Passados alguns meses sobre o encerramento do Congresso Surrealismo (s) em Portugal, mantenho a convicção que partilhei com quem esteve empenhado na sua organização, e o orgulho pelo que foi o conteúdo dos cinco dias de trabalhos, mas sobretudo pelo significado dos encontros que foram proporcionados. Estou certo de que o evento não terá sido do agrado de todos os que nele colaboraram ou a ele assistiram, e que é sempre difícil conseguir realizar uma iniciativa sobre um fenómeno transversal como o Surrealismo, que cada um procura definir ou sentir à sua maneira e que motiva diferentes perspectivas que tendem a chocar e a gerar dissidência, desacordo e provocação. Nem outra coisa afinal se esperaria.
Estou igualmente certo do risco, que se adivinhava à partida, de desejar uma perspectiva tão ampla e participada do Surrealismo, sobretudo quando eram evidentes as ligações à Academia, tantas vezes atacada com justiça mas também não menos em função de uma generalização que tarda em marcar passo; e a determinados paradigmas que lhe cabem e pertencem, em particular quando foi uma equipa que partia de um centro ligado à Faculdade de Letras, e que portanto não tinha ligações estruturais nem estava habituada a técnicas e a discursos que as Artes Plásticas propiciam, a projectar a sua essência e a edificar os seus primeiros esboços.
Risco que de alguma forma se correu com o espírito dinâmico, multifacetado e aberto a novas possibilidades que tem definido o CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa nos seus vários projectos, alguns dos quais particularmente inovadores e dialogantes. Contexto fundamental para que, com o tempo e com as colaborações e os acolhimentos certos, tenhamos conseguido chamar ao Congresso intervenientes e instituições que muito ajudaram à diversidade de discursos que sempre nos pareceu a forma mais acertada de pensar o poliédrico terreno do Surrealismo. Saliento, em particular, as sempre generosas sugestões que António Cândido Franco me foi fazendo chegar, e que tentei, sempre que possível, introduzir no nosso programa, certo do muito que a sua voz esclarecida e unanimemente respeitada tem para oferecer; e a iniciativa, o acompanhamento, as muitas pontes e a dinâmica que Carlos Cabral Nunes, responsável pela Perve Galeria e pela Casa da Liberdade – Mário Cesariny, generosamente ofereceu nos meses posteriores à reunião em que lhe falámos do que pretendíamos fazer e felizmente alcançámos a associação de um espaço que, da sua forma peculiar, tem promovido eventos e iniciativas de todo o interesse. E junto uma palavra de agradecimento a Perfecto E. Cuadrado, que estabeleceu comigo uma outra ponte fundamental, bem-disposta e motivadora. É a partir dos esforços, individuais ou ocasionalmente conjuntos, deste tipo de figuras que se continuará a fazer a divulgação, a memória e a vitalidade do Surrealismo em Portugal, do Surrealismo Português, do Abjeccionismo e de todos os outros assuntos do mesmo universo.
Foi gratificante perceber a assinalável aceitação que o Congresso teve junto do público, pelo número e pela constância com que nos foram agraciando. E depois pelo muito que se extraiu das participações, das perguntas, das trocas de ideias que tiveram lugar fora do espaço reservado às mesas temáticas e aos debates menos circunscritos. Foi muito assinalada entre algumas das pessoas mais constantes em termos de presença, e com quem fui falando animadamente, a riqueza da diversidade de propostas que conseguimos apresentar no mesmo programa, no mesmo evento, ao abrigo das mesmas instituições. De facto, os colaboradores marcaram presença quase na totalidade, e cada um ofereceu ao público a possibilidade de perspectivar o Surrealismo numa das suas múltiplas facetas: a memória e a vitalidade poética de figuras que participaram activamente no aparecimento organizado do Surrealismo em Portugal ou acompanharam bem de perto os seus intervenientes, possibilitando a continuidade vital e interventiva da sua voz, da sua poesia, da sua inquietação; a atitude aguerrida, questionadora e enérgica dos que continuam a viver o Surrealismo como um estado de espírito que nenhuma gaveta poderá circunscrever e nenhuma tendência aproveitar sem que fique de fora muito do seu conteúdo transversal; a generosa e lúcida colaboração daqueles que, tendo também convivido com os surrealistas e partilhando a sua mundividência, souberam estabelecer frutíferos vasos comunicantes com o estudo, a análise e a cristalização das suas figuras, dos seus percursos, das suas conquistas e dos seus dissabores; a vertente mais académica daqueles que, professores universitários ou críticos, vieram dar a sua leitura do Surrealismo, inserindo-o nos domínios do literário, da historiografia artística e da discussão filosófica a que também pertence, enquanto expressão fundamental de um percurso internacional, fundado na tradição da Modernidade e no seio das Vanguardas históricas, e de uma intrínseca riqueza nacional nas suas tonalidades bem particulares; finalmente, a gratificante diversidade de propostas apresentadas por jovens investigadores que preparam neste momento, ou recentemente concluíram, as suas dissertações de mestrado e de doutoramento e que, interessando-se pelo Surrealismo e pelo muito que ainda há a dizer e a reunir a partir dos fragmentos que o tempo e os habituais desleixos e menosprezos deixou dispersos, também contribuem para escrever páginas douradas da sua História impossível.
Foi esta diversidade que proporcionou que tivéssemos, abrindo caminho a um entendimento do Surrealismo como expressão artística pluridiscursiva, alguns momentos dedicados às Artes Plásticas e ao Cinema. É verdade que o Congresso de algum modo assentou com maior amplitude na vertente literária. Foi aliás esse o intuito que nos orientou desde o primeiro momento: partir de António Maria Lisboa e do nosso interesse e conhecimento pelas obras dos poetas e escritores ligados ao Surrealismo para um colocar em debate dos múltiplos sentidos do Surrealismo em Portugal, das várias artes e domínios do pensamento que por via dele permitiram uma revisão da totalidade do Homem como ser criador, em devir permanente e em busca de utopias eternas como o Amor e a Liberdade – daí o título que escolhemos, que na abertura a mais de uma leitura do que o Surrealismo foi e continua a ser entre nós, e de como pode ser entendido, contempla também um respeito por todo o percurso que julgamos dever ser tido em conta de cada vez que falarmos de Surrealismo em Portugal. Qualquer que seja a nossa perspectiva sobre o tema, e os interesses particulares que a ele nos conduzam, urge pensar o Surrealismo como uma constante que conhece importantes raízes precursoras que são tanto da abertura internacional que a Liberdade exige, como do contexto português, anterior e contemporâneo, que largamente sentiram como sua herança e sua especificidade; que passa por diferentes momentos colectivos, cujas posturas diferem mas que, justamente por essa divergência, mais enriquecem o fenómeno surrealista em língua portuguesa; e finalmente que encontra uma pluralidade de braços com os quais prolongar o grande rio à procura de todos os Desconhecidos a encontrar. Da Idade Média a Ruben A., a Natália Correia, a Manuel da Silva Ramos, a Rui Zink, a Rui Nunes ou ao que vai sendo feito hoje em torno da Casa da Liberdade – Mário Cesariny ou da presença surrealista em diálogo internacional de Miguel de Carvalho, o entendimento do Surrealismo que propusemos cumpriu-se num arco significativo. Com outras vertentes possíveis, certamente. Mas que não excluem nenhuma destas. Muito menos quando as páginas de A Ideia não deixaram de marcar presença, reunindo os colaboradores da mesa em que com grande honra dei o meu contributo.
Fico especialmente satisfeito por ter conversado com Artur do Cruzeiro Seixas, voz activa e representante desse leque de personalidades a que António Maria Lisboa pertenceu e que, para muitos dos que participaram no evento, entre os quais me incluo, representam o que de mais profundo e necessário o Surrealismo Português trouxe ao convívio da Lusofonia. É da lucidez, da elevação, da revolta assertiva, informada e motivadora de homens como este que se fazem os momentos realmente marcantes e memoráveis de iniciativas como este Congresso. Estou certo de que a memória comovida e grata que Cruzeiro Seixas nos deixou do grande poeta de Erro Próprio, de Ossóptico e de tantas outros preciosos documentos é a mais justa, a mais merecida, a mais comovente homenagem que se lhe poderia ter prestado nos 60 anos do seu falecimento. Satisfação enorme a de ter contribuído para que Cruzeiro Seixas regressasse por alguns dias a Lisboa, conversasse com os seus amigos de ontem e de hoje, pudesse responder, com o temor de uma criança eterna, às perguntas lhe foram feitas e recebesse de todos o aplauso, a estima e o incontornável respeito que merecerá sempre. Emoção enorme a de ter ouvido, sentado ao seu lado enquanto representante da jovem e dedicada equipa que fez possível este cais para novas reuniões em torno do Surrealismo, a expressão da sua saudade, a enternecedora nostalgia da sua juventude, a dedicação ao génio de Mário Cesariny, o seu encanto pela terra africana em que deixou parte essencial do seu imaginário, a delicada saudação a todos os que continuam a falar de si e dos seus companheiros de jornada.
Emoção essa equiparável à que senti quando confrontado com as vibrantes presenças de Fernando Grade e de Eurico Gonçalves, que, na sua tão própria maneira de viver as palavras, os gestos e as opiniões, proporcionaram intervenções que por momentos me fizeram sentir parte de um qualquer Café Gelo em que me sentasse, discreto e ciente do leque de amarras que dos surrealistas me separará sempre, a ver a Poesia acontecer, alegre, amarga, contestatária, ilógica, dilacerante, apaixonada, erótica, Vida. A este Congresso deverei sempre o estabelecimento destes contactos notáveis, que se têm prolongado ao ritmo da generosidade de cada um e da disponibilidade que o meu trabalho vai proporcionando. E por via destes contactos a ponte provisória para o Amor, o Sonho, a Liberdade, a Poesia.
Concluo desejando apenas que alguma coisa deste evento possa ter ficado na memória daqueles que o acompanharam e o tornaram possível. Que outros eventos possam futuramente colocar o Surrealismo no cerne dos debates cruciais e fracturantes do nosso tempo, em todas as vertentes que possamos conceber. Que esses encontros e acções possam receber deste Congresso a dedicação, o empenho e o respeito pelas diferentes formações e posturas que quase sempre o caracterizou, conjugando-lhes outras certezas, outras ferramentas, outras possibilidades materiais e humanas. Que de alguma forma pelo menos uma, de entre as muitas que se sentaram nas salas da Gulbenkian, da Casa da Liberdade – Mário Cesariny e do Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, se tenha sentido tentada a conhecer um pouco mais da galáxia surrealista, a pegar num livro para se mesclar às imagens poéticas avassaladoras ou a contemplar num quadro ou objecto artístico surrealista as possibilidades sempre em aberto do imaginário humano.
Obrigado a todos os que acreditaram neste Congresso e me ajudaram, muitas vezes contornando as minhas muitas intermitências, a fazê-lo acontecer.

