A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA – UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – IX – A DESIGUALDADE DE RENDIMENTOS, A SUB-ACUMULAÇÃO DO CAPITAL E A CRISE ACTUAL DOS CAPITALISMOS HISTÓRICOS – por ONUBRE EINZ – I

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real – o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

IX – A desigualdade de rendimentos, a sub-acumulação do capital e a crise actual dos capitalismos históricos

Onubre Einz, Inégalité de revenus, sous-accumulation du capital et crise actuelle des capitalismes historiques

Criseusa.blog.lemonde.fr., 4 de Julho de 2013

Façamos um texto relativamente elementar. Demonstrámos a tese segundo a qual a queda da taxa de investimento aos EUA resultava de uma divisão muito desigual da repartição do rendimento, onde os dois decis de topo se apropriavam de uma grande parte da riqueza e do património criado ; apropriação esta com forte incidência negativa sobre os investimentos e os rendimentos das outras famílias. Falamos de uma queda da taxa de acumulação directamente ligada ao peso crescente dos 10% das famílias de topo.

Para explicar a queda das taxas nacionais de acumulação de capital produtivo nos capitalismos históricos, retomámos esta tese, limitando-a às interacções entre rendimento e queda na taxa de investimento produtivo.

Queremos então tentar verificar se esta tese americana pode ser aplicada a taxas de acumulação produtiva evocando o lugar tomado pelo rendimento das famílias, as famílias dos 10% de topo. Nós seleccionámos os países com desenvolvimentos que datam já desde antes da primeira guerra mundial; a longa crise que eles estão agora a passar é explicada aos nossos olhos pela insuficiente taxa de investimento pelo baixo stock de capital produtivo.

Utilizámos dois indicadores para analisar esta questão: a taxa de acumulação produtiva medindo o investimento produtivo em geral (edifícios e equipamento no caso do Japão e os EUA) ou uma fracção dele (equipamento) no caso de países europeus. Os dados utilizados para medir o investimento sendo heterogéneos, são então as evoluções das curvas que vamos comentar uma a uma. Procederemos a uma análise dos dados por país (A) antes de expor algumas reflexões sobre a blocagem geral das economias desenvolvidas que se afundam numa crise que parece sem saída rápida (B).

Estamos, portanto, a verificar a validade da extrapolação da leitura da crise americana nos outros países desenvolvidos; nos precisamos, de passagem, o papel das gentes ricas e abastadas (os 10% das famílias com rendimentos mais elevados), as populações privilegiadas (as famílias dos 1% de topo) e a oligarquia ou hiper-burguesia (Top 0,1% ou 1/1000). Esta extrapolação explica-nos a crise actual por uma sub-acumulação crónica de capital nas economias desenvolvidas, uma sub-acumulação que, com o estabelecimento de uma nova divisão internacional do trabalho, nos trouxe para a depressão actual, que é assim o produto de uma desestruturação profunda e antiga.

Lembramos um princípio de base desta análise ainda antes de começarmos: quanto mais a percentagem de rendimento no PIB aumenta, mais o investimento baixa. E quanto mais o investimento baixa, mais o rendimento e a sua repartição aponta o dedo para todos aqueles que beneficiaram destas descidas.

A Análise dos dados com a progressão dos rendimentos dos 10% das famílias de topo.

1° – Os países exemplares da tese avançada.

A revolução neoliberal começou na Grã-Bretanha, com a chegada ao poder de Margaret Thatcher, é através deste país que vamos começar.

Onubre Einz - desigualdade - I

A correlação entre o crescimento do rendimento dos mais ricos e a queda da taxa de acumulação produtiva é exemplar, esta coincide com a chegada de Margaret Thatcher ao poder em 1978. Depois de 1979, a parte do rendimento dos 10% das famílias de maiores rendimentos continua a crescer, os mais ricos ganham mais de 14 pontos na repartição do rendimento entre 1978 e 2007.

A taxa de investimento à baixa permitiu em parte este aumento da parte dos rendimentos auferidos pelo conjunto dos 10% das famílias de topo. Além disso, deve notar-se que a recuperação do investimento depois da crise de 2007-2008 foi acompanhada por uma queda mecânica da parte dos 10% das famílias de topo no rendimento e desde essa data.

A descida do investimento pode ser explicado antes de 1979 pela crise da década de 1970. Mas após essa data, é tendencioso explicá-la pela ganância e pela sede de riqueza de 10% dos britânicos ricos e abastados.

