Diz-se “revista missionária”. Propriedade de uma empresa missionária, sedeada em Fátima. A terra maior do mais abominável dos cultos – a dor, o sofrimento, o sacrifício, a auto-flagelação de humanos. A que se junta o culto do dinheiro. Da ostentação eclesiástica. Quem diz empresa missionária, diz acumulação de património, um pequeno-grande exército de funionários, clérigos, uns, leigas, leigos, outros. De borla. Os clérigos formatados para o voto de pobreza a favor da empresa e renúncia à família. A tempo integral, portanto. Na edição de Abril, acabada de chegar às, aos assinantes, a contra-capa apresenta uma cruz com três braços (três em uma?!) com a representação de um corpo de homem quase esquelético, pregado nela. De pé, frente a ela, a foto de uma mulher, meio-corpo bem nutrido, bem agasalhado. Sem o mínimo sinal de comoção. Sobre a cruz, em fundo vermelho vivo, um pequeno texto-poema, “Hino ao Ressuscitado”, extraído de um livro de autora. Lá, onde, historicamente, houve-há horrendo crime-pecado, incomensurável sofrimento humano à escala cósmica, com causas bem concretas, da responsabilidade de sistemas criados por elites que comem-defecam privilégios, a um ritmo alucinante, o texto consegue negar, de uma penada, a realidade histórica, morte incluída – nada mais real do que a dor, o sofrimento de seres humanos causado por outros seres humanos – ao escrever: “Anulam-se as margens do tempo de fora. /Nem ontem, nem hoje, nem dia, nem hora. /Só este momento que é intemporal. / Só esta maneira de dizer Amor. /Assim trespassado no alto da Cruz… /Assim coroado de sangue e de luz, /Ó Enamorado das almas sem norte, /Ó Ressuscitado, vencedor da Morte, /Anulas as margens do tempo de fora /E ficas connosco, aqui e agora!” Eis a Besta do cristianismo em todo o seu sado-masoquismo. Cultua a cruz, instrumento de tortura, em lugar de a destruir. Como, paradigmaticamente, faz Jesus. Só é crucificado, porque ousa enfrentar, até, o Deus das religiões, da Bíblia/Alcorão. Que se agrada de dor, de sangue de vítimas humanas. O pior dos vampiros!
28 Março 2015

