ESTADOS UNIDOS – RÚSSIA: AS PÁLPEBRAS PESADAS – QUEM DECRETOU QUE PUTIN ERA NOSSO INIMIGO? – por RÉGIS DE CASTELNAU

putin + kerry

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Estados Unidos-Rússia: as pálpebras pesadas

Quem decretou que Putin era nosso inimigo?

Régis de Castelnau, États-Unis-Russie: les paupières lourdes – Qui a décrété que Poutine était notre ennemi?

Revista Causeur, 14 de Maio de 2015

 

Na verdade um sábio provérbio chinês diz-nos : “os homens assemelham-se mais ao seu tempo que aos seus pais” 1, dizia o grande Marc Bloch. Acrescentando que os factos históricos eram, por essência, factos psicológicos.

Por exemplo a Segunda Guerra mundial, o desmoronamento de Junho de 1940 e a ocupação ocupam um lugar bem particular na memória francesa. A tragédia de que o nosso país nunca se recompôs, iniciou o processo da nossa saída da História. Isso explica as visões sucessivas deste passado, porque a França é, desse ponto de vista, doente. Fatalmente, como muito bem o compreendeu Marc Bloch, estas utilizações do passado, pretendendo clarificá-lo, são apenas utilizações políticas. E a memória é a máscara da ideologia. O passado reserva-nos outras surpresas. Porque sabemos com Michel Foucault “que se mostra às pessoas não o que elas foram, mas o que é necessário para que se lembrem do que foram . ”2

E quando este fenómeno se combina com um verdadeiro trabalho de propaganda tal como os media franceses disso fizeram a sua especialidade, isso pode falsear o raciocínio e levar completamente, mesmo os mais informados, a cometerem enormes erros. O que se passou em redor do 70º aniversário da vitória “da Grande Aliança” sobre a Alemanha é uma muito boa ilustração. Dado o seu total seguidismo, milimétrico mesmo, relativamente à estratégia americana, enfim, aquela que se imagina, o nosso Presidente da República ignorante da história, mas igualmente do presente, passou completamente ao lado do que é importante.

A questão de se saber quem ganhou a guerra, evidentemente, está esclarecida. Foi uma aliança, onde os soviéticos fizeram o esforço principal na Europa, e os Americanos no Pacífico. Sem estar a esquecer a coragem britânica inicial na sua recusa em capitular, o que foi estrategicamente decisivo. Então, os russófobos compulsivos dir-nos-ão que não foi assim, acompanhados por aqueles que assimilam Staline e Putin. E é aí que se situa o problema, esta posição sendo apenas a máscara de uma ideologia que quer fazer da Rússia actual a continuação mecânica da URSS de outrora. Justificando assim a estratégia americana destinada a levar-nos para a situação dos anos 90 ou seja a de um país vassalo. Estratégia procedente “da vitória” na guerra fria e do conceito “de excepcionalidade” dos Estados Unidos. E isto tem sido contudo objecto de debates, por vezes severos, neste país. Uma sondagem recente de Gallup dava conta de que 76% dos Americanos eram favoráveis a um regresso à uma certa forma de isolacionismo

Os dirigentes franceses, com todo o seu atlantismo ultrapassado frisaram bem, muito ansiosos, que a França está a ser a melhor aluna do grande irmão. Confundindo fidelidade e servilismo.

François Hollande, por conseguinte, não foi à Moscovo para o 9 de Maio. Erro grosseiro. Não porque seja insultuoso para o povo Russo, este é a isso indiferente. Mas porque tacticamente, ao maltratarem a história, tratam a Rússia como um inimigo. Como o fazem a Polónia ou a Lituânia que elas, estas duas nações, contudo, têm algumas razões históricas para isso. E os russos desconfiam. Com Napoleão, e Hitler, sabem bem o que ser invadido quer dizer.

Mas se decretamos que a Rússia é o inimigo, ainda seria necessário saber com quem nos confrontamos. As cerimónias organizadas em todo o país deram uma ideia. Debrucemo-nos sobre alguns detalhes bem reveladores. No início do desfile, Sergueï Shoigun Ministre da defesa de pé no seu automóvel entrou na Praça Vermelha para passar em revista as tropas que iam desfilar. Toda a Rússia o viu, passando sob a arca “do Cristo Salvador”, ele mongol budista a retirar o seu capacete e fazendo o sinal da cruz da religião ortodoxa.

Em memória das mortes da guerra, em seguida, toda a Rússia arvorava a faixa de Santo Georges. A da ordem instituída por Catherine II, em 1789 para recompensar oficiais e soldados. Ordem militar de Santo-Georges, mártir e vitorioso, suprimida por Lenine e recentemente restabelecida.