Onubre Einz - desigualdade - II

O caso americano é o segundo exemplo dos efeitos sobre o longo prazo da concentração dos rendimentos nas mãos do conjunto dos 10% das famílias com rendimentos mais altos. Com excepção dos anos Clinton, há uma clara correlação entre o aumento da parte dos rendimentos dos americanos e a queda tendencial da taxa de investimento. Antes de 1980, a estabilidade por parte das famílias deste conjunto ( o do 10% de topo) na distribuição de rendimentos permite um aumento do investimento que se faz á custa da parte que representa o rendimento na riqueza nacional. Depois desta data, a relação é invertida, de 32% da parte do rendimento (1980), as famílias dos 10% de topo passam a dispor de 46,5 % em 2011. A taxa de acumulação cai fortemente entre 1980 e a primeira década do XXI. Situado entre 14,5 e 15% na viragem da década de 1980, a taxa de acumulação produtiva cai para 11% (aproximadamente) nas vésperas da crise (2007) e resta inferior a menos de 10% em 2011.

Onubre Einz - desigualdade - III

A Itália ainda constituiria um exemplo impressionante das mudanças entre a concentração da riqueza nas mãos do conjunto dos 10% das famílias de rendimentos mais altos e a queda da taxa de acumulação produtiva. A data da ruptura da tendência coincide aproximadamente com a da revolução liberal na Grã-Bretanha, no final da década de 1970. A queda da tendência do investimento vai a par com um aumento significativo da parte das famílias do último decil ( o dos !0% de topo) na repartição do rendimento, (+ 8% entre 1984 e 2007). Antes da década de 1980, é interessante notar, que a queda da parte do rendimento das famílias deste decil foi acompanhada de um nível elevado e crescente de acumulação. Durante este período, os rendimentos elevados tem sido eles os que mais suportaram o investimento e mais do que o resto dos italianos.

Onubre Einz - desigualdade - IV

 O Japão oferece um outro exemplo recente de correlação entre as taxas de acumulação produtivas e a parte dos rendimentos do conjunto dos 10% das famílias de rendimentos mais elevados.

Antes de 1990, não existia nenhuma correlação clara entre a parte do rendimento dos mais ricos e a taxa de acumulação de capital produtivo. Crescendo muito fracamente (30,7% em 1960 e 33,7 em 1990), a parte do rendimento das famílias dos 10 dos rendimentos de topo não teve nenhuma influência sobre a taxa de acumulação produtiva que permanece ligada às incertezas económicas e à longa crise da década de 1970.

Por outro lado, tudo muda na década de 1990. A parte do rendimento das famílias do conjunto do último decil descola (+ 7-8 pontos) desde o início da década de 1990. E encontramos uma correlação exemplar entre a queda da taxa de acumulação e o aumento da parte do rendimento das famílias do conjunto dos 10% de topo que capturaram uma parcela crescente do rendimento gerado e em que esta taxa aumentou com a queda da taxa de acumulação produtiva durante este período.

Onubre Einz - desigualdade - V

A tese que aqui apresentamos só é válida para a França desde a década de 1990. Antes da década de 1980, a queda da taxa de investimento, não beneficiava os rendimentos das famílias ricas e muito rica devido a uma queda dos próprios rendimentos..–gerada pela queda da taxa de investimento – beneficiava, isso sim, os restantes 90% da população.

Desde a década de 1980, uma forte correcção de tendência passou a ocorrer: a ascensão muito forte na parte dos rendimentos das famílias do último decil, o dos rendimentos de topo, entre 1981 e 1991, é acompanhada de um rápido aumento da taxa de acumulação produtiva que foi financiada por um declínio da parte do rendimento dos outros 90% da população.

Mas é especialmente a partir da década de 1990 que a correlação entre o aumento da parte dos rendimentos das famílias dos 10% de rendimentos de topo e a queda da taxa de investimento produtivo se passou a verificar. A partir da década de 1990, a tímida retoma da parte dos rendimentos das famílias do último decil, afectada pela crise de 1991, assume uma forma mais afirmada, especialmente depois de 1996. A partir desta data, a taxa de acumulação produtiva permanece em níveis muito baixos (em torno de 0,5 e de 0,6 ou seja 5 a 6%), com apenas três anos a serem excepção.

O caso da França é original porque ele revela uma formação excessiva de rendimento, pesando sobre o investimento ao mesmo tempo que o aumento de peso dos rendimentos superiores nesta partilha, pesos estes, ambos, a arrastarem uma queda na acumulação produtiva sensível após o pico de 1990.

(continua no domingo, 3 de Abril)

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[1] O título dado à  colecção é da responsabilidade do tradutor.

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