POLÓNIA : A RECOMEÇAR COMO EM 39! UHLANS CONTRA PANZERS, BIS? – por PAULINA DALMAYER

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Polónia: a recomeçar como em 39!

Uhlans contra panzers, bis?

Paulina Dalmayer, Pologne: c’est reparti comme en 39! – Uhlans contre panzers, bis?

Revista Causeur.fr, 11 de Abril de 2015

Polónia - I

Dir-se-ia que há algo de do novo a leste, e mais precisamente na Polónia… Pela primeira vez desde há mais de quinze anos, o ministério polaco da Defesa lançou uma convocação “imediata” de cerca de 500 reservistas, sobre um total de 12.000 susceptíveis de se apresentarem este ano ainda para os exercícios militares obrigatórios: operações destinadas a controlar as suas aptidões à mobilização e ao combate. E não é tudo. Publicado em Março passado, uma deliberação do mesmo ministério dispunha que para além dos reservistas, todos os que são medicamente aptos a servir mas que nunca tiveram treino militar arriscam-se a ser chamados em teoria para se apresentarem numa caserna.

Tratar-se-ia então de milhares de jovens e de homens menos jovens. Por fim e não menos importante, o ministro Tomasz Siemoniak convidou em pessoa, sobre as ondas da muito ouvida rádio RMF, “qualquer um de idade entre os 18 e os 50 anos, a participar voluntariamente nos exercícios militares”. Será muito pouco dizer que foi ouvido. Nos três dias seguintes à sua intervenção radiofónica, os militares receberam os pedidos de mais de mil pessoas prontas para enfiar o equipamento de combate. Seria conveniente aqui referir e salientar o impulso patriótico dos Polacos, com a excepção de que a maioria destes voluntários não correspondiam realmente à expectativa dos exércitos… Abstracção feita de 300 mulheres, em princípio qualificadas para os exercícios mas de que os militares não sabem o que fazer com elas. Outros voluntários, no entanto experientes, foram recusados. Assim não foi aceite a candidatura de um septuagenário de Varsóvia, como não foi a de um homem de 85 anos que queria inscrever-se com o seu cavalo, argumentando que uma vez armado estaria melhor que todos os outros no combate ao inimigo. Os uhlans contra os panzers? Há por aqui o ar de coisa já vista. …

Siemioniak tem razão em declarar que quer ouvir que a chamada dos reservistas “não deve estar associada aos acontecimentos actuais, políticos ou militares “, fazendo assim uma clara alusão à situação em Ucrânia, se bem que na rua e na imprensa não se faale de outra coisa. Por um lado, desde Fevereiro de 2014 que o ministério do Interior polaco dispõe de um plano de acção para acolher uma massa de refugiados ucranianos mas que até agora ninguém viu chegar, ainda que os Ucranianos sejam cada vez mais numerosos a procurar asilo na Polónia – cerca de 18.000 pessoas vindas de outra margem do Bug tentam actualmente obter uma carta de estadia ou um estatuto de refugiado. Por outro lado, os cenários catástrofe têm actualmente o vento em popa de tal modo que as personalidades geralmente reservadas, e precisamente apreciadas pelo seu cepticismo em relação todas as espécies de teorias da conspiração se empenham doravante a atribuir aos Russos intenções que (provavelmente) não têm não ou ainda não têm. A palma na matéria parece pertencer à Anne Applebaum. Esta, editorialista no Washington Post, formada por Oxford e Yale, laureada do Prémio Pulitzer, exaltou sobre o sítio Slate.com os benefícios da histeria: se no verão de 1939 os Polacos se tivessem mostrado mais activos e menos ingénuos, só teriam podido ter razões para se felicitarem alguns meses mais tarde. Certamente, a análise de Applebaum vale o que vale. O que aqui importa é que em Varsóvia esta se evoca e se discute, tentando ao mesmo tempo atenuar a virulência, porque é Applebaum que o escreveu. E Applebaum, é necessário precisar, é também a mulher do actual presidente do Parlamento polaco, que anteriormente dirigiu o ministério dos Negócios estrangeiros e o da Defesa. Então, quando se faz de repente a chamada dos reservistas, pensa-se unicamente em familiarizá-los com as novas armas e o novo equipamento, ou rende-se à tentação de levar as intenções de Anne Applebaum a sério?