“Viva o Povo vencedor!”, de Putin, foi seguido pelo desfile “do regimento eterno”. Várias centena de milhares de pessoas que serpenteavam os passeios da capital empunhavam os retratos dos seus pais, avós, antepassados que tinham participado no formidável esforço “da Grande Guerra Patriótica”. François Hollande se tivesse ido a Moscovo ter-se-ia cruzado com um povo que acredita no seu país. Quem, como o dizia Philippe Séguin “absorveu o comunismo como um mata-borrão”, e desiludido pelo Ocidente, vai voltar-se de novo para a Ásia. Não se lê mais Marx na Rússia, mas sim Berdaïev e Soljenitsyne. Não muito bolchevique tudo isto, mas na Santa Rússia restaurada, a ideologia slavophile[1] tem a sua palavra a dizer. Não é necessariamente o que me encanta, mas vai bem ser necessário lidar com esta realidade.

Angéla Merkel e John Kerry menos míopes que François Hollande tentaram adaptar-se. Fazendo rapidamente a viagem de Moscovo. Não devem acreditar no que poderiam ler no Journal du Dimanche e no Liberation a propósito das cerimónias do 9 de Maio: “Putin sozinho”, “Putin isolado”. Títulos absolutamente débeis e que dizem muito sobre a cegueira propagandística de certos meios de comunicação social. Vladimir Putin não está só. Chefes de Estado que representam metade da população mundial, nada menos que isso. E porque é os presidentes chineses e indianos estavam lá e porque é que as suas tropas desfilaram? Porque, preocupados com a sua “autonomia estratégica”, um como o outro já perceberam com a crise ucraniana e a atitude americana que seria inteligente juntarem-se e responderem às solicitações políticas, económicos e estratégicos russas. Mas os nossas superiores espíritos não têm nenhuma ideia de que se passa nestes países. Regressando de um périplo na China esta evidência saltou-me aos olhos.

É legítimo, para além da mediocridade da política externa francesa, interrogarmo-nos sobre a cegueira dos Estados Unidos e da Europa. Quem é que ao desencadear um golpe de Estado na Ucrânia, provocando uma guerra civil, acredita “trazer a Rússia à razão”! Um presente real feito à Vladimir Putin, que pôde assim recuperar a Crimeia sem problemas. Ligar os russos à sua volta como o acabam de demonstrar estas cerimónias. Aproximar-se da China e a Índia, estes então convencidos que não há muito a fazer com os EUA. Relançando a dinâmica dos BRICS. As sanções e os ataques especulativos contra o rublo por embaraçosos que possam ter sido no início, hoje estão absorvidos. Novos circuitos foram criados. Os fornecedores europeus ficarão com os custos.

Parece que as palas começam a cair dos olhos. A conferência de imprensa consecutiva à visita de John Kerry à Sotchi, mostra bem os ocidentais estão ligeiramente incomodados e que não é impossível que nos encaminhemos para um apaziguamento.

Restem ainda os barcos Mistral, vendidos à Russia mas não entregues. Pouco provável que estes interessem aos cubanos (que François Hollande foi visitar, uma vez obtida a autorização americana…). Mas de toda a maneira, para os vender a alguém , é necessário o acordo dos russos…

Hollande isolado ?

  1. Marc Bloch, Apologie pour l’histoire, Armand Colin.

  2. Michel Foucault. Dits et écrits 1954 – 1988. Gallimard

Declarações na imprensa em Sochi a que se alude no texto acima :

“Não estivemos sempre de acordo durante o nosso encontro mas o encontro de hoje permitiu que nos passemos a compreender melhor ”, disse Lavrov, o responsável russo, aquando de uma conferência de imprensa comum com o secretário de Estado americano, John Kerry, no fim de quatro horas de conversações com o presidente Vladimir Putin. “

John Kerry, que deve estar na quarta-feira em Antalya, na Turquia, para participar numa cimeira da NATO, pelo seu lado sublinhou “a necessidade urgente” de encontrar uma posição comum nos processos espinhosos que agitam o mundo.

Além disso avançou a ideia de um levantamento das sanções ocidentais, adoptadas por etapas depois da anexação da Crimeia pela Rússia, se forem respeitadas as tréguas forem respeitadas na Ucrânia – uma maneira de recordar aos Russos a sua influência sobre os separatistas.

O secretário de Estado americano e o seu homólogo russo “puseram-se de acordo (…) em se concentrarem sobre um só um objectivo: fazer de modo a que os que assinaram os acordos do 12 de Fevereiro (em Minsk) os respeitem ”, anunciou. Lavrov.

Do seu lado, John Kerry considerou que “o recurso à força por qualquer parte actualmente (do conflito ucraniano) seria extremamente destrutivo”, o que significa um duche frio sobre as ambições do presidente Petro Porochenko em querer retomar pela força o controlo do aeroporto de Donetsk, que está nas mãos dos separatistas.

Régis de Castelnau, Revista Causeur, États-Unis-Russie: les paupières lourdes. Qui a décrété que Poutine était notre ennemi?. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/poutine-kerry-russie-hollande-32834.html

*Photo : Joshua Roberts/AP/SIPA. AP21733984_000006.

[1] Da Enciclopédia Britânica: “Slavophile, in Russian history, member of a 19th-century intellectual movement that wanted Russia’s future development to be based on values and institutions derived from the country’s early history.”

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