Tsipras é um malfeitor comunista, por Jérome Leroy

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Tsipras é um malfeitor comunista

A prova é que toda a gente o diz

Jérome Leroy. Revista Causeur

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Pode-se esperar, isto incomoda um pouco a vista: o tratamento da questão grega pela imprensa francesa deste fim-de-semana tem a ver na sua maioria, dado o seu partis-pris, com o maior dos descaramentos possíveis, vergonhoso, diríamos. Tsipras é “um assaltante de bancos” para o jornal Les Echos, “um chantagista” para o JDD que explica-nos que é normal assim ser porque ele era comunista na sua juventude e é-o ainda um pouco. Com efeito, é conhecido, como se dizia num cartaz de propaganda das horas mais sombrias da nossa história: “Nem todos os vadios são comunistas, mas todos os comunistas são vadios”. O JDD precisa de resto num grande título : “A Grécia, acabou!” como Capri sem dúvida, embora Capri seja na Itália, a Itália que ela própria não está ao abrigo de um abalo ligeiramente forte no caso de Grexit, mas esta é uma outra história. “

O JDD sempre, nas páginas internas: “A Europa larga a Grécia”. São mesmo engraçadas estas questões de perspectiva: tínhamos tido absurdamente o sentimento de que se tratava exactamente do contrário. Do mesmo modo, foi considerado útil pelo JDD mostrarem-se indignados pelo passado de Tsipras, mas estranhamente não se interessaram pelo passado dos outros protagonistas desta história: porque não assinalar por exemplo, por preocupação de equidade, que Lagarde, presidente do FMI que disputa um segundo mandato, esteja colocada perante a justiça francesa desde Agosto de 2014 por causa da arbitragem entre Tapie e o Crédito Lyonnais enquanto era ministra das Finanças, porque não se lembrar que Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, é o antigo Primeiro ministro do Luxemburgo que fechou os olhos sobre o paraíso fiscal que era o seu país e que necessariamente conhecia os acordos fiscais secretos entre o Luxemburgo e 340 multinacionais – incluindo Apple, Amazon, Ikea, Pepsi ou Axa – celebrados entre 2002 e 2010 como o revelaram quase quarenta meios de comunicação social internacionais.

O mesmo homem, hoje, pede aos gregos que implantem um sistema fiscal… mas um sistema fiscal que não tire demasiado aos ricos, porque é perigoso. Está-se no direito de nos rirmos dele, mas o problema é que não sabemos se o riso deveria ser de amargura ou de divertimento. Quanto a Mario Draghi, presidem do BCE, porque é que o JDD não recorda também que é um antigo elemento da Goldman Sachs, sabendo-se que este banco que está na origem da crise dos subprimes de 2008 e sobretudo, para o que aqui nos interessa, por ser o banco que aconselhou à Grécia a utilização de produtos financeiros derivados para disfarçar os seus défices. Resumidamente, hoje, quando os nossos caros meios de comunicação social retomam complacentemente a imagem da Grécia drogada pelos empréstimos como o último dos drogados, porque é que não esclarece, nesta ocasião, que é o seu antigo passador da droga (Draghi) que está encarregado da cura de desintoxicação?

Mas o que é que Tsipras terá feito, este vermelho sectário, para merecer tal ódio frio por parte dos nossos meios de comunicação social? Terá decapitado dirigentes de empresas em nome do Islão? Terá mandado fuzilar as oligarcas de Potamia, este partido suposto de centro-esquerda a quem a UE faz os olhos de Chimène? Terá colocado na prisão Antonis Samaras, antigo chefe da direita conservadora de Nova Democracia, recebido em Bruxelas como um chefe de Estado enquanto que a sua pátria está perigo?

Nada disso. Tsipras disse exactamente que ia submeter a referendo as propostas “dos Europeus” (coloco entre e aspas por facilidade: é que eu mesmo sou europeu mas não tenho nada de comum com estes tecnocratas não eleitos). É terrível, um comunista a pede ao povo a sua opinião! As pessoas “muito inteligentes” objectam que Tsipras deveria pôr a questão da permanência no Euro: sim, é como na Disneylândia postdemocrática da UE, explica-se a um chefe de Estado o que este deve levantar como questão dado que este teve a ideia absurda de consultar directamente o seu povo. Imagina-se, de passagem, um Jeroen Dijsselbloem a explicar ao General de Gaulle: “Diga pois, meu velho amigo, o vosso referendo sobre a eleição do presidente pelo sufrágio universal, é coisa        que não nos agrada muito, e pertença do cesarismo, isso…” Tsipras, este, quer levantar a questão da aceitação ou não pelo povo grego das propostas da Troika. Se estas supuserem que a Grécia deva continuar a sua mundialização de Terceiro Mundo para permanecer no euro, cabe à Troika movimentar-se, não à Grécia. Ou então acabaremos por acreditar que “a Europa” quer sobretudo dar um exemplo, porque se trata de um governo de esquerda e que é necessário mostrar aos outros (Podemos, por exemplo) o que pode acontecer quando não se curvam o suficiente com a sua espinha dorsal.

A única relativa boa surpresa veio de … DSK! Ei sim, as vias da razão, como as do Senhor, são impenetráveis. DSK apelou aos credores que assumissem as suas perdas, como se diz, reescalonassem uma parte da dívida e que suprimissem a restante que reconhece ele mesmo como ilegítima. Ele sabe do que fala, ele está na origem do primeiro plano de resgate, o de 2010, que serviu unicamente que os bancos estrangeiros recuperam os seus empréstimos, e certamente que não a relançarem a economia grega. Em troca, a Grécia não receberia mais ajuda e tornaria a ser soberana dos métodos e das escolhas orçamentais para sair da situação em que se encontrava. No seio da UE ou fora.

É contudo um pouco bem mais digno, como ideia, que este golpe de Estado ao ralenti que dá a impressão de se ver escrever à frente dos nossos olhos um novo capítulo da Estratégia do Choque de Naomi Klein, onde se explica que o capitalismo e a democracia não têm mais nada a ver entre si, desde que a democracia entre em choque contra o capitalismo.

E esta é a situação em que nos encontramos, agora, na Europa.

Jérome Leroy. Revista Causeur ,Tsipras est un voyou communiste -La preuve, tout le monde le dit. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grexit-tsipras-communiste-33559.html

photo : AP/SIPA.AP21757482_000071

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