A GALIZA COMO TAREFA – Imaginários quebrados – Ernesto V. Souza

a_sombraQuando escrevo procuro palavras, frases, imagens que o meu cérebro percebe semântica ou foneticamente ligadas; na minha escrita transformam-se, na cadência, em reforços das associações, metáforas, flashes elucidativos de ideias que pretendo introduzir. Sou imitador de clássicos ou leitor dos clássicos e do pouco que aprendi é que qualquer encenação, discurso ou pequeno teatro deve ter uma boa entrada e uma melhor saída. Se tem algo entre, já é mesmo de mais.

O português é uma das línguas mais policêntricas entre as espalhadas pelas partidas do mundo. Escrevermos para um público universal é difícil, sempre é mais grato escrevermos para gente da casa. Desassossega, não fazermos pé, o mar é alto e desconhecemos, preconceituamos ou simplesmente não compartilhamos os comuns culturais, os horizontes de expectativa dos leitores: a língua, o domínio da gramática, da ortografia não é suficiente para garantir diálogo.

As metáforas, as associações, as imagens baseiam-se em contextos previstos, numa cumplicidade que se estabelece e forja delicada em lugares-comuns, convenções, no repertório de piadas e imagens, sobre-entendidos, itens referenciais e palavras da tribo. Há um acervo cultural de usos complexos, de modas, de temporalidades, de códigos, de permitidos, de vetados, de níveis.

A escrita é mais que gramática, mas não apenas estilística:  os códigos aceites, as convenções, são apenas uma formalização de correntes de sensações, modismos e frases feitas, de palavras que esperamos na sintática e fonotática que associam ou temos aprendido como associadas, possíveis, esperadas.

O ritmo, a estrutura sintática da frase, os tratamentos, as formas verbais preferidas, as imprecações e palavrões justamente postos. O humor, sendo o mesmo na estrutura, é diferente nas escolhas e varia em função de grupos, classe, regiões. As adversativas, as condicionais, as comparações, os epítetos, a copiosa fraseologia da língua portuguesa: é um equilíbrio com infinitos elementos em desequiíbrio.

Não é doado, não, escrever ou construir uma língua literária, são necessários e inerentes modelos e tradição, seja para seguir, seja para entendermos e fazer entender contra que se rompe. Por isso, por vezes, é complicada ou incompleta a comunicação. Mais perigosos que os falsos amigos lexicais ou os erros morfo-ortográficos, são os erros de estilo, registro e os falsos amigos contextuais.

Da Galiza, a tarefa de restauro é imensa, e é cousa difícil. Africanos, americanos, asiáticos, europeus, num variado leque de épocas, registros, estilos, dialetos, conformaram e conformam a Língua Portuguesa. Um galego da Crunha que escreve desde o Valhadolid tão castelhano, não pode evitar fazê-lo com a hesitante e excitada perplexidade do navegante que abandona a cabotagem conhecida e se larga aos longos percursos.

Talvez para se conseguir o que se pretende mais útil fosse frequentar jornais atuais, espaços na rede, blogues, artigos de opinião sobretudo: internetar e fazer parte do presente e dele recuperar um passado e inventar a tradição necessários para qualquer futuro.

 

 

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