Num só ano, 1600 mulheres e crianças passaram por casas de abrigo, assim diz o Jornal Público de 19 de Junho, num artigo assinado por Andreia Sanches.
Mulheres sós, mulheres com dívidas, mulheres desempregadas e com filhos, com poucas habilitações académicas procuraram quem as pudesse proteger do homem que vivia com elas.
As casas de Abrigo estão cheias de mulheres batidas, humilhadas, pobres.
A auto estima destas mulheres está abaixo do chão, como dizem os seus corpos já disformes por gravidezes, por vezes, não desejadas, como dizem os seus olhares vazios…Pegam nos filhos ao colo para que não chorem lembrando-lhes que já levaram muita pancada, até quando estavam grávidas!
Sentem na alma a injustiça de uma sociedade que permite que o agressor fique em casa e que as vítimas tenham que sair.
Que maldade social!
Como se pode consentir que crianças e mulheres mal tratadas sejam-no também pela sociedade, pelas leis, a que pertencem.
Sim, estas vítimas fazem parte da nossa sociedade, têm o mesmo direito ao conforto,…os pobres e os indefesos não têm ninguém, a não ser os filhos até estes começarem a dar problemas na escola, na rua…
Sós, e sem dinheiro para sobreviverem, recorrem à ajuda da acção social escolar, ao banco alimentar, à AMI. Hoje há comida, amanhã logo se vê.
À noite, determinadas ruas do centro de Lisboa começam a ter um movimento estranho, porque recente, de homens, de mulheres, novos, menos novos , envergonhados, encostados às paredes à espera que chegue a carrinha da ajuda alimentar.
Muitos deles tinham emprego, mas as políticas sociais deste governo não olham para os olhos destas pessoas, olham para os bolsos a ver se conseguem baixar mais as pensões, se conseguem não conceder mais subsídio de desemprego..
Que bons alunos temos sido relativamente à austeridade!
Não há comida, não se come; não há casa, dorme-se na rua.
Mulheres e crianças maltratadas, nas suas casas pelos companheiros, fogem para uma casa de abrigo ou para a rua enquanto o agressor fica em casa.
As mulheres e as crianças é que têm que aprender a viver de novo. Mas como? Quem quer aprender o que sabe, por experiência própria. Outro homem aparecerá e a vida violenta rola…rola.. e os filhos têm problemas disciplinares nas escolas, nas ruas, nos transportes públicos…e a violência, crime público, espreita todos os dias durante 24 horas, e a violência vem para os jornais, e a violência torna-se banal, torna-se num modo de vida…
“Sabe, professora, eu só consegui descansar um pouco quando estive oito dias no hospital, nessa semana dormi sem medo.” (mãe de oito filhos, casada com um homem agressivo…) 1998, Lisboa.