EDITORIAL – O ACORDO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

logo editorialQuando, há cerca de trinta anos, a questão do Acordo Ortográfico começou a ser discutida, um dos argumentos mais usados era o de que a «unificação da Língua» iria facilitar a penetração do livro português no mercado brasileiro. E é curioso notar como a classe dos editores que começou por atacar o projecto, usando argumentos válidos à mistura com exageros e previsões tremendistas, se rendeu  e passou a defender o AO.

Entre as muitas falácias a que os defensores do Acordo recorreram, a de um mais  fácil acesso ao mercado brasileiro, foi das que mais rapidamente se desmoronaram – o mercado brasileiro manteve-se impenetrável. No estado vizinho as coisas passam-se de modo diferente. Espanha manteve a sua Real Academia como fiel de uma balança onde se afere a evolução da língua castelhana nos, salvo erro, 22 estados onde é falada.

O fracasso deste projecto, em que as motivações políticas sufocam as razões de natureza científica, é visível no facto de só em Portugal, onde a oposição ao Acordo foi mais viva, onde a argumentação contrária a um evidente atentado contra a Língua Portuguesa foi, apesar de alguma inevitável demagogia e de algum dispensável catastrofismo, só em Portugal dizíamos, o Acordo está em pleno vigor. Logo após o Encontro de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, realizado na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, entre 6 e 12 de maio de 1986, com intervenções de linguistas como Celso Ferreira da Cunha, Maria de Lourdes Belchior, Mário Quartin Graça, se percebeu que não iria ser pacífica a aplicação do AO. E os protocolos modificativos foram protelando a entrada em vigor do documento.

Estas considerações ocorreram-nos ao lermos no El País uma entrevista com o editor alemão Markus Dohle, um dos editores mais poderosos do mundo. Está há dois anos à frente de Penguin Random House. É um homem da Bertelsman, o gigante alemão que em 2013 se fundiu com britânica Penguin. Em Espanha comprou a Alfaguara e as restantes editoras da Santillana (Grupo Prisa). Em Portugal vendeu o Círculo de Leitores a um grupo português sem expressão internacional e as edições do novo potentado editorial chegam-nos através da editora brasileira da Bertelsman/Penguin. Com ortografia do Acordo? Não. Com a ortografia brasileira. Temos feito neste blogue  diversas tentativas de provocar um debate sério sobre este tema. Nâo tem tido a adesão que seria de esperar – as pessoas defendem ou atacam o AO apaixonadamente. Será que o leram?

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