O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – IV

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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‘O quarto Reich’: O que alguns europeus vêem quando olham para a Alemanha

Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult,

‘The Fourth Reich’: What Some Europeans See When They Look at Germany

Der Spiegel on-line, 23  de Março de 2015 

(CONTINUAÇÃO)

‘Madame Não’

A mudança da abordagem feita pela Alemanha relativamente à política europeia tem sido dramática. Helmut Kohl procurou evitar o isolamento a todo o custo quando se tratava de negociações importantes, mas Merkel tem completamente rejeitado esta abordagem. “Estou um pouco sozinha na UE, mas não me importo. Eu tenho razão”, disse Merkel certa vez a um pequeno grupo de assessores, durante uma discussão sobre o papel do FMI. Mais tarde, afirmou: “Somos para a Europa o que os americanos são para o mundo: A não amada potência dominante “

O Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, disse, durante a sua campanha em 2014, como o principal candidato de centro-esquerda a Presidente da Comissão, que muitas vezes se questionou a si-mesmo : “Como é que poderei assumir o cargo de presidente da Comissão Europeia? Eu sou sobretudo um alemão .” Schulz, deve ser dito, , fala quatro idiomas fluentemente, passou quase toda a sua carreira política, em Bruxelas, e há muito tempo lutou por relações franco-alemãs positivas. “Eu era visto como sendo parte do domínio alemão”, diz ele. “Há esta sensação de que a Alemanha é muito poderosa, mas quando se  levantam algumas perguntas à volta deste domínio, nunca se tem uma resposta concreta.”

Altos funcionários da Chancelaria têm reflectido sobre a forma como é que as coisas chegaram a este ponto e chegaram à conclusão de que esta trajectória se deve mesmo muito ao papel desempenhado pelos Estados-nação durante a crise do euro. Somente os governos nacionais [ditos financeiramente fortes], afinal, foram capazes de mobilizar rapidamente suficiente dinheiro para o resgate dos países da zona do euro em dificuldade. Além disso, quanto mais fraca ficava a economia francesa mais forte e poderosa aparecia a Alemanha.

Merkel é muitas vezes referida como “Madame Não”. Quando um dos outros líderes da UE acaba de falar durante as reuniões do Conselho Europeu em Bruxelas, diz-se, as pessoas tendem a olhar primeiro para Merkel para avaliar a sua reacção.

Mas as caricaturas dela com um bigode de Hitler? Referem-se elas à Alemanha de hoje como o “Quarto Reich”?

Os nazis chamavam à sua Alemanha o “Terceiro Reich”, num esforço para se colocarem eles mesmos em consonância com duas eras anteriores do domínio alemão. A primeiro foi a do Sacro Império Romano, nascido na Idade Média.

Hof Friedrichs II. zu Palermo / Ramberg - Court of Frederick II at Palermo/Ramberg - La Cour de Frederic II a Palerme
Those claiming the existence of a “Fourth Reich” are comparing today’s Germany with German dominance of old. The first “reich” was the Holy Roman Empire, which was largely led by German emperors.

Longe de ser um Estado-nação, era uma área governada por imperadores na sua maioria alemães que controlavam grande parte da Europa, tudo até à Sicília. Assim se chegou ao fim em 1806, depois de Napoleão ter conquistado muitas áreas que antes pertenciam ao império. O segundo Reich, de acordo com esta contagem, foi o chamado Kaiserreich que Bismarck fundou em 1871 depois das vitórias sobre a Dinamarca, Áustria e a França. Os pequenos estados alemães imediatamente se uniram sob a liderança da Prússia, razão pela qual se considera hoje que Bismarck terá preparado o terreno para a Alemanha contemporânea. A 1 de Abril  será celebrado o seu 200º aniversário.

Kaiserproklamation

Mas logo após a fundação do Kaiserreich, começou-se a espalhar um sentimento certamente perigoso. Era o orgulho alemão, um sentimento de serem superiores aos outros, de conhecerem melhor e de serem melhores. Mas foi misturado com a pusilanimidade e com uma sensação de estar a ser ameaçado.

