Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A minha grande crise grega
Satyjait Das, My Big Fat Greek Crisis
Economic Monitor, 26 de Março de 2015
Nunca, depois da época de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, o drama grego terá tido tanta popularidade como agora.
As audiências ficam fascinadas pelo diálogo provocador (“mendigo imoral”; “tortura orçamental como a tortura da água de outrora”), temas testados (um grego, David, contra um alemão e a União Europeia (“UE”), Golias), ficção científica, (teoria dos jogos) e sexo (um ministro grego das finanças que atrai a atenção tanto pela sua economia, pela sua aparência como pela escolha da sua indumentária). Os mercados financeiros como vigilantes a olhar e a esperar passivamente, firmemente convencidos de que a acção teatral em palco é puramente ficção.
Peças morais…
O Syriza colocou as reivindicações do governo a um nível moral. O custo humano de austeridade na Grécia é indiscutível: uma economia que reduziu o seu PIB em 25%, uma taxa de desemprego na casa dos 25% e uma taxa de desemprego nos mais jovens na casa dos 50%, grandes cortes nos rendimentos e nos benefícios sociais, reduções em serviços essenciais como a saúde, etc. Mas com isto se ignoram as acções anteriores que estão no cerne dos problemas actuais. A Grécia tem sido uma verdadeira bomba de aspirar empréstimos que impulsionaram o consumo e as despesas públicas.
A Grécia ressente-se da humilhante perda de soberania a favor das interferências da Troika. Mas um mutuário financeiramente angustiado não pode esperar que os seus credores o possam deixar sem supervisão e com plena liberdade de acção.
A UE, conduzida pelos alemães, está convencida igualmente da sua posição moral. Os acordos devem ser honrados, particularmente desde que dois pacotes de resgate lhes tenham sido fornecidos. A Alemanha recusa reconhecer que as suas grandes poupanças e excedentes comerciais contribuíram para o excesso de empréstimos e para a despesa na Grécia. Os credores foram irresponsavelmente indiferentes relativamente ao risco ao concederem créditos à Grécia. Os resgates beneficiaram os bancos, em especial, os bancos da Alemanha e da França, com perto de 10% dos € 240 mil milhões concedidos à Grécia. A Europa recusa aceitar que ela mesma terá permitido que a Grécia falsificasse as suas contas para entrar no Euro. A Europa não quer encorajar a que se pense que a moeda única é, de todo, uma má ideia tanto quanto não há uma integração política e financeira.
De forma confusa, os gregos querem um perdão parcial da dívida mas querem igualmente continuar como membros da UE e do Euro. Ninguém aqui tem as mãos limpas.
Abertura…
A acção inicial centrou-se sobre uma extensão provisória do resgate financeiro existente que expira a 28 de Fevereiro de 2015, para assim se ganhar tempo para negociações mais profundas. A Grécia procurou um empréstimo de ponte mas não uma extensão dos acordos existentes, com as suas exigências próprias de que os gregos se ressentem profundamente.
SYRIZA não queria estar associado às medidas dos governos anteriores que são culpados pela crise económica da Grécia. Procurou interromper as vendas de activos, aumentar o salário mínimo e ainda algumas pensões, recontratar os funcionários demitidos e inverter algumas reformas laborais. Mas tais alterações ao regime existente, ao contrário de uma extensão exigiriam a aprovação parlamentar na Alemanha, Holanda, Finlândia e Eslováquia, com resultados incertos.
Após várias iterações, na sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015, a Grécia e os seus credores concordaram em possivelmente concordar em tentar uma extensão de quatro meses do existente programa de resgate da Grécia, mas apenas se certas condições fossem verificadas. Com esta extensão compromete-se a Grécia a uma revisão pela tróica, bem como a continuação dos programas de austeridade e das medidas de reforma. Não há nenhum alívio da dívida.
Em troca de financiamento condicional a partir dos programas existentes, o governo grego foi forçado a uma cambalhota embaraçosa na sua posição política. O Ministro de finanças da Grécia procurou retratar o acordo alcançado como sendo mutuamente benéfico e a permitir à Grécia maior liberdade de acção. O ministro das Finanças alemão estava mais próximo da verdade quando ele gritava que os gregos estariam numa situação difícil para explicarem o acordo alcançado aos seus eleitores. O problema foi resolvido para um espaço entre alguns dias e 4 meses.
Caindo na Real…
A dívida da Grécia não é o problema de imediato. As despesas em juros excluindo os juros diferidos é de cerca de 2,6% do produto interno bruto. Isso pode-se comparar-se com os 5% para a Itália e de Portugal assim como com os 3,3% para a Espanha. A taxa de juros sobre os empréstimos concedidos pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira que compõem 45% da dívida grega é de cerca de 1,50%
A dívida Grega é geralmente de longo prazo com uma maturidade média de mais de 16 anos. Alguns empréstimos dos resgates têm como data de liquidação 2053. A Grécia tem cerca € 22,5 mil milhões de reembolsos da dívida este ano, principalmente € 4 mil milhões devidos ao Fundo Monetário Internacional (“FMI”) em Março de 2015 e €11 mil milhões, devidos principalmente ao Banco Central Europeu (“BCE”) em Junho, Julho e Agosto de 2015.
