Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Finlândia: mais austeridade não é seguramente a resposta
Bill Mitchell, Finland – more austerity is not the answer
Billy Blog, 21 de Abril de 2015
Publicação autorizada pelo autor
(conclusão)
…
O gráfico seguinte diz-nos muito se o combinarmos com o conhecimento do que estava a acontecer naquela altura. Mostra o crescimento anual no GDP real na Finlândia (em percentagem) desde 2006 até 2014 (utilizando os dados de Eurostat). As barras mostram o défice orçamental em percentagem do PIB durante o mesmo período.
Ao longo da Grande Crise, a Finlândia foi tendo excedentes orçamentais e ao mesmo tempo que claramente tinha forte crescimento, em que este era sustentado pelos excedentes comerciais (devido ao peso de Nokia).
Quando a Grande Crise bateu à porta da Finlândia, os excedentes orçamentais desapareceram – sem surpresa dado que o PIB real tinha descido de 9,7 pontos percentuais entre o quarto trimestre 2007 e o segundo trimestre 2009.
Os crescentes défices orçamentais apoiaram um relativamente rápido retorno ao crescimento em 2010 mas as medidas discricionárias para tentarem reduzir o défice orçamental em 2010-11 viram o crescimento reduzir-se e, depois, viram-no desaparecer e depois de um ano de mais baixo défice orçamental, a Finlândia viu mais uma vez o seu défice orçamental a aumentar.
A razão é óbvia. Indo a par com o mito da austeridade, o governo finlandês não só minou o processo de crescimento da economia, mas também frustrou as suas irreflectidas ambições de vir a alcançar rapidamente um excedente orçamental.
Para obter uma visão mais clara sobre o que estava a acontecer, o gráfico a seguir mostra os saldos sectoriais para a Finlândia, de 1980 (usando dados WEO do FMI).
São relações contabilísticas derivadas das contas nacionais e capturam o saldo externo (linha azul), o saldo orçamental (linha a vermelho) e a posição da despesa interna privada (linha a verde).
A contabilidade na Moderna Teoria Monetária parte da relação que os défices orçamentais (excedentes) devem ser iguais aos excedentes não-governamentais (défices) como o seu ponto de partida. O sector não-governamental é ainda decomposto em sector externo e em sector privado interno.
Desde modo, se o sector externo é excedentário a nação goza de impulso de rendimento líquido, enquanto que se o sector externo está em défice, este sector está a deslocar despesa e rendimentos para o exterior da economia nacional.
Se o sector privado interno está na situação de excedente significa isto que está globalmente a poupar ou a gastar menos do que o seu rendimento e vice-versa.
O gráfico expressa estas posições em percentagem do PIB .
O gráfico mostra que no período que antecede a crise, os excedentes do sector externo (dinamizando a despesa local) eram suficientes para permitir que o governo tivesse excedentes orçamentais sem que com isso se prejudicasse a poupança global do sector privado da Finlândia.
Uma vez atingida pela crise e depois do decréscimo nas receitas de exportação ter levado à redução do excedente externo foi o acentuado aumento do défice orçamental que apoiou o aumento da poupança global privada (enquanto que a precaução se tornava a preocupação das famílias e das empresas).
Mais recentemente, com o sector externo a drenar consumo para o exterior através dos défices externos (em grande parte devido à crise na Rússia e ao impacto da austeridade da zona euro sobre os mercados de exportação ) e o sector privado interno a ter decidido aumentar a sua poupança global, o défice orçamental tinha de aumentar.
Qualquer tentativa de impor maior austeridade na tentativa de regressar à posição orçamental excedentária seria desastrosa para a economia da Finlândia.
A economia precisa claramente de um estímulo orçamental substancial em face da preocupação do sector privado em aumentar a sua poupança global e o sector do comércio externo em dificuldade.
Os movimentos na REERs não são concordantes com a ideia de que foram os custos salariais excessivos que prejudicaram a competitividade da Finlândia.
Mais ainda, utilizando a base de dados AMECO da Comissão Europeia, os custos unitários do trabalho em termos reais na Finlândia no período 2000-2010 cresceram de 5,51 por cento, inferiores a alguns dos aumentos salariais duramente alcançados.
No mesmo período, os custos unitários do trabalho em termos reais na Alemanha desceram de 5,2 por cento, mas nações como a Irlanda viram «os seus custos unitários do trabalho em termos reais a aumentarem de 7,9 por cento, os da Grécia 7,6 por cento, os da Itália 6,9 por cento e os do Luxemburgo 8,4 por cento.
Desde a crise (2010-14), que a Finlândia tem tido apenas um modesto aumento nos custos unitários do trabalho em termos reais (1,6 por cento) em comparação com a Alemanha 1,8 por cento, com a França 1,4 por cento, Itália 0,7 por cento e com os Países Baixos 4 por cento.