O domínio dos Outros

O Reich de Bismarck, sob o imperador Guilherme II a partir de 1888, também era duma dimensão estranha ou desproporcionada. Era muito grande no sentido de que era o estado mais poderoso da Europa, levando a que a França, a Grã-Bretanha e a Rússia , todos eles, se sentissem ameaçados. Mas por si só era muito pequeno para dominar sobre a Europa. Os alemães tiveram também que formar alianças – e a lógica interna e externa destas alianças foi uma das mais importantes razões para a eclosão da Primeira Guerra Mundial I. O Kaiserreich perdeu, e separaram-se em 1918.

Hitler acreditava que a sua “Grande Alemanha” era suficientemente grande para governar a Europa, mas ele estava muito enganado. Mesmo com a mais brutal das tácticas de guerra e de opressão, a Alemanha nazi era incapaz de derrotar os aliados.

Depois do fim do Terceiro Reich, o domínio alemão no continente parecia ter sido considerado para sempre como uma impossibilidade. A Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental eram ambos inicialmente estados provisórios mais ou menos voluntariamente subordinados aos seus irmãos mais velhos, os EUA e a União Soviética. Eles cederam ao domínio dos outros.

A Alemanha Ocidental, porém, desenvolveu logo a seguir um novo instrumento – económico desta vez – de poder: o marco alemão. Porque a economia da Alemanha Ocidental cresceu rapidamente e a sua dívida soberana permanecia relativamente administrável, o banco central alemão, o Bundesbank, dominou a política económica e financeira na Europa na década de 1970 e 80. Os governos da França, Grã-Bretanha e Itália davam mesmo muita atenção às decisões que eram determinadas em Frankfurt. Pouco antes da reunificação da Alemanha, um alto funcionário do gabinete do presidente francês foi citado como tendo dito: “Podemos ter a bomba nuclear, mas os alemães têm o marco alemão.”

François Mitterrand, presidente da França, quando o Muro de Berlim caiu, não era um fã da reunificação alemã. Ele tinha medo de que um colosso alemão no centro da Europa pudesse em breve começar a procurar o seu domínio político, mais uma vez. A Primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, também pensava ela da mesma maneira, como o fizeram muitos alemães, especialmente na ala esquerda. Autores como Günter Grass acreditavam que o país gostaria de voltar a assumir o seu antigo orgulho, a sua antiga arrogância, o seu sentimento de superioridade.

O treinador da equipa nacional alemã, Franz Beckenbauer, parece ter confirmado este ponto de vista em 1990, quando, depois de ganhar o Campeonato do Mundo na Itália, afirmou: ” Somos agora o número um do mundo, depois de termos sido durante muito tempo o número um na Europa. Agora, nós temos também os jogadores da Alemanha Oriental. Lamento quanto ao resto do mundo, mas não será passível derrotar a equipa alemã nos próximos anos. “

No campo político, também, havia sinais ocasionais de megalomania. O Chanceler Helmut Schmidt acreditava ser o melhor economista do mundo no final dos anos 70 e início dos anos 80. Quando se encontrou com o presidente dos EUA, Jimmy Carter, esta reunião não foi vista o como uma reunião entre o grande país, os USA, e a pequena Alemanha, e não por causa das suas próprias estaturas físicas. Então, na década de 1990, apareceu Oskar Lafontaine, um membro dos social-democratas da época. Como ministro das Finanças alemã, em 1998, Lafontaine empreendeu o primeiro esforço para reconstruir a Europa de acordo com a visão da Alemanha. Porque este economista queria harmonizar os mercados financeiros europeus e estava a defender a construção de uma união monetária na Europa, o tablóide britânico Sun questionou-se se ele era “o homem mais perigoso da Europa”.

(continua)

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Para ler a Parte III deste trabalho do Der Spiegel on line, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

O QUARTO REICH: O QUE ALGUNS EUROPEUS VÊEM QUANDO OLHAM PARA A ALEMANHA – por Nikolaus Blome, Sven Böll, Katrin Kuntz, Dirk Kurbjuweit, Walter Mayr, Mathieu von Rohr, Christoph Scheuermann, Christoph Schult – DER SPIEGEL – III

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Ver o original em:

http://www.spiegel.de/international/germany/german-power-in-the-age-of-the-euro-crisis-a-1024714.html

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