No entanto, a Grécia é improvável que seja sempre capaz de pagar a sua dívida actual. Nenhuma montanha de semântica e de desonestidade pode disfarçar esse facto que não mudou desde o início da crise. O que não pode ser pago, a seguir, não será mesmo pago.
As preocupações de muito curto prazo são a fuga de capitais, o sistema bancário e as necessidades actuais de liquidez de curto prazo na Grécia
A fuga de capital total é calculada como € 25 mil milhões desde de Dezembro de 2015 (cerca de 8% do PIB). O levantamento de depósitos dos bancos é calculado em aproximadamente € 2 mil milhões por semana, mas em aceleração. Os bancos gregos estão dependentes de financiamento do BCE para responder a estes levantamentos. Os bancos também contam com fundos do BCE para comprar títulos do tesouro necessários para financiar as operações do dia-a-dia de governo. A insistência do governo grego, em declarações públicas, que o país tem um problema de solvência e não um problema de fluxo de caixa de curto prazo é estranho, mesmo que isto seja verdade. Teoricamente, o BCE não pode financiar os bancos gregos se eles são insolventes, o que iria aprofundar a crise.
A 4 de Fevereiro de 2015, o BCE deixou de aceitar a dívida do governo grega como garantia nas operações de política monetária, eliminando o acesso dos banco gregos para concessão de empréstimos a baixa taxa de juro. Ao mesmo tempo, o BCE concordou em fornecer um maior acesso aos bancos gregos quanto a financiamento através do seu programa de assistência de liquidez de emergência (“ELA”) a taxas de financiamento mais elevadas. O bloqueio à assistência via programa ELA (actualmente perto do seu limite tampão de € 65 mil milhões) iria precipitar um colapso do sistema bancário.
A Grécia também precisa de €30 a 50 mil milhões este ano para operações normais e para pagar a dívida que este ano atinge a data de liquidação. Com efeito, é necessário um novo financiamento sem o qual qualquer acordo de ponte a alcançar não levará a lado nenhum.
Esta exigência de caixa, de dinheiro a curto prazo, e as manobras tácticas do BCE, efectivamente a agir como sendo a autoridade da UE, podem explicar o embaraçoso e politicamente arriscado retroceder à extensão temporária.
Por baixo da pele …
Os efeitos de austeridade e a redução do PIB são um problema. A Grécia, fundamentalmente, sofre da falta de rendimentos.
A arrecadação de impostos caiu em antecipação da vitória esperada de Syriza para reduzir os impostos a pagar. O actual governo está decidido a combater a evasão fiscal e melhorar a cobrança de impostos. Ao mesmo tempo desejável, num mundo de capital móvel, é difícil ver como é que esta medida irá ter qualquer impacto a curto prazo. O governo grego espera arrecadar mais de € 5,5 mil milhões a partir da reforma fiscal e de uma autoridade mais vigilante pelo respeito da lei. Mas também pretende fazer um perdão de mais de € 70 mil milhões em multas não pagas contra os contribuintes.
A Grécia é internacionalmente não competitiva. Mesmo no turismo em que goza de vantagens, ele luta para competir com a Turquia e com outros destinos resort do Mediterrâneo. Em parte, este é o resultado do custo elevado do euro que se compara desfavoravelmente contra a lira turca, sub-avaliada, barata.
Desde o início da crise grega, a desvalorização interna, principalmente através de salários mais baixos, reduziu os custos em cerca de 15%. Mas isso não resultou em nenhum aumento significativo nas exportações. A correcção do défice da balança corrente da Grécia reflecte a queda de importações devido a uma economia interna em brutal contracção do PIB, em vez de traduzir aumento significativo das suas exportações.
Fora do turismo e de alguns produtos agrícolas, a Grécia simplesmente não tem muito para exportar. Os custos de energia mais elevados (sobrecarregados de impostos e taxas específicas sobre a electricidade) e (mais recentemente) a falta de crédito bancário reduzem a sua competitividade. Uma fraca procura global do exterior é prejudicial para as perspectivas de exportação de produtos gregos. Como resultado, as exportações de mercadorias gregas representam apenas 17% do PIB, muito inferior à Alemanha (38%), ae Portugal (29%) e a Malta (37%). Na zona euro somente Chipre com 13% tem um peso mais baixo.
Extensões e negociações de dívida não tratam nem resolvem o problema de que a Grécia tem rendimentos insuficientes para cumprir os seus compromissos de despesas. Apenas se andam a adiar os problemas.
(continua)
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Ver o original em:
http://www.economonitor.com/blog/2015/03/my-big-fat-greek-crisis/



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