MUNDO CÃO – “EUROPA À DERIVA” – por José Goulão

Mundo Cão

Ao contrário das aleivosias debitadas pelos escribas de serviço aquém e além-fronteiras, o que se passa com a Grécia não é uma “tragédia grega”, é um processo de deriva da União Europeia que envolve todo o continente, porque um abalo como este não reconhece fronteiras.

E por muito que se busquem bodes expiatórios, habilidade que serve recorrentemente para fugir à essência dos problemas, a culpa não é inteirinha do senhor Schauble, ou da senhora Merkel, ou da senhora Lagarde, ou do senhor Juncker, de todos juntos ou das supostas intransigências dos senhores Tsipras ou Varoufakis.

O que se passa com a Grécia é o fracasso rotundo do chamado “projecto europeu”, da moeda única, da estafada lenga-lenga do espaço comunitário “democrático e solidário”. Não se venha igualmente com o argumento de que estes políticos não prestam, bons sim eram os “pais fundadores”, todos eles homens de Estado cheios de boas e nobres intenções, muito amigos dos pobres e desvalidos. Tretas.

A União Europeia, se é ou foi um “projecto”, nasceu inquinado, proclamou como objectivos mirabolantes aquilo que nunca passou de propaganda, enquanto a realidade era outra. A Comunidade Económica Europeia – e os seus sucessivos arranjos – nasceu e desenvolveu-se como uma forma de reorganização do capitalismo e da exploração do trabalho na Europa, como instrumento da guerra fria, a par da NATO. E foi em paralelo com este braço armado que enveredou pela lógica sociopata do neoliberalismo quando teve condições para isso, a seguir ao descalabro soviético. Ao ritmo frenético, eufórico, sem freios imposto pela anarquia própria do casino financeiro, a Comunidade foi queimando etapas, cresceu como um monstro sem consolidar esses supostos avanços, convenceu-se da impunidade absoluta e chegou aonde não contava chegar, fiada na eficácia do rolo compressor: ao momento em que o rei vai nu. Se ele tem a cara de Scheuble, ou Merkel, ou Lagarde são pormenores. Não são seres isolados, como Hitler não era um lunático sozinho. Por detrás deles espreitam os de sempre, neste momento muito, mas mesmo muito mais fortes que há sete décadas, assentes em suportes tecnológicos de capacidades incalculáveis, na concentração monopolista e monstruosa de marcas e empresas, na universalização ditatorial do mercado, na dimensão global do casino financeiro, que especula ao segundo com muito mais riqueza virtual do que a real, a que resulta de actividades produtivas.

A Grécia é o grãozinho na engrenagem que chegou contra a corrente e se transformou num enorme pedregulho. Afogada por uma crise que se arrasta, a União Europeia vê-se perante um inesperado frente-a-frente, um risco que julgava ter banido durante a triunfal cavalgada: o ajuste de contas entre a democracia e a gula sem limites do império económico-financeiro, representada pela tropa de choque dos seus agiotas.

Tratados como escravos, verbos de encher, peões descartáveis da estratégia da especulação que tem na União Europeia germanizada o seu braço político operacional no continente, os gregos mostraram, quando não se esperava e para surpresa dos carrascos financeiros, que o que ainda resta da democracia pode servir para furar o cerco do arco da governação.

Este frente-a-frente, uma espécie de duelo de David contra Golias, pode ter até o resultado que ficou inscrito na lenda. Basta que a Grécia não ceda e poderá chegar o dia das surpresas. Sair do euro não é, para os gregos – e assim seja igualmente para o seu governo –, uma mera questão de dignidade. Apesar das dúvidas que existem quanto às consequências, será um mal menor em que terão de contar – isso diz-nos respeito a todos – com a solidariedade activa dos povos do mundo e dos governos não sintonizados com o poder imperial. A cedência, pelo contrário, seria um revés para a resistência democrática que sobra, o triunfo exemplar à escala europeia da ditadura do arco da governação e dos agiotas que a teleguiam.

A saída da Grécia do euro será como tirar uma pedra da base de um castelo que parece imponente, assustador, soberbo, inexpugnável e que a partir daí se desmoronará sem apelo, apurando-se que fora construído sem alicerces nem argamassa. Não bastará dizer que a União Europeia nunca mais será a mesma. O mais certo é, mais-dia-menos-dia, é a União Europeia deixar de o ser. O que para os povos, verdade seja dita, não será nenhuma tragédia.

2 Comments

  1. Posso discordar inteiramente.
    A Grécia tem sido apoiada para além de toda a lógica. Efectivamente é um Estado que vive além das suas possibilidades, completamente desorganizado: não são pagos impostos, os descontos para as reformas são ridículos, estas antecipadas, a fraude impera e o sistema sobrevive à custa dos empréstimos que sucessivamente obtem.
    A Grécia só consegue viver assim, por causa das regras de uma economia que vive da possibilidade de se criar dinheiro.
    O Mundo viveu desde os anos setenta alanvacado numa economia em que a riqueza passou a ser sustentada no crédito. Foi dado crédito a todos, o dinheiro em circulação aumentou e isso possibilitou o maior desenvolvimento mundial de sempre: mais saúde, mais educação, desenvolvimento resultante de mais estradas, mais portos, aviões e equipamentos, etc, etc.
    Este boom económico foi absolutamente desregulado, criou em simultâneo enormes diferenças sociais, porque se o número de pobres aumentou, o bem estar não deixou de crescer, principalmente para os ricos que se tornaram muito mais ricos.
    A partir do final dos anos 90 começou a procurar-se por mais senso no sistema financeiro, e esse contraciclo criou a crise,
    A Grécia não vai sair do Euro. A Grécia vai ter de passar a ter um economia equilibrada, O espaço do Euro vai continuar a encontrar soluções também mais equilibradas em que os países menos desenvolvidos e o desemprego tenha apoios centrais equilibrantes, o salário mínimo em Portugal seja igual ao da Grécia, havendo um mínimo denominador comum, e, se necessário subsidiado pela União.
    A Europa e a zona Euro, tem a possibilidade de ser uma fonte de bem estar, em que os bens essenciais são produzidos por menos de 10 por cento da população, e os restantes 90 por cento ou estuda, ou está reformado, ou se dedica a actividades de entretenimento. Estes polos económicos deverão conseguir levar o bem estar a outros povos, através do turismo, do investimento em infraestruturas, em educação e saúde.
    Permitam a organização dos povos mais atrasados esse apoio e rapidamente a pressão emigratória sobre a Europa estancará.
    O que se passa no Mundo é que é possível produzir sapatos para quem já tem sapatos e os utilizará uma só vez, roupa que ficará guardada em armários, jogadores com contratos milionários, mas, também, reformados com pensões muito superiores aos descontos que fizeram, com acesso a saúde como uma qualidade nunca sonhada, sistemas de educacão cada vez mais sofisticados, etc etc.
    Esta Nova Economia nasce do crédito, do dinheiro em circulação ter deixado de estar amarrado a um padrão ouro, que, contudo, tem de ter regras de funcionamento que ainda se estão a descobrir.
    José Sócrates – cuja riqueza escondida em nome de um amigo resulta do aproveitamento das velhas regras terem sobrevivido – disse com acuidade: A divida não é para se pagar é para se administrar. A realidade é que a Nova Economia vive de a dívida que se contrai poder ser paga desde que sustentada.

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