Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala
Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]
Uma colecção de artigos de Onubre Einz.
V – Será a Alemanha o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora.
Onubre Einz, L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations: Une analyse démythificatrice
Criseusa.blog.lemonde.fr., 23 de Maio de 2013
(CONTINUAÇÃO)
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B – As performances alemãs por continentes
A análise das performances comerciais por subconjuntos geográficos continentais tende a enfraquecer significativamente a ideia de que a Alemanha encontrou na exportação um motor alternativo a um crescimento económico europeu em dificuldade.
1.º As performances comerciais por grandes regiões do continente americano
Primeira constatação é a de que as exportações para o continente americano tiveram inicialmente um aumento no peso do comércio americano até 2004. Pode-se dificilmente ver nisso uma prova do sucesso do modelo alemão, mas sim o resultado de um mau desempenho da economia americana que fez da desindustrialização nacional um dos motores de crescimento das importações de bens e de capitais. Nós falamos a este respeito de um sucesso obtido numa economia em fragilidade.
O recente declínio dos EUA não indica um avanço marcado da América Latina, região emergente se assim se pode dizer. Na região mais dinâmica da América Latina, a América do Sul, as exportações alemãs não conseguiram um sucesso espectacular. Estas exportações tiveram um comportamento variável e tanto assim que tiveram a mesma importância em 2010 que em 1995. As evoluções no comércio com a América do Sul aparecem mal correlacionadas com as reformas de Schroeder.
É uma pena para a Alemanha que o progresso mais notável se tenha verificado com a parte menos dinâmica da América Latina: a América Central. A Alemanha tem muitos produtos para vender aos países emergentes, devido à estrutura de suas exportações, assunto a que voltaremos, mas não há uma correlação sólida e robusta entre a dinâmica das regiões e um forte avanço das exportações alemãs que tirem partido do crescimento económico dos países emergentes. Parece que quanto mais o crescimento de uma região é dinâmico, menos a penetração alemã é elevada. As regiões dinâmicas assemelham-se a ventres duros para o comércio alemão.
O exame do saldo da balança comercial confirma e acentua a análise precedente. O saldo da balança comercial é dominado pelo peso crescente da América do Norte (leia-se os Estados Unidos) que não deixou de se afirmar desde os anos 1990 à medida que os défices comerciais americanos aumentavam. O saldo comercial da Alemanha é ou negativo ou ligeiramente positivo com a América do Sul desde os anos 2000. É o inverso com a América central. A Alemanha não mostra de novo uma real penetração na parte mais dinâmica do continente americano se for tida em conta a sua balança comercial. Reencontra-se pois outra vez o ventre duro e macio.
É necessário por conseguinte referir que as performances alemãs na América enfraquecem muito a ideia que se tem quanto à Alemanha estar a conseguir ter muitos proveitos nos mercados emergentes. A Alemanha regista resultados mais modestos do que o que parece num continente considerado em crescimento. A tese de uma economia alemã mundializada a tirar bem as castanhas do fogo aumentando o comércio com as partes dinâmicas do continente americano não resiste à análise. A Alemanha tem com a América um volume de comércio e excedentes tanto mais fortes quanto os seus parceiros renunciam a ser economias produtivas — é o caso dos EUA — ou são pouco dinâmicos — é o caso da América Central. A Alemanha em contrapartida aproveita-se menos das regiões do continente que se distinguem por fortes crescimentos — é o caso da América do Sul.
(continua)
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[1] O título dado à colecção é da responsabilidade do tradutor.
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Ver o original em:
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