EDITORIAL – O negócio das sondagens

logo editorialTal como nas proximidades dos estádios de futebol em dias de jogo, se concentram as tendas e roulotes de petiscos e bebidas, de venda de cachecóis e de outros produtos relacionados com o acontecimento, com a aproximação dos períodos eleitorais, as sondagens começam a surgir e são um negócio e muito mais rendível do que o das bifanas e cervejas. São também uma montra onde a inconsciência de um eleitorado cada vez mais reduzido vai ficando patente. E a falência de um sistema dito democrático, também.

Como é possível que partidos como o PSD, o PS, o CDS, provado que está não serem dignos da confiança dos cidadãos, continuarem, sozinhos ou coligados, a dominar o plano político – o caso do CDS é paradigmático – partido insignificante vai beneficiando da boleia que o PSD lhe dá. Mas não se cansam os seus responsáveis de proclamar a sua importância, pois, tal como os minúsculos pássaros que catam insectos no dorso dos paquidermes, guindados ao poder por força de um sistema anómalo e anti-democrático, sentem-se grandes. Um sistema que se apoia na vontade das maiorias como pode levar ao poder organizações que os cidadãos, no seu conjunto, visivelmente repudiam? Não se trata de avaliar a justeza de posições políticas em função dos votos obtidos, nem de considerar que uma minoria de direita vale menos do que uma de esquerda. A contradição não é nossa – é um paradoxo criado pelo «jogo democrático» – baseia-se em maiorias e premeia minorias.

É uma espécie de jogo – eis a síntese de uma das mais recentes sondagens – «O PSD este mês sobe 1.5% nas intenções de voto, fixando-se nos 26.7% e reduzindo a diferença para os socialistas, que este mês descem seis décimas para os 37.5%.O CDS alcança 8.0%, numa altura em que ainda não se sabe se os dois partidos do governo concorrem coligados ou não. Numa previsão de coligação pós eleições PSD e CDS obtêm 34.7% das intenções de voto. Além do CDS, também o Bloco de Esquerda desce uma décima nas intenções de voto. O mesmo acontece com o partido Livre e com o Partido Democrático Republicano, de Marinho e Pinto, que perde duas décimas face ao mês anterior.O PCP aparece em sentido crescente, tendo subido seis décimas e conquistando 10.2% das intenções de voto…»

O que é isto? Uma corrida de lebres?

A abstenção é uma atitude condenável. Mas começa a ser compreensível a decisão de não participar numa farsa, numa cadeia de manipulações, de influências, de falta de vergonha. Este sistema afasta cada vez mais pessoas – muitos será porque entre a praia e a mesa de voto, a praia vence. Outros, será porque não era a esta corrida entre profissionais da política, em que  vence o que contar mais mentiras, que aspiravam. O «sistema» vive também desta crescente tendência abstencionista. É a espiral descendente que vai da democracia à oligarquia, uma depuração que elimina o que sendo mais puro, inquina a putrefacção.

 

 

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