem, os campos enlouquecem. Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. (Helder 1980: 17-18).

A alteração abrupta de pessoa gramatical (e estamos no primeiro texto que encena um narrador em terceira pessoa, “Holanda”) demonstra a interferência do eu e do outro, o reflexo especular, que duplica realidades díspares, acentuando o caráter simulado e dissimulado do sujeito e da sua relação com o lugar. “Como se vai para Singapura” é, talvez, o texto exemplar no que ao jogo entre o falso e o verdadeiro diz respeito. A própria cidade de Singapura não parece ter existência real, é o lugar utópico (“Singapura está muito acima dos merecimentos de um homem”, Helder 1980: 112), o lugar que se deseja, mas de cuja existência nos permitimos duvidar. A insistência no jogo, no simulacro, só pode desembocar numa utopia, que, tal como o nome, antecipa, é impossível, mesmo se podemos aceitar a importância do descentramento como fundador do mundo contemporâneo (Agier 2013: 8): Uma pequena cervejaria, uma pequena cidade destinada, em nós, ao puro jogo. Era um palco. (…) O meu papel era ficar muito atento – atento e recetivo como um espelho onde se via a figura mostrar que não tinha nada na manga (onde tinha tudo). Brilhava. Fazia os gestos, dizia as palavras. E ia regulando cuidadosamente a fonte de onde brotavam as verdades. O teatro era este: a verdade impossível na Holanda – tudo falso, luminoso, necessário. (Helder 1980: 111)

A explicitação é clara, nada mais resta a não ser a legitimação natural de seres inadaptados, como a criança escocesa que dá choques, o coelacanto ou a estranha doença de pele. Todos os textos concorrem para a definição de um lugar que se confunde com a vertigem que ele próprio provoca.

Bordado, labirinto, aranha, mãe velha, cidades estranhas (estrangeiras), quartos, celas prisionais, arenas, confronto com o touro (“Aquele que dá a Vida”), excecionalidade(s), morte: circularidade angustiante, impossibilidade de vencer os desafios latentes em espaços, que são simultaneamente, de desejo, de trânsito (Lehnert e Siewert 2011), de prisão (real e simbólica), de impasse.

As vertigens do lugar são várias e arrasadoras: confinado na circularidade dos passos em volta, o sujeito, falando em primeira ou terceira pessoas, pouco importa, reflete a importância do que se poderá chamar de “spatial turn” e as relações entre o espaço e as emoções, tal como a recolha de textos, intitulada Spaces of Desire – Spaces of Transition, da responsabilidade de Gertrud Lehnert e de Stephanie Siwert, e publicada em 2011, equaciona. O cosmopolita é também o indivíduo contraditório, de lugar dificilmente identificável, preso na teia do seu próprio labirinto, apanhado numa armadilha identitária, como refere Michel Agier, no seu recente estudo publicado já este ano.

Herberto Helder sente essa necessidade de autoapresentação, como se revela, prioritariamente, em Apresentação do Rosto (1968) e em Photomaton & Vox (1979), de esconjurar os demónios que se perfilam nos lugares mais improváveis, nos meandros de um discurso que não consegue sair de uma circularidade asfixiante.

 BIBLIOGRAFIA CITADA

AGIER, Michel (2013), La Condition Cosmopolite – L’Anthropologie à l’épreuve du piège identitaire. Paris : Editions La Découverte
FUSILLO, Massimo (2011), «The Railway Station as Heterotopia: between Sacredness and Sexuality», LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds, Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften, 45-52
GIROUX, Dalie (2006), «Utopie / Terre / Sôma», REIS, José Eduardo e SILVA, Jorge Bastos, eds. (2006), Nowhere Somewhere – Writing, Space and the Construction of Utopia. Porto: Editora UP, 269-282
HELDER, Herberto (1980), Os Passos em Volta. Lisboa: Assírio e Alvim [1963]
LEHNERT, Gertrud (2011), «Solitudes of Transition: Hotels (Marcel Proust and Vicky Baum), LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds, Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften, 53-60
LEHNERT, Gertrud (2011), «Space and Emotion in Modern Literature», LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds, Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften, 7-11
LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds. (2011), Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften
MARINHO, Maria de Fátima (1982), Herberto Helder – A Obra e o Homem. Lisboa: Arcádia
POPE, Sandra (2011), «Spaces of Anxiety in Modern Literature», LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds, Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften, 77-87
REIS, José Eduardo e SILVA, Jorge Bastos, eds. (2006), Nowhere Somewhere – Writing, Space and the Construction of Utopia. Porto: Editora UP
SCHMITZ-EMANS, Monika (2011), «Mirror and Labyrinth», LEHNERT, Gertrud e SIEWERT, Stephanie, eds, Spaces of Desire – Spaces of Transition. Frankfurt am Main: Peter Lang GmbH – Internationaler Verlag der Wissenschaften, 15-27
VARELA, Maria do Mar Castro e DHAWAN, Nikita (2006), «Spatialising Resistance – Resisting Spaces on Utopias and Heteropias», REIS, José Eduardo e SILVA, Jorge Bastos, eds. (2006), Nowhere Somewhere – Writing, Space and the Construction of Utopia. Porto: Editora UP, 237-250
 
 

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