A recente piada do cabotino preferido por Putin e acessoriamente chefe do partido liberal-democrata, Vladimir Jirinovski, que lançou na televisão russa a ideia de utilizar a arma nuclear contra a Polónia, não seria uma prova suficiente da iminência de uma guerra à escala europeia? “De acordo com o presidente Putin, as declarações de Jirinovski não reflectem a posição oficial da Federação”, é propensa a reconhecer Anne Applebaum sem, no entanto, largar o tema. “Em 2009 e em 2013 o exército russo tem certamente e às claras efectuado exercícios de ataques nucleares sobre Varsóvia”, recorda. Sabemo-lo.. Desde 2010, a doutrina militar russa prevê, se próprio Estado estiver ameaçado, o recurso à arma nuclear em resposta a um ataque convencional. Mas de momento o Estado russo não está ameaçado. E até agora, tão picado que ele esteja, Jirinovski não teve êxito em querer meter medo às pessoas, mesmo quando mujia a dizer que era necessário bombardear o Japão e recuperar o Alasca pela força. Em Varsóvia contudo prefere-se soprar sobre o calor e sobre o frio. Por conseguinte quanto a saber se vai haver ou não uma guerra, afirma-se sabiamente que não haverá e faz-se o que é possível fazer.

O general na reforma, Piotr Makarewicz, antigo Major-General do Exército, é dos que acalmam os espíritos. “Não temos nenhuma importância estratégica nem económica. Que valor representa Varsóvia como objectivo militar? Nulo”, diz ele aos seus compatriotas que gostam de pensar que a capital polaca não tem nada a invejar a Washington em termos de prestígio. Isto explica em parte talvez o facto que os Polacos tenham duplicado as suas despesas em matéria de defesa nos dez últimos anos, atribuindo ao mesmo tempo um orçamento quase de 40 mil milhões de dólares à modernização do seu exército. Não é nada, dirão alguns. Os Russos preparam-se para fazer o dobro. Aí está com que se preocupam os Polacos que eram numerosos, nestes dias, a saudarem os soldados americanos cujos comboios atravessavam o país no âmbito da operação “Atlantic Resolve”. Organizada oficialmente com o objectivo “de tranquilizar os seus aliados, demonstrar a sua liberdade de movimentos e prevenir qualquer agressão sobre o flanco oriental da NATO”, a operação além disso terá atingido brilhantemente o seu objectivo oficioso – assustar os russos. Sobretudo no mesmo momento em que a primeira entrega de armas não-letais americanas destinadas às forças armadas ucranianas deixava os aviões de carga USAF. Se não é conveniente falar de guerra, é também injustificado falar de abrandamento de tensão.

Face a uma crise ucraniana de saída incerta, o exército polaco que conta 100.000 homens procura por todos os meios colocar operacionais os seus reservistas e evitar um regresso ao serviço militar obrigatório, como foi o caso na Lituânia. A preocupação é que a passagem a um exército inteiramente profissional se efectuou às expensas da manutenção da situação das forças de reserva. Actualmente, ninguém sabe quanto reservistas chamadas a apresentar-se imediatamente nas suas unidades estarão realmente aptos a servir e quanto trabalham na Inglaterra. Apesar das aparências, contar sobre o empenho patriótico no caso de conflito armado seria imprudente. De acordo com uma sondagem realizada no passado mês de Março, somente 29% dos Polacos se declaram determinados a defender o seu país contra uma agressão. Tendo em conta o resultado, os militares fariam melhor em guardar o número de telefone do octogenário acompanhado do seu cavalo.

Paulina Dalmayer, Revista Causeur.fr, Pologne: c’est reparti comme en 39!

Uhlans contre panzers, bis?, Texto disponível em: http://www.causeur.fr/pologne-reservistes-armee-defense-russie-ukraine-32287.html

photo : Wikimedia Commons

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