Obviamente, estes custos caíram drasticamente na Irlanda entre 2010-14 (6,1 por cento), na Grécia 8,6 por cento, na Espanha 4,9 por cento, em Chipre 10,2 por cento e em Portugal 5,3 por cento.
A Finlândia assentou a sua dinâmica de crescimento no sector de bens e serviços exportáveis que se bloqueou em grande parte porque o resto do mundo entretanto bloqueou as suas importações.
Essa realidade não se repetirá se carregarmos e punirmos a economia internamente com uma dura desvalorização interna (cortes de salário real etc) e cortes nas despesas públicas.
Finalmente, o desaparecimento da Nokia tem sido uma grande perda para a economia finlandesa. Sendo certo que não sou um economista especialista em Economia Industrial, especialista nos pontos fortes e fracos desta empresa em particular, é para mim certo de que o declínio desta empresa e a sua aquisição pela Microsoft não estão ligados nem a salários excessivos nem ao défice orçamental.
A Nokia não perdeu quota de mercado porque os aumentos salariais teriam prejudicado a sua capacidade de competir no mercado mundial.
Este artigo (4 de Setembro de 2013) – How bad calls led to Nokia’s demise, disponível em : http://www.businessspectator.com.au/article/2013/9/4/technology/how-bad-calls-led-nokias-demise – dá-nos uma representação razoável do que aconteceu. Eu li muitos artigos sobre o desaparecimento da Nokia nos últimos anos. Este é um dos que poderíamos considerar como uma opinião de consenso.
Como irão ver o seu desaparecimento tinha pouco a ver com salários.
-
“o gigante finlandês dos telefones cresceu perigosamente intoxicado pelo seu próprio sucesso durante a década de 1990 e no início dos anos 2000. Tendo chegado tão alto e durante tanto tempo, não é talvez nenhuma surpresa que um certo grau de complacência e arrogância tenha estado na origem da sua queda tal como já tinha acontecido com Motorola e Kodak”.
-
“Uma tal intoxicação pelo sucesso deixou Nokia altamente vulnerável a perturbações, que rapidamente apareceram com os smartphones.”
-
“Nokia era uma empresa que foi vítima de isolamento geográfico” (localização errada nos Estados Unidos – sem sinergias, etc.)
-
“um terceiro factor causal no desaparecimento da Nokia foram os seus sufocantes níveis de burocracia” – que viu a sua gestão cair para trás “da curva”, quando no início dos anos 2000 ia claramente bem à frente ca concorrência. Em particular, sete anos antes da Apple, Nokia recusou-se a apresentar e a lançar ao público “écrans em cores e sensíveis ao toque, software de mapeamento, e funcionalidade de e -comércio ” e ignorou os seus engenheiros técnicos que também tinham “projectado um computador tipo tablet sem fios e com internet, muito antes do iPad ter sido imaginado”.
O seu departamento de investigação foi “desligado do departamento operacional da empresa, que eram os responsáveis pela apresentação e colocação de produtos no mercado”.
-
“O exemplo da Nokia é um exemplo de quão crítico é antecipar mudanças no mercado e de se adaptar antes de ser forçado a fazê-lo”.
Para mim, isto parece ser sobretudo uma falha de gestão – ao invés de se considerar que foram gananciosos sindicatos que minaram a competitividade de uma empresa capaz.
Vários estudos de casos que eu estudei sobre o desaparecimento da Nokia e de outras grandes empresas reforçam a ideia de que a gestão fica prisioneira na sua própria visão e pensamento e em que este moldou padrões de comportamento e os isolou da realidade. Transformaram-se nas suas próprias lendas.
Conclusão
Enquanto que o anterior governo da Finlândia merecia ser demitido, as coisas irão piorar se o novo governo adoptar uma postura ainda mais dura de austeridade na esperança de que a Finlândia possa de alguma forma voltar a ter a sua dinâmica de crescimento assente nas suas exportações.
A austeridade vai frustrar quaisquer tentativas de promover a inovação industrial nesse país e acabará por se tornar responsável por uma corrida para o abismo da Finlândia – onde em geral as pessoas (e as empresas) se irão esmagar.
Bill Mitchell – billy blog, Finland – more austerity is not the answer.
Texto disponível em: http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=30697
Publicação autorizada pelo autor.
________
Ver a Parte I deste texto de Bill Mitchell, Finlândia: mais austeridade não é seguramente a resposta, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, em:
FINLÂNDIA: MAIS AUSTERIDADE NÃO É SEGURAMENTE A RESPOSTA – por BILL MITCHELL